Explosões durante visita de Macron expõem fragilidade da transição política na Síria
Visita do presidente francês simboliza reaproximação com Ocidente, mas atentados, julgamentos contra aliados de Bashar al-Assad e perseguições sectárias revelam desafios da gestão Ahmad al-Sharaa.
As explosões que atingiram o centro de Damasco a poucos minutos da passagem da comitiva do presidente francês, Emmanuel Macron, expuseram as fragilidades da nova Síria justamente no momento em que o governo interino tenta convencer o mundo de que o país voltou à estabilidade. Enquanto busca atrair investimentos e reconstruir sua legitimidade internacional, a administração de Ahmad Al-Sharaa enfrenta atentados, disputas sectárias e o desafio de transformar a queda de Bashar Al-Assad em uma transição política capaz de evitar novas ondas de violência.
O atentado de terça-feira (07/07) aconteceu nas proximidades do hotel Four Seasons, localizado na rua Shukri Al Quati, centro da capital, onde Macron, estava hospedado. A visita do líder francês, acompanhada de uma delegação diplomática e do empresariado francês, é a primeira de um chefe de Estado ocidental à Síria desde a queda de Al-Assad, em 8 de dezembro de 2024. A presença marca o retorno de investimentos estrangeiros ao país e sua readmissão à comunidade internacional após 14 anos anos isolado do sistema financeiro mundial, devido às sanções impostas pelo Ocidente.
De acordo com o Ministério do Interior sírio, um dos dispositivos explosivos foi colocado em uma caçamba de lixo e o outro foi acoplado a um veículo. Ambos foram detonados minutos após a saída da delegação francesa do hotel em direção ao Palácio Presidencial, onde Macron encontraria o presidente interino Al-Sharaa. De acordo com informações fornecidas pelo Ministério do Interior à SANA, as explosões ocorreram fora do perímetro de segurança do presidente francês e não representam ameaça à visita oficial. No entanto, o ataque resultou no ferimento de 18 pessoas que circulavam pelo local, dentre elas quatro policiais, e em dano estrutural a comércios e residências locais.
Apesar de nenhum grupo ter reivindicado a autoria do atentado, especula-se de que este tenha acontecido em resposta à controversa consolidação da política do governo interino de Al-Sharaa, que recentemente concluiu a composição do novo Parlamento sírio, no começo de julho. A Câmara foi composta por 210 cadeiras: 140 foram eleitas por colégio eleitoral fechado e 70 foram nomeadas pessoalmente pelo novo presidente, sem a presença de voto popular.
A exclusão da via eleitoral democrática para a eleição dos parlamentares coloca em cheque as promessas do chefe de Estado sírio de um governo transitório que contemplaria todos os cidadãos, independente de sua seita etnorreligiosa. O evento de posse dos deputados estava previsto para segunda-feira (06/07), mas foi adiado por tempo indeterminado sem explicações oficiais por parte do governo interino.
Este é o segundo ataque do gênero na cidade de Damasco em menos de uma semana – o primeiro ocorreu no dia 2 de julho, ocasião em que uma bomba foi discretamente colocada embaixo de uma mesa em um café com alto fluxo de clientela, localizado ao lado do Palácio de Justiça da capital síria. Segundo o Ministério da Saúde, a explosão resultou na morte de 10 pessoas que se encontravam no local e no ferimento de 21 outras.
A proximidade entre os ataques reforça a dúvida sobre a estabilidade que o governo transitório sírio tenta transparecer na implementação de um Estado de Direito e no regimento de ambas suas políticas internas e externas. Além de levantar o questionamento a respeito da possibilidade de uma nova onda de ataques insurgentes no país.

Forças de segurança de Damasco isolam local nas proximidades do hotel onde Macron estava hospedado
Rogger Oliveira
Nova Síria?
Em paralelo às explosões que acontecem fora dos muros das instituições públicas de Damasco, o lado de dentro dá lugar à performance de maturidade institucional da nova Síria. O enterro da era Assad é materializado a medida que seus primos, Atef Najeb e Wissam Al-Assad, e o ex-mufti da Síria – a máxima autoridade religiosa e jurista islâmica do país –, Ahmad Hassoun, são colocados no banco dos réus, ou melhor, em jaulas de aço, em um acerto de contas com o antigo governo. Bashar Al-Assad e Maher Al-Assad são julgados in absentia, devido à sua ida para Moscou após a queda do governo em dezembro de 2024.
A tríade de réus carrega o simbolismo do governo Assad em diferentes aspectos: Atef Najib atuou contra os protestos da primavera árabe de 2011 em Daraa, no sul do país; Wassim al-Assad representou o crime organizado, o contrabando de Captagon e o financiamento de milícias; e o ex-Mufti Ahmad Hassoun é acusado de instrumentalizar a lei islâmica para justificar massacres contra civis e legitimar ofensivas de Assad contra o descontentamento popular.
A Síria tem presenciado, nas últimas semanas, campanhas iniciadas organicamente na sociedade civil, majoritariamente compostas por sunitas, que pedem pela eliminação do que para eles seriam os últimos simpatizantes do governo de Assad, que chamam de Shabiha. O nome, em árabe, significa ‘fantasma’ e representa o público de apoiadores assadistas somado à antiga polícia secreta, supostamente dissolvida com o desmantelamento da velha gestão.
Os alauítas, etno-religiosidade da qual Assad e seus principais aliados fazem parte, são os principais alvos dessa campanha, sendo acusados de compor um grupo oculto que busca desestabilizar o governo de Al-Sharaa. Entre os acontecimentos que representam a punição coletiva com motivação sectária, incluem-se os protestos que aconteceram na noite do dia 16 de junho no bairro de Mezzeh 86, habitado majoritariamente por alauítas, onde manifestantes pró-governo se concentraram clamando pela remoção de seus residentes.
Entre as exigências dos manifestantes, estavam o isolamento de militares e agentes de segurança do antigo governo e a proibição de que eles sejam incorporados às novas instituições de poder. O ressentimento desta parcela da população alinhada ao novo governo é sobretudo expresso visualmente pela logo estampada em cartazes no formato de banana. Ela simboliza o clamor de que o povo deve fazer justiça com as próprias mãos, em um apelo direto a limpeza étnica da seita alauíta, onde a eliminação pareça acidental, em analogia à morte após escorregar em uma casca de banana.
Para além da marginalização vinda de dentro da sociedade civil sunita, desde o estabelecimento do novo governo, episódios de perseguição sectária incluíram o massacre de 1.500 alauítas ao longo de 40 cidades costeiras, em março de 2025, e de 1.700 drusos no sul do país, em julho do mesmo ano. Diante desse cenário, o governo de Al-Sharaa enfrenta oposição de diferentes frentes.
Estes grupos têm objetivos próprios que não se alinham à base aliada do presidente interino, dentre eles, os curdos e as ambições de autodeterminação das Forças Democráticas Sírias a nordeste do país; levantes de milícias drusas no sul da Síria, em Suwayda, as quais são apoiadas por Israel; avanços expansionistas sionistas que partem das Colinas de Golã, ocupadas desde 1967, em direção às portas de Damasco; e os restos de grupos terroristas que perderam força, mas seguem presentes no país, como o Estado Islâmico.
A caça aos fantasmas de Assad associa alauítas aos Shabiha. Em uma desesperada perseguição aos resquícios da dinastia Assad, ambas as populações civil e governo recém-formado buscam responsabilizar a qualquer custo aqueles que foram responsáveis por crimes e aqueles que não foram ao longo da era Assad.
A Opera Mundi, Fadel Abdelghany, fundador e diretor da Syrian Network for Human Rights (SNHR), alerta que o verdadeiro teste de maturidade institucional do novo governo sírio não se concentra na espetacularização do julgamento de personalidades associadas ao governo Assad, nem pela culpabilização de minorias pelos crimes da antiga administração, mas sim em uma coesão nacional que vá além da satisfação política da maioria sunita do país.
“O valor de transição deste momento histórico não pode repousar na proeminência dos réus ou no simbolismo de exibi-los em jaulas de aço, mas sim na capacidade técnica do novo Judiciário de aplicar o devido processo legal e a responsabilidade criminal individual. Se o tribunal ceder à tentação de seguir o caminho mais fácil — o de processar um sobrenome com base na retórica e no clamor público —, o veredito será frágil, contestável e incapaz de romper com o passado. O verdadeiro desmantelamento das estruturas informais de violência da era Assad exige uma distinção rigorosa entre crimes específicos e o pertencimento identitário, sob o risco de a nova administração consolidar uma justiça de vencedores, que reproduz a mesma arbitrariedade que combateu anteriormente”.
Segundo Abdelghany, existe uma dicotomia nas ações jurídicas que virão a seguir: o código penal não prevê crimes de guerra ou crimes contra a humanidade que constam na acusação dos réus. Caso o judiciário os condene por crimes não contemplados nas leis sírias, o julgamento viola o princípio da legalidade e assumiria um caráter juridicamente frágil e meramente político. Se a condenação for efetuada por crimes ordinários, como tráfico de drogas, extorsão e homicídio, seu efeito cria um esvaziamento político para a opinião pública e para a base aliada de Al-Sharaa.
“A condenação direta sob esses rótulos, sem identificar a fonte legal da infração, os elementos do crime e o elemento mental exigido, deixaria o veredito vulnerável à contestação sob o princípio da legalidade. O curso jurídico mais seguro é buscar condenações por crimes nacionais específicos comprovados por evidências, enquanto se utiliza o direito penal internacional como um quadro contextual e interpretativo”, relatou Abdelghany à reportagem.























