Terça-feira, 6 de outubro de 2026
Compartilhe:

No discurso de terça-feira (24/09) na 81ª Assembleia Geral da ONU, o premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, citou que seu país está “travando uma guerra em sete frentes”, uma delas seria na Síria.

Netanyahu, inclusive, se dirigiu nominalmente ao presidente sírio Ahmed al-Sharaa, declarando que o mandatário “deveria saber que o povo judeu está nas Colinas de Golã desde os tempos de Moisés”.

E-mail

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.

Canal do WhatsApp O mundo em movimento direto no seu celular.
Siga
TV Opera Mundi Opinião, contexto e coragem jornalística.
Sintonize

A fala do premiê ocorreu após as Forças de Defesa de Israel (IDF) bombardearem em 18 de setembro Abu al-Duhur, cidade e base aérea estratégica em Idlib, no noroeste da Síria. A chancelaria do país classificou o ataque como “violação de sua soberania e integridade territorial”.

Para Danny Zahreddine, professor de Relações Internacionais da PUC Minas e autor de Oriente Médio: Velhos e Novos Conflitos, ação contra a base aérea de Abu al-Duhur “representa uma tentativa de intimidação contra a relação turco-síria”.

Apuração em tempo real Acompanhe os resultados

Este foi o primeiro ataque à base desde a queda de Bashar al Assad em dezembro de 2024. A Opera Mundi, Zahreddine observa que a relação entre Ancara e Damasco “é muito importante”, já que a ascensão e a derrubada do líder sírio estão ligadas “ao apoio que Erdogan deu a Assad neste processo”.

“Porém, a presença dos turcos como uma força política, militar e econômica na Síria impõe a Israel uma preocupação pela expansão da presença turca na região. Logo, o ataque feito por Israel a essa base é uma tentativa de dizer acerca dos limites que Israel avalia aceitáveis da presença turca naquela região”, disse.

Zahreddine não enxerga um fator real de insegurança para Israel com a presença turca na Síria, “mas vejo sim um discurso que tenta deixar claro a necessidade de cuidar da existência dos israelenses a partir de um novo inimigo comum”, questão muito mais doméstica do que internacional.

“Logo, as guerras são essenciais para a manutenção do governo de extrema direita, das alianças com a extrema direita e com o discurso de que somente esses partidos, liderados por Netanyahu, poderiam assegurar aos israelenses que eles estariam livres e vivos”, afirmou.

Já a professora de relações internacionais do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) e senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), Monique Sochaczewski, o ataque teve a ver com uma nova doutrina militar de Israel depois do 7 de outubro.

“Ou seja, tem relação com em não deixar que novas ameaças se formem. E isso também se conecta com o panorama eleitoral israelense. Então, eu leio sobretudo esse ataque como Netanyahu precisando de guerras para vender internamente que Israel está sempre ameaçado e tentar virar o jogo, porque tem grandes chances dele perder as eleições deste ano”, disse.

 

 

Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reuniu-se com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan
Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reuniu-se com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan
Foto: gabinete do premiê Netanyahu / Avi Ohayon (GPO)

Expansionismo: Erdogan x Netanyahu

Sochaczewski aponta que as relações entre Israel e Turquia “sempre foram boas” e recorda que Ancara foi o primeiro país muçulmano a reconhecer o Estado de Israel, além de, antes da Revolução Islâmica, a chamada “doutrina da periferia” articular Turquia, Israel, Irã e, por vezes, Etiópia para conter os países árabes.

“A Turquia, já com Erdogan, não hostilizou totalmente Israel. Erdogan no primeiro momento acreditava que ele poderia ser um mediador entre Israel e os países da região”.

Outro fator, segundo a professora, é o medo turco do lobby israelense nos EUA, especialmente pelo não reconhecimento do genocídio armênio — tema sensível que poderia ser impactado pela boa articulação de Israel em Washington, assim como as relações com Grécia, Chipre e curdos.

A professora do IDP aponta que também há uma percepção de Ancara como “crescente competidor regional”, o que explica alinhamentos opostos: Israel com Chipre, Grécia e Somalilândia; Turquia com Somália.

Há um choque entre o projeto imperialista extremista de setores israelenses e a expansão turca no Oriente Médio: de um lado, Israel, criado em 1948, com forte rejeição regional e ocupação ilegal na Palestina; de outro, a Turquia, que liderou o mundo árabe-muçulmano por séculos como Império Otomano. Fator que, inclusive, é observado por Zahreddine.

Nesse sentido, Sochaczewski afirma que Israel percebe a Turquia “aproveitando o momento de instabilidade” e se colocando como “ator regional importante”, com papel também na Líbia.

“Eu também acho que Erdogan e o Netanyahu são muito parecidos, eles são raposas políticas, absolutamente conhecedoras do seu público interno, autocráticos e repressores. Enquanto Israel tem toda a questão dos palestinos, a Turquia tem a ocupação do norte do Chipre, que ninguém fala, assim como a questão curda”.

O professor da PUC Minas explica que o projeto neo-otomano de Erdogan tem mais aderência por ser muçulmano (não árabe) e ter discurso de unidade regional, enquanto Israel — que mais criou guerras nas últimas décadas — tem menos aceitação, exceto entre alguns países do Golfo.

O Ministério da Justiça turco pediu alertas vermelhos da Interpol contra Netanyahu e Afex Moskovitch, réus por genocídio em Istambul, anúncio feito pelo ministro Akin Gürlek em resposta à Flotilha Global Sumud.

Para Zahreddine, a medida visa “expor Israel e ganhar simpatia árabe, muçulmana e palestina”; para Sochaczewski, a Turquia quer dar “algum grau de resposta” sem ação militar, lucrando em propaganda.

“Os turcos têm interesses na Síria”

A Síria tornou-se peão importante no conflito por sua posição geográfica e pela presença curda no nordeste, região autônoma apoiada pelos EUA.

Zahreddine afirma que a Turquia sempre se preocupou com o norte da Síria, Iraque e noroeste do Irã, e que sua presença visa “impedir um corredor que unisse o norte desses países abraçando o sul da Turquia”.

Leia | Turquia diz que pode virar ‘próximo alvo’ de Israel após guerra contra Irã

Ou seja, para Ancara, esta situação é uma questão de segurança nacional de primeira ordem, que vê as forças curdas como o grupo Unidades de Proteção Popular (YPG), como uma extensão do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), um grupo separatista que luta contra o Estado turco há décadas. Além disso, a Turquia também encara a autonomia curda na sua fronteira sul como uma ameaça existencial, opondo-se firmemente à sua consolidação e realizando repetidas operações militares transfronteiriças para criar uma “zona de segurança” e eliminar o que considera “terroristas”, sendo a exigência de desarmamento do YPG um ponto central da sua política para a Síria.

“Com certeza um dos interesses turcos é criar as condições de desarticular a possibilidade de uma região autônoma curda na Síria, região tradicionalmente ocupada pelos curdos e que nos últimos dias vivenciou o fim do Exército sírio curdo, apoiado pelos norte-americanos e a integração dos seus membros para o exército sírio”, disse Zahreddine.

Mais lidas