Terça-feira, 21 de julho de 2026
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Causou alarde em vários meios de comunicação dentro e fora de Israel a iniciativa apresentada pelo governo sionista do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para considerar o genocídio armênio como crime contra a humanidade, sob a justificativa de estar supostamente “cumprindo um dever moral ao reconhecer a verdade histórica e rejeitar as tentativas de negá-la”.

O projeto foi elaborado pelo chanceler Gideon Sa’ar e levado ao Parlamento israelense (Knesset), onde precisa ser aprovado para que se transforme em uma mudança real sobre como Tel Aviv conceitua oficialmente o massacre no qual o Império Turco-Otomano (nação que antecedeu a atual República da Turquia) promoveu o extermínio de mais de 1,5 milhões de armênios, entre os anos de 1915 e 1923.

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A proposta causou controvérsia, como argumenta um artigo publicado nesta segunda-feira (29/06) pelo diário Haaretz, por tratar de um tema que Israel evitou durante décadas, e que surge em um momento onde parece haver um interesse claro de Tel Aviv por confrontar o governo turco e seu presidente, Recep Tayyip Erdogan, e de arrastrar novamente os Estados Unidos a essa confrontação – como aconteceu no caso do Irã.

Em entrevista a Opera Mundi, a antropóloga Mariana Boujikian Felippe, doutoranda em Relações Internacionais no Programa San Tiago Dantas (PUC-SP), não só compartilha da mesma desconfiança do Haaretz a respeito dos interesses israelenses por trás do projeto como lembra que essa nova postura contrasta com o fato de que Tel Aviv passou décadas ignorando as reivindicações de uma numerosa comunidade armênia em seu território que todos os anos cobra tal reconhecimento.

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“Existe uma comunidade armênia expressiva em Jerusalém, pessoas que são conhecidas como ‘os protetores do quarteirão armênio’, que tem um grande patrimônio religioso, cristão. Essas pessoas marcham todos os anos em abril pela memória dos seus antepassados que foram assassinados e Israel sempre ignorou solenemente as demandas delas”, frisa a acadêmica, fazendo referência ao 24 de abril, data em que se rememora o sofrimento das vítimas do genocídio armênio.

Boujikian salienta que a postura mantida por Tel Aviv sobre o massacre da população armênia sempre se baseou na “necessidade de não estremecer as relações com a Turquia, que era um aliado histórico, além de membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)”.

A antropóloga acrescenta outra contradição da postura de Israel ao resistir em reconhecer os crimes contra os armênios no passado. “Os crimes cometidos pelo Império Turco-Otomano deram origem às práticas genocidas dos nazistas. O genocídio armênio foi um protótipo que depois foi replicado pelos nazistas contra a população judaica. Apesar dessas semelhanças históricas, Israel se omitiu por décadas a respeito do tema e parece só ter mudado de postura agora que seu interesse é de manter uma posição bem diferente com relação a Ancara”, pondera Boujikian.

Além das críticas acadêmicas e jornalísticas, Israel recebe questionamentos de armênios e descendentes ao redor do mundo ligados. Um deles é o músico Serj Tankian, membro da banda de rock System of a Down. O artista tem nacionalidade norte-americana mas sua família é composta por integrantes da diáspora armênia.

Em vídeo publicado em seus perfis em redes sociais, Tankian critica o fato de que “por muitos anos, o governo de Israel usou o Comitê de Assuntos Públicos Americano-Israelense (AIPAC) para pressionar o Congresso dos Estados Unidos a não reconhecer o genocídio armênio, para não melindrar seu relacionamento com a Turquia”.

A declaração corrobora o que diz Boujikian a Opera Mundi, sobre o fato de que vários países, não somente Israel, adotam posturas com relação ao genocídio armênio baseados nos seus objetivos de maior aproximação ou confrontação com Ancara.

“O genocídio na Armênia, dessa forma, acaba sendo usado como um instrumento para atacar a Turquia. Assim, esse projeto de reconhecimento por parte de Tel Aviv não passa, de fato, por uma reflexão histórica sobre os acontecimentos. É uma mera retaliação ao fato de que Erdogan cobra Israel publicamente sobre o genocídio em Gaza”, avalia a antropóloga.

Abafar genocídio em Gaza

Também consultado pela reportagem de Opera Mundi, o jornalista e acadêmico Bruno Huberman, professor de Relações Internacionais da PUC-SP, aponta outra contradição no gesto de Israel a respeito do massacre dos armênios, que é o apoio de Tel Aviv ao Azerbaijão no conflito de Nagorno-Karabakh.

“O Estado de Israel jamais foi amigo do povo armênio, tendo inclusive uma aliança muito sólida com o Azerbaijão, que, alguns anos atrás, continuou o genocídio armênio em Nagorno-Karabakh, conflito no qual a Elbit Systems (empresa de armas militares de alta tecnologia) foi um ator proeminente, ao mesmo tempo em que o governo azeri é um fornecedor de petróleo para Tel Aviv”, observa o professor da PUC.

Huberman também considera a iniciativa israelense como “claramente oportunista”, e diz que “o objetivo de se intrometer nos assuntos turcos já vinha sendo anunciado há alguns meses por Netanyahu”.

“A Turquia e Erdogan foram escolhidos como o inimigo da vez, já que Netanyahu está colecionando derrotas: não conseguiu derrotar o Irã, não conseguiu efetivamente derrotar o Hamas, embora tenha destruído Gaza, tampouco consegue derrotar o Hezbollah. Ele precisa colecionar novos inimigos para, de alguma forma, manter a justificativa de que é estrategicamente necessário para o país mantê-lo no poder, e também para defender o status de Israel como um ator muito útil para os Estados Unidos no Oriente Médio”, analisa.

Nesse sentido, a antropóloga Mariana Boujikian acredita que a condenação do genocídio armênio acaba tendo uma serventia para o governo de Tel Aviv também no aspecto da imagem internacional que o país projeta, ao tentar resgatar alguma postura favorável aos direitos humanos que possa “abafar as acusações sobre o tratamento dado pelo país a minorias étnicas e religiosas, especialmente com relação aos palestinos”.

“Israel enfrenta denúncias em esferas internacionais sobre a prática de genocídio contra os palestinos, e em meio a esse cenário é funcional o reconhecimento de um genocídio do passado, talvez para elaborar o argumento de que ‘nós entendemos que genocídio é isso aqui que aconteceu com os armênios, e não o que está acontecendo agora em Gaza’”, comenta a acadêmica.

Pesquisadores mostram ossadas de vítimas do genocídio comentido contra o povo armênio
Museu-Instituto do Genocídio Armênio

Sobre o genocídio armênio

O genocídio cometido pelos otomanos contra o povo armênio, teve início em abril de 1915, durou cerca de oito anos, até meados de 1923, e resultou na morte de mais de 1,5 milhão de pessoas.

Registros historiográficos de entidades como o Museu-Instituto do Genocídio Armênio mostram que o massacre utilizou práticas como enforcamento, empalamento e estupro, mas o que se tornou mais característico desse massacre foi a deportação de população civil através das chamadas “marchas da morte”, nas quais os armênios, expulsos de seu território, eram obrigados a atravessar andando o deserto da Síria, onde a maioria das pessoas acabava falecendo por fome e inanição, especialmente mulheres, crianças e idosos.

No entanto, o governo da Turquia rechaça o cometimento de crimes contra a humanidade contra os armênios, alegando que “o Império Otomano adotava uma política de tolerância e inclusão em relação às nações que compunham sua sociedade; contudo, a sua entrada na guerra foi utilizada por grupos armados armênios para se revoltarem contra o governo em conjunto com forças invasoras estrangeiras, conduzindo ataques”.