Terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
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Quando Israel e os Estados Unidos bombardearam Teerã, em junho de 2025, na Guerra dos 12 Dias, ocasionando a morte de mais de mil iranianos, o príncipe iraniano Reza Pahlavi, filho do xá Mohamed Reza Pahlavi, comemorou: “a República Islâmica está desmoronando”. Residente no território americano desde os 18 anos, os sonhos monarquistas do herdeiro iraniano intensificaram-se após o início dos protestos em 28 de dezembro, que começaram de forma pacífica, motivados pela grave situação econômica do país, mas escalaram no que Teerã denunciou como ofensiva ocidental.

Desde então, em diversas postagens, Pahlavi vem incitando a população a ir às ruas. “Vocês não estão sozinhos (…) o mundo se solidariza sua revolução nacional e admira sua coragem. Em particular, o presidente Trump, como líder do mundo livre (…). Não abandonem as ruas. Meu coração está com vocês. Sei que em breve estarei ao seu lado”, afirmou em 11 de janeiro. Ele, no entanto, não conta com nenhuma legitimidade dentro do país, analisa a professora Isabela Agostinelli, docente de Relações Internacionais da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) e pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI) da PUC-SP e do Instituto de Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU).

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“Pahlavi ressurge como a figura que poderia restaurar a monarquia, mas os iranianos não querem uma monarquia”, disse ela a Opera Mundi ao comparar o sentimento dos iranianos hoje ao que nós, brasileiros, sentimos em relação à uma restauração da monarquia Orleans-Bragança. “Ele é o herdeiro da Coroa, mas não tem coroa nenhuma”.

Monarquia pró-EUA

A dinastia Pahlavi no Irã, com foco no governo do último xá iraniano, Mohammed Reza Shah, governou o país durante 38 anos, entre 1941 e 1979, quando o território se tornou o maior parceiro dos Estados Unidos na região. “É importante reforçar que essa monarquia, em primeiro lugar, era uma ditadura”, afirmou a pesquisadora, questionando do motivo, de agora, “eles defenderiam a instalação de uma nova ditadura? Apenas por ser secular? Isso não teria diferença”.

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O sistema monárquico no Irã, explica a professora, tem início no fim do Império Otomano, com a dinastia Qajar, responsável pela unificação do país. Ela foi sucedida pela dinastia Pahlavi que teve dois governantes: o xá Reza Khan, entre 1925 e 1941, considerado o introdutor das bases do Estado iraniano moderno; e seu filho Mohammed Reza, que assumiu o Irã em 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, e governou o país em meio às disputas geopolíticas da Guerra Fria até a Revolução Islâmica de 1979.

O xá Reza Pahlavi buscou se aproximar dos Estados Unidos, que atuaram para mantê-lo no poder. Durante o seu governo, disse Agostinelli, o Irã se tornou o maior aliado da potência mundial na região do Oriente Médio, em particular, após o golpe de 1953 contra as forças nacionalistas do país.

A disputa girou em torno do petróleo. Em 1951, uma coalizão de partidos opositores à dinastia Pahlavi, com forte sentimento nacionalista, conquistou a maioria dos votos no Parlamento e elegeu Mohammed Mossadegh como primeiro-ministro do Irã. Ao tomar posse, o premiê iraniano deu início ao processo de nacionalização do petróleo e outros recursos do país.

“Muita gente se esquece, mas o primeiro país a nacionalizar o petróleo foi o Irã, em 1951, anos antes da nacionalização do petróleo no Egito, em 1956”. Segundo a especialista, a iniciativa Mossadegh feria diretamente os interesses da Anglo-Iranian Oil Company (AIOC) – atual British Petroleum (BP) – que, até então, controlava a indústria petrolífera iraniana. Na época, a Grã-Bretanha impôs um embargo econômico contra o Irã e tentou pressionar a Corte Internacional de Justiça a considerar a questão, mas o tribunal decidiu não intervir.

Para reverter o quadro, em 1953, a Agência Central de Informação (CIA) dos Estados Unidos e a agência de inteligência britânica, M16, atuaram na deposição de Mossadegh, acusando-o de liderar uma conspiração contra o xá Pahlavi. Após o golpe, os poderes então divididos pela monarquia constitucional foram transferidos para o xá Reza Pahlavi.

“O golpe de 1953 foi resultado direto da doutrina Eisenhower, que definiria as relações entre Estados Unidos e Irã, a partir de um alinhamento total entre o presidente norte-americano e o rei iraniano”. A interferência estrangeira permitiu que o petróleo voltasse para as mãos britânicas e destinou 40% das ações da empresa aos Estados Unidos. “Segundo pesquisas, a CIA teria oferecido US$ 50 milhões (aproximadamente R$ 264 milhões) para reverter a nacionalização do petróleo”, afirmou.

Repressão

A partir do golpe de 1953, o xá Pahlavi “passou a governar para si, com total apoio das potências internacionais”. A repressão escalou e, para promovê-la, ele nomeou o general Fazlollah Zahedi como seu primeiro-ministro, substituindo Mossadegh. Neste período, a censura vigorava e, em 1957, foi criada a temida polícia secreta Savak, que “perseguia, torturava e intimidava todos aqueles que se colocavam como opositores do governo”.

A Savak, no entanto, não tinha permissão para entrar nas mesquitas. “Isso permitiu, ao longo dos anos, que as mesquitas se tornassem um espaço de resistência e das reuniões políticas que impulsionariam a Revolução de 1979”, disse Agostinelli. Um movimento que passou a ser gestado conforme o xá iraniano exercia, cada vez mais, seus poderes executivos de forma unilateral.

Em 1975, os partidos políticos foram banidos do Irã, que se tornou um Estado de partido único, o Rastakhiz ou Partido da Ressurreição da Nação Iraniana, até novembro de 1978.

Além da repressão, o estilo de vida nababesco do xá Pahlavi alimentou o ódio na população. “Foi um governo muito autoritário e, ao mesmo tempo, muito extravagante. Pahlavi ficou conhecido por seus jantares ostensivos, com muita abundância, enquanto grande parte da população iraniana passava fome”, afirmou.

Outro ponto destacado pela pesquisadora foi o forte processo de ocidentalização do período Pahlavi, que fez com que o Irã se tornasse o principal aliado dos Estados Unidos no Oriente Médio. “Não era Israel, era o Irã. Israel se tornará o principal aliado, após a Revolução de 1979, até o grande parceiro estratégico norte-americano era Teerã”.

Xá Reza Pahlavi e o presidente norte-americano Richard Nixon em 1973
Presidência dos Estados Unidos / nixonlibrary – Wikimedia Commons

Ocidentalização

De acordo com a docente, neste processo, o país viveu uma forte onda de ocidentalização, o que gerou descontentamento interno. “Ele tinha uma face essencialmente ocidental em meio a uma população majoritariamente muçulmana, tanto histórica quanto culturalmente”. Para os Estados Unidos, além do petróleo, estava em jogo “conter a expansão russa no Oriente Médio e, ao mesmo tempo, escalada do nacionalismo árabe no Egito, na Síria e outros países”.

O nacionalismo árabe foi um movimento nos anos 50 que buscava o não alinhamento direto nem com a União Soviética, nem com os Estados Unidos. Em 1960, frente ao descontamento e, também às pressões de Washington, o Irã passou a fazer reformas que ficaram conhecidas como “Revolução Branca”. “É neste contexto que se dá a reforma agrária, o direito do voto feminino e que temos as imagens que ficaram famosas das iranianas usando minissaias. Foram pequenas reformas sociais para tentar diminuir um pouco essas pressões internas que o próprio governo estava sofrendo”.

Em sua avaliação, de fato, as medidas geraram um progresso econômico, porém, a ocidentalização promoveu um “grande descontentamento e a radicalização da oposição”. O clero xiita acusava o xá iraniano de ir contra os valores islâmicos, enquanto os grupos de esquerda pressionavam por melhores condições de vida. Ambos, no entanto, repudiavam a repressão, ostentação e adesão absoluta aos Estados Unidos.

Esses fatores aliados à pobreza da população culminariam em um forte descontentamento popular que daria origem à Revolução Islâmica em 1979. A professora destacou que o movimento não era monocórdio, mas reunia diversos e até opostos setores da população como islâmicos-anticomunistas, comunistas, estudantes, xiitas, classes média e popular.

Islamismo político

Uma figura foi central nestes movimentos que ganharam força: o aiatolá Ruhollah Khomeini, liderança política e religiosa que, mesmo no exílio, fazia ferozes críticas às reformas em cursos, apontando o xá iraniano como o “grande inimigo do Islã”. “Ele vai instigar as manifestações populares com panfletos e fitas clandestinas repassadas por diversos elementos da sociedade”.

É aí que surge, nos anos 1960, o islamismo político, “um movimento que buscava instrumentalizar a religião em prol de um projeto de Estado e de sociedade”. Ao longo dos anos 1960, esse processo cresceu e se tornou “uma força contra hegemônica no Oriente Médio”, ancorado na oposição “a qualquer presença estrangeira, seja ela soviética ou norte-americana”. Ao mesmo tempo, o islamismo político se opunha ao nacionalismo árabe, na medida em que focava “na religião como um elemento de organização social e política”.

O movimento cresceu nos anos 1970 e, no final de 1978, eclodiram gigantescos protestos no país. Nas ruas, a população condenava o autoritarismo do xá Pahlavi, sua adesão aos Estados Unidos e exigia o retorno do aiatolá Khomeini ao Irã. Na transição para o ano de 1979, as manifestações escalaram culminando, em fevereiro, com a fuga da família imperial. Diagnosticado com um câncer terminal, o xá Pahlavi passou pelo Egito, Marrocos, Bahamas, México até se instalar definitivamente nos Estados Unidos, onde buscava tratamento para a doença que o matou em 1980.

É quando começa o governo de transição, “marcado por disputas internas”, salienta a pesquisadora. Em abril de 1979, a República Islâmica foi instaurada, dando fim à monarquia, mas o ano ainda não terminaria. Apoiados pelo aiatolá Khomeini, os revolucionários invadiram a embaixada dos Estados Unidos em Teerã, fazendo reféns 66 norte-americanos, entre diplomatas e funcionários. A partir daí começaram as sanções dos Estados Unidos contra o país e “Israel assumiu o posto de maior aliado das forças estadunidenses no Oriente Médio”.

O Irã foi governado pelo aiatolá Khomeini, que promoveu a nacionalização do petróleo e dos recursos do país, além de série de reformas internas. Após sua morte, em 1989, ele foi sucedido pelo atual líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, que permanece alertando a população iraniana contra o imperialismo de Washington.

Protestos hoje

Para Agostinelli, desde então, a grande preocupação do Irã sempre foi “garantir a estabilidade de sua política interna” e a sobrevivência econômica em meio às sanções internacionais. Essas questões estavam ainda latentes nos protestos, afinal, “as experiências anteriores mostram que as instabilidades internas abrem margem para interferência externa”.

Em contato com estudiosos do Irã e com a população local, ela afirmou que “os iranianos estavam protestando contra as escolhas errôneas econômicas do governo” e da piora nas condições de vida, originadas pelas sanções econômicas dos Estados Unidos e da União Europeia “que fazem com o que o país seja estrangulado e permaneça isolado”.

Desde a Guerra dos 12 dias, “o Irã vem tentando se recuperar” e corrigir seus erros na condução da política econômica. “As classes populares são as que mais sofrem com sanções, em particular, os comerciantes que, diante da desvalorização da moeda iraniana em relação ao dólar, não conseguem vender, nem repor seus estoques, porque a cada hora a moeda muda de valor. É por isso que os iranianos foram às ruas demandando mudanças”.

“O problema foi quando esses protestos começaram a se tornar muito violentos. Aí surgiu a desconfiança de que haviam infiltrados, o que foi confirmado pelos próprios Estados Unidos e Israel que mencionaram abertamente a presença do Mossad nos protestos”, afirmou.

Em sua avaliação, os iranianos sabem que a solução não vai vir por interferência externa. “Eles viram o que aconteceu com os países na Primavera Árabe e têm uma consciência política muito forte de que a interferência externa só vai gerar mais autoritarismo e desestabilização regional”.