Como a guerra dos EUA contra o Irã transformou Arbaeen de 2026 em uma peregrinação política
Opera Mundi acompanhou caminhada de milhares de peregrinos até Karbala, marcada pela solidariedade comunitária e por críticas às ofensivas de Trump
Mais de 20 milhões de muçulmanos xiitas se reuniram no santuário do Imam Hussein, em Karbala, no Iraque, no que é considerado a maior peregrinação anual do mundo, conhecida como Arbaeen.
O objetivo comum a todos os fiéis é prestar tributo ao imam, neto do profeta Muhammad, que sacrificou a própria vida em uma batalha contra a corrupção do califado Omíada, em 10 de Muharram do ano 61 AH, data que corresponde a 10 de outubro de 680 d.C. O guerreiro lutou contra Yazid I, um tirano que reivindicou a posição de califa de forma hereditária e rompeu com o processo original de sucessão, pautado na consulta e na aceitação entre os líderes e os notáveis da comunidade muçulmana, conhecido como shura. A morte de Hussein representa uma alegoria da justiça e da batalha entre o bem e o mal.
Tradicionalmente, a peregrinação tem início em Najaf, a 88 quilômetros de Karbala, mas muitos peregrinos começam a caminhada muito mais longe, partindo de cidades como Basra, Nasiriyah ou até mesmo do Irã.
Embora o Arbaeen tenha um dia específico — que, neste ano, ocorreu em 4 de agosto —, o objetivo consiste apenas em chegar ao santuário e prestar homenagem, sem celebrações finais ou necessidade de aguardar essa data, caso o peregrino tenha chegado antes à cidade. No Arbaeen, o que mais importa é o percurso, não a chegada.
O evento possui uma forte base comunitária: os peregrinos não pagam por água, comida ou hospedagem. A estrada entre as principais cidades da rota ganha uma configuração diferente devido à presença de numerosas “estações de serviço”, chamadas mawkibes. Em uma mawkib, o peregrino pode chegar e permanecer quantas noites julgar necessário, acomodando-se entre as dezenas de tapetes e almofadas disponíveis. Essas estruturas são financiadas por doações comunitárias, mas também recebem apoio governamental estrangeiro, como o do Irã.
Além das estações, diversos xiitas das cidades situadas ao longo da rota passam o dia carregando e reabastecendo bandejas, oferecendo aos peregrinos os mais variados itens — água, picolé, limonada, café gelado, refeições, sanduíches e sobremesas. Basta passar e retirar uma unidade da bandeja.
Devido às proporções do evento, grande parte das vias públicas de Karbala fica interditada ao tráfego de veículos. A reportagem de Opera Mundi percorreu o trajeto entre a rodoviária da cidade e sua mawkib anfitriã em aproximadamente uma hora de caminhada. Neste ano, a viagem ocorre durante o verão iraquiano, com temperaturas máximas que chegam a 50°C e mínimas que não ficam abaixo de 32°C durante a noite.

Cartazes por vingança contra Trump tomam as ruas de Karbala durante o Arbaeen
Rogger Oliveira
Em diversos pontos da cidade, os peregrinos realizam a Latmya: cantos coletivos em homenagem ao Imam Hussein, durante os quais os fiéis batem simultaneamente no peito, em uma expressão coletiva do profundo sentimento de perda.
Ao chegar à acomodação em Karbala, tivemos a oportunidade de conversar com o proprietário do local, Abbas Musawi, que contou que, apesar de ser dono de um prédio capaz de receber dezenas de peregrinos por dia, trabalha como médico na cidade de Basra, no sul do país. Ele e sua família utilizam o complexo de quatro andares, construído por eles próprios, apenas uma vez por ano, durante o Arbaeen, período em que se dedicam a receber e servir peregrinos xiitas de diversas partes do mundo.
No santuário do Imam Hussein, epicentro do Arbaeen, os fiéis se dividem entre alas de oração, sessões de Latmya e uma multidão que faz o possível para chegar ao Haram, ou “o sagrado”. Em árabe, o termo designa o espaço sagrado do santuário como um todo, mas os peregrinos costumam utilizá-lo para se referir especificamente ao perímetro do túmulo de Hussein, onde muitos se emocionam, choram, depositam dinheiro e fazem preces ao póstumo imam.
Apesar do engajamento comunitário, a caminhada até Karbala ocorreu sob o peso da guerra entre Estados Unidos e Irã, que tem no Iraque um dos principais palcos da influência de ambos os países. Ainda assim, a peregrinação segue sendo vista como um dever religioso xiita, que não pode ser negligenciado nem mesmo com a guerra à espreita.
‘Deus vai nos vingar’
Diferentemente dos anos anteriores, o Arbaeen de 2026 assumiu proporções políticas inéditas. Segundo peregrinos, a edição deste ano contou com um número visivelmente maior de fiéis que compareceram à celebração portando bandeiras e cartazes em homenagem a Ali Khamenei, líder supremo da República Islâmica do Irã, morto ao lado de grande parte de sua família em um ataque conjunto de Estados Unidos e Israel à sua residência, em 28 de fevereiro de 2026, data que marcou o início da guerra dos dois países contra o Irã.
Os persas xiitas representam a maioria dos peregrinos e correspondem a aproximadamente 20% do público que participa do Arbaeen. Muitos se deslocaram ao Iraque em meio à escalada da guerra, em uma demonstração da intersecção entre fé e política.
Adeptos do islã xiita enfrentam hostilidade sectária em diferentes partes do Oriente Médio, desde o atentado a bomba contra um xeique xiita em Damasco, em 1º de maio de 2026, até a extensa limpeza étnica da população xiita de vilarejos no sul do Líbano, executada por Israel sob a alegação de uma associação inerente entre a religião xiita e o grupo Hezbollah, utilizada para justificar sua ocupação.
No plano político, a identidade religiosa xiita é frequentemente associada à não conformidade com uma conjuntura regional marcada pela normalização das relações com Israel e pela submissão à agenda de política externa dos Estados Unidos.

Peregina xiita carrega foto de Ali Khamenei no evento Arbaeen, em Karbala (Iraque)
Rogger Oliveira
“Não vou desejar vingança, mas Deus vai nos vingar daqueles que nos odeiam e tentam manchar a imagem do Islã e de Hussein”, disse Zahra Abbas a Opera Mundi, em Karbala, no Iraque, enquanto seguia em direção ao santuário do Imam Hussein.
Historicamente, a postura política do póstumo líder supremo Ali Khamenei deu continuidade ao legado anti-imperialista consolidado após a Revolução Iraniana de 1979. Para sua base religiosa, sua morte representa não apenas uma violação da soberania do Irã, mas também um ataque à ideologia revolucionária xiita, que defende a não subordinação ao Ocidente e às suas políticas imperialistas.
“Todas as pessoas aqui sentem raiva ao presenciar as agressões injustas que têm sido cometidas contra um país muçulmano vizinho”, disse Abu Ahmed. Segundo o peregrino, “essa raiva” não é exclusiva dos xiitas ou dos muçulmanos, “mas de todo o mundo e de todos os homens livres, que condenam a violação norte-americana ao Irã”.
“Ninguém pode ignorar isso. Até eles admitem que a agressão aconteceu para servir aos interesses do país bastardo [Israel]”, afirmou Ahmed.
A declaração de Ahmed vai ao encontro do sentimento predominante entre os xiitas presentes, que reivindicam justiça por meio da ideia de vingança de sangue, sintetizada na expressão “olho por olho, dente por dente”, em referência explícita a Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e à sua política externa intervencionista.
Apesar da onda de solidariedade ao Irã, há peregrinos, como Ali, que relatam receio de que a influência iraniana sobre grupos xiitas, e o financiamento de organizações armadas que integram a estrutura de segurança nacional iraquiana, como as Forças de Mobilização Popular, faça com que o Iraque volte a ser alvo de ataques dos Estados Unidos e de Israel.
“Não temos nada contra o Irã, mas não podemos ignorar os grupos que eles financiam e que atuam no nosso território. Mesmo que se tratem de forças de segurança, a presença delas pode despertar o interesse dos americanos em atacar esses grupos dentro do Iraque”.
Assim como Ali, parte dos xiitas iraquianos demonstra maior cautela em relação às posições adotadas pelos aiatolás que governam o Irã e direciona sua lealdade religiosa ao aiatolá Ali al-Sistani, sediado em Najaf. Al-Sistani exerce a liderança religiosa do mundo xiita sob uma perspectiva estritamente espiritual, enquanto a linhagem de Khamenei representa uma corrente que articula a religião à causa revolucionária anti-imperialista.






















