Brasil defende ‘posição equilibrada’ diante da crise no Irã
Fontes do governo falam em ‘situação difícil’ entre balancear princípios de soberania e direitos humanos, mas criticam ‘hipocrisia’ ocidental para justificar intervenções apenas em países ‘inimigos’
A gestão brasileira de Luiz Inácio Lula da Silva “continuará defendendo uma postura equilibrada” diante da crise no Irã e a escalada da tensão regional em decorrência das ameaças intervencionistas dos Estados Unidos, segundo um alto funcionário do governo consultado por Opera Mundi.
“É uma situação difícil de equilibrar entre os princípios da autodeterminação dos povos, soberania e não interferência de um lado, e do outro a democracia e os direitos humanos”, disse a fonte, que preferiu não se identificar.
Historicamente, para a diplomacia brasileira, o país persa é tido como um importante parceiro comercial do Oriente Médio, além do fato de sua integração no BRICS.
De acordo com os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), em 2025, o Brasil manteve um comércio de quase US$ 3 bilhões com o Irã, que ocupa a 31ª posição no ranking geral dos destinos das exportações da nação sul-americana, atrás somente dos Emirados Árabes Unidos, Egito, Turquia e Arábia Saudita na região.
“É um país com recursos minerais importantes, e com o qual o Brasil mantém boas relações. A embaixada brasileira lá está funcionando, e quando é preciso fazer uma crítica, ela é feita, mas de maneira reservada”, afirmou o alto funcionário. “É um equilíbrio, e não é um equilíbrio fácil”, completou.
Ainda de acordo com o alto funcionário, existe uma “hipocrisia” dos países do Ocidente tradicional para justificar ações intervencionistas contra o Irã. “A Europa e os Estados Unidos muitas vezes usam a carta dos direitos humanos como biombo, porque no fundo eles têm uma postura seletiva: para os amigos fazem vistas grossas, para os inimigos jogam o peso da argumentação dos direitos humanos”.
Ele também mencionou a Venezuela para afirmar que o “problema” de tais ameaças, “sobretudo os Estados Unidos, não tem nenhum compromisso com democracia, mas é um interesse no petróleo, um interesse geopolítico”.
Comunicado
Na terça-feira (13/01), o Ministério das Relações Exteriores brasileiro emitiu uma nota manifestando preocupação com a “evolução das manifestações” que ocorrem no país persa.
No comunicado, a chancelaria lamentou as mortes registradas desde 28 de dezembro, data em que se iniciaram os primeiros atos iranianos, e ressaltou que cabe “apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país”, sem mencionar os Estados Unidos de Donald Trump, no contexto das ameaças intervencionistas ao país persa e as recentes agressões à Venezuela.
“[…] o Brasil insta todos os atores a se engajarem em diálogo pacífico, substantivo e construtivo”, concluiu a pasta brasileira, acrescentando que por intermédio da embaixada do Brasil em Teerã, segue atenta às necessidades da comunidade brasileira no Irã.
À reportagem, fontes do Itamaraty informaram nesta sexta-feira (16/01) que “por enquanto” este é o posicionamento oficial mantido pelo governo federal referente à situação no Irã.
A breve nota, contudo, foi criticada pela direita brasileira referente à ausência direta da condenação aos direitos humanos. Na avaliação do alto funcionário do governo, se fosse o caso de condenar o Irã, o Brasil também teria que ter lançado declarações de repúdio aos países do Ocidente.























