Irã e Omã fecham acordo sobre nova rota pelo Estreito de Ormuz
Entendimento ocorre em meio à redução do tráfego na região e disputa entre Teerã e Washington pelo controle da navegação
O governo do Irã anunciou neste sábado (15/08) ter chegado a um entendimento com Omã para estabelecer um novo plano de tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, uma das áreas mais estratégicas do comércio mundial de energia.
O anúncio foi feito pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baghaei, que afirmou que as negociações entre Teerã e Mascate avançaram apesar daquilo que classificou como “obstruções” dos Estados Unidos.
“Apesar das obstruções por parte dos Estados Unidos, as negociações entre Irã e Omã avançaram de forma positiva e foi alcançado um acordo sobre um plano de tráfego marítimo”, afirmou Baghaei, segundo a imprensa iraniana.
Segundo o porta-voz, o entendimento foi resultado de uma articulação entre diferentes órgãos do governo iraniano, sob coordenação do Ministério das Relações Exteriores, com participação das áreas de Defesa, Segurança e Meio Ambiente.
O anúncio ocorreu depois de semanas de negociações entre Irã e Omã. No início de agosto, Teerã já havia informado que os dois países haviam chegado a um entendimento sobre as coordenadas geográficas de uma nova rota de navegação no estreito.
O governo de Omã também confirmou seu envolvimento na criação de um corredor marítimo.
Em comunicado oficial, o Ministério das Relações Exteriores omanense informou que o país vinha trabalhando em coordenação com a Organização Marítima Internacional (IMO) para disponibilizar um corredor marítimo temporário para embarcações, de acordo com coordenadas divulgadas pela IMO e pelas autoridades omanenses.
Mascate afirmou ainda que a iniciativa está baseada no compromisso com o direito internacional e com a liberdade de navegação.
Sem abertura completa
Apesar da importância do anúncio, o entendimento não significa necessariamente que o estreito tenha sido totalmente reaberto. O próprio Baghaei afirmou na sexta-feira (14/08) que um eventual acordo com Omã sobre a nova rota não equivaleria, por si só, à reabertura do estreito. Segundo ele, a retomada integral da navegação depende de questões distintas relacionadas à segurança e à soberania iraniana.
A distinção é importante porque o tráfego pelo estreito continua profundamente afetado pelas tensões entre Irã e Estados Unidos. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, afirmou que as negociações com Omã são de natureza técnica e não devem ser confundidas com as conversações entre Teerã e Washington.
“As rotas que existiam anteriormente já não são funcionais e uma nova rota deve ser definida”, afirmou o chanceler. A posição iraniana é que a eventual retomada do trânsito de embarcações americanas dependerá de uma mudança na postura de Washington. Segundo Araghchi, os Estados Unidos terão de “corrigir seu comportamento”.
Pontos crucial do comércio mundial
A relevância da disputa pode ser compreendida pela localização do Estreito de Ormuz. A passagem marítima separa Irã e Omã e conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Oceano Índico.
Embora relativamente estreito, o corredor é utilizado diariamente por grandes petroleiros que transportam a produção de países como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Catar e Irã.
Dados da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos mostram que o estreito movimentou, no primeiro semestre de 2025, aproximadamente 20,9 milhões de barris de petróleo por dia, volume equivalente a cerca de 20% do consumo mundial de líquidos derivados de petróleo e a aproximadamente um quarto de todo o petróleo comercializado por via marítima. Cerca de um quinto do comércio mundial de gás natural liquefeito também passou por Ormuz em 2024.
Por isso, qualquer interrupção prolongada do tráfego tem potencial para provocar aumento nos custos de transporte, reduzir a oferta internacional de petróleo e pressionar os preços de combustíveis e energia.
Existem algumas alternativas terrestres ao estreito, principalmente oleodutos que atravessam a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Mas a capacidade dessas estruturas é insuficiente para substituir completamente o volume que normalmente passa por Ormuz.
Crise já reduziu o movimento de navios
Dados de rastreamento analisados pela Reuters indicaram que o número de embarcações de carga que atravessaram o estreito caiu abaixo da média de agosto. Na quinta-feira (13/08), nove embarcações de commodities passaram pelo corredor, contra cinco no dia anterior e uma média de aproximadamente 12 por dia em agosto.
A maioria das embarcações que continuam utilizando o estreito está recorrendo às rotas associadas ao lado iraniano da passagem.
A situação se agravou ainda mais depois de incidentes envolvendo embarcações dos Emirados Árabes Unidos. Abu Dhabi acusou o Irã de atacar uma embarcação da Abu Dhabi National Oil Company (ADNOC) enquanto atravessava Ormuz. Não houve registro de vítimas. O episódio foi o terceiro ataque contra navios da ADNOC que os Emirados atribuíram ao Irã em uma semana.
O governo iraniano não havia apresentado, até o momento do anúncio do acordo, uma resposta pública às acusações.

O porta-voz iraniano Esmaeil Baghaei
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Disputa que vem de décadas
A disputa em torno de Ormuz não começou com a atual crise. O estreito há décadas está no centro da rivalidade entre o Irã e os Estados Unidos.
Durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), a região foi palco da chamada Guerra dos Petroleiros, quando embarcações comerciais foram atacadas no golfo Pérsico. A escalada levou os Estados Unidos a ampliar sua presença naval na região para proteger navios que transportavam petróleo.
Em abril de 1988, ocorreu um dos episódios mais graves da presença militar americana no golfo. A Marinha dos Estados Unidos lançou a Operação Praying Mantis contra forças iranianas depois que o navio USS Samuel B. Roberts atingiu uma mina marítima. O confronto resultou na destruição de embarcações e plataformas iranianas.
Meses depois, em julho de 1988, o cruzador americano USS Vincennes derrubou por engano o voo 655 da Iran Air, que fazia a rota entre Bandar Abbas e Dubai. As 290 pessoas a bordo morreram. Washington afirmou inicialmente que o avião havia sido confundido com uma aeronave militar iraniana.
O que o acordo pode mudar
O entendimento anunciado neste sábado (15/08) representa, portanto, um avanço técnico e diplomático, mas ainda não uma solução para a crise de Ormuz.
A criação de uma nova rota pode permitir que parte do tráfego volte a circular de maneira mais previsível e reduzir os riscos para as embarcações. Entretanto, a questão mais difícil permanece política: quais navios terão autorização para utilizar o corredor e sob quais condições?
A declaração de Araghchi deixa claro que Teerã continua separando o acordo com Omã das negociações com Washington. A frase sobre a necessidade de os Estados Unidos “corrigirem seu comportamento” indica que o governo iraniano não considera resolvida a disputa bilateral.
O anúncio também ocorre em um momento em que o tráfego pelo estreito está abaixo dos níveis habituais e em que incidentes envolvendo navios comerciais aumentam os riscos para a navegação.
Assim, o acordo entre Irã e Omã pode ser o primeiro passo para uma normalização parcial do trânsito marítimo, mas seu alcance dependerá da capacidade de Mascate de mediar as condições entre Teerã e Washington e, sobretudo, de uma eventual redução da tensão militar no golfo Pérsico.
Por enquanto, a principal mensagem do acordo é menos a de que Ormuz foi reaberto e mais a de que Irã e Omã encontraram uma fórmula técnica para tentar fazer a navegação voltar a funcionar, enquanto a disputa política entre Teerã e Washington permanece sem solução.






















