Segunda-feira, 29 de junho de 2026
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Na última semana, o pânico voltou a tomar conta do santuário Sayyida Zaynab, localizado em cidade de mesmo nome, a 10 quilômetros ao sul de Damasco. Militantes do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), nova força governante da Síria, tentaram ingressar armados no templo religioso. A reportagem de Opera Mundi chegou ao local poucas horas depois dos acontecimentos, no dia 11, mas ainda a tempo de presenciar novas incursões – detidas por fiéis xiitas, de forma pacífica, limitando a presença da milícia ao pátio externo.

Seus combatentes não puderam entrar na sala onde está enterrada Zaynab bint Ali (626-682), neta de Maomé, cuja mãe se chamava Fátima e era filha do patriarca islâmico, casada com um primo do principal profeta muçulmano. Seu pai foi Ali ibn Abi Talib, o mais importante de todos os imames (sacerdotes islâmicos), o legítimo sucessor de Maomé para os xiitas – expressão que deriva de shi’at Ali, os seguidores de Ali.

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“Não queremos que ninguém entre aqui com armas”, disse Hussein Zayat, muçulmano xiita proveniente de Aleppo, no norte da Síria. “O santuário é sagrado, um lugar de abrigo. Os rebeldes vêm aqui e gritam ‘Allahu Akbar’ (Deus é grande, Deus é o maior, em árabe). Todas as crianças aqui são refugiadas de Aleppo e ficam muito assustadas quando ouvem os gritos, e lutamos para acalmá-las”, acrescentou.

Hussein Zayat é muçulmano xiita proveniente de Aleppo, no norte da Síria

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Não se nota em Sayyidah Zaynab a mesma euforia do que em outras partes do país com a queda de Bashar Al-Assad. A comunidade xiita, majoritária nesse local, se lembra com pavor do massacre ocorrido em fevereiro de 2016, quando 134 pessoas foram assassinadas e 180 ficaram feridas depois de quatro explosões reivindicadas pelo Estado Islâmico. Não é à toa que, nesse grupo, provoca tensão a chegada ao poder de salafitas e jihadistas: há medo de exclusão política e perseguição religiosa.

Sayyida Zaynab: município de maioria xiita na periferia de Damasco

De forma cautelosa, os fiéis revelam seus temores, na expectativa que, dessa vez, tudo saia melhor que no passado recente. “Tenho orgulho e honra de ter nascido xiita”, confessa Yasmin Taha, proveniente de Homs, cidade no oeste da Síria. “Desejo que este novo governo traga segurança, proteção e estabilidade. Espero que não haja divisão entre seitas”.

Com o fim do velho regime e a ascensão do HTS, a correlação de forças entre os ramos religiosos deve sofrer brusca modificação. Sob Assad, quem dominava as estruturas políticas eram os alauitas. Essa corrente islâmica nasceu de uma variante heterodoxa e esotérica do xiismo, elaborada no século IX por Mohammad bem Nusseir. Seus seguidores veneram Ali, como os xiitas, mas acreditam em reencarnação, carecem de mesquitas, ignoram o jejum e a peregrinação a Meca, toleram o álcool e suas mulheres não utilizam véu. São tidos como heréticos por correntes sunitas.

Yasmin Taha

Yasmin Taha: ‘desejo que este novo governo traga segurança, proteção e estabilidade’

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As estatísticas sírias são controversas, depois de tantos anos em guerra civil. De acordo com o Banco Mundial, a população estaria em 23 milhões de moradores. Desses, 87% seriam árabes, 10% curdos e 3% de outros grupos étnicos. Pela repartição religiosa, segundo múltiplos estudos, 90% professariam fé muçulmana – os sunitas comporiam 74% e os xiitas bateriam em 16%, com 11% de alauitas – enquanto o cristianismo alcançaria cerca de 6% e outras crenças não passariam de 4%.

A vitória do HTS e seus aliados expressa a possível hegemonia das ramificações mais ortodoxas do sunismo: o salafismo e o jihadismo. Essas duas doutrinas fazem uma leitura fundamentalista do Alcorão e defendem a imposição de seus valores através de uma guerra santa (jihad, em árabe), que eventualmente conduza à reconstrução do regime de califado – uma forma teocrática de monarquia absoluta – por todas as terras de maioria muçulmana.

Túmulo de Zaynab bint Al

Túmulo de Zaynab bint Al, neta de Maomé e filha do principal patriarca xiita

Essa é a razão do temor xiita. O HTS é herdeiro da Frente al-Nusra, que se filiava a al-Qaeda e estava aliada ao Estado Islâmico durante a primeira etapa da guerra civil, de 2011 a 2017. Fazia parte, portanto, da coalizão de grupos salafitas e jihadistas que tocaram o terror contra as denominações religiosas discordantes de sua posição.

Sob a liderança de Abu Mohammad al-Julani, os novos detentores do poder teriam supostamente rompido com o fundamentalismo islâmico e abandonado as velhas práticas. Mas muita gente tem dúvidas sobre a autenticidade dessa conversão e suspeita que não passe de marketing passageiro.

A ascensão do HTS é um fenômeno que inquieta também os xiitas libaneses. No país vizinho existe um sentimento de que a ascensão dos salafistas sírios poderia representar ameaça existencial para a sua comunidade. Ali Hussein, xiita libanês nascido em Haret Hreik, subúrbio de Beirute, relatou a Opera Mundi suas preocupações que o novo governo interino sírio. “Uma das principais razões pelas quais o Hezbollah se envolveu na guerra civil síria foi a crescente proximidade de salafistas e jihadistas com as fronteiras libanesas”, afirma. “Estes grupos são extremistas e acreditam que qualquer religião ou seita diferente da sua é indigna de existir”.

Durante a guerra civil síria, o Estado Islâmico e a Frente al-Nusra enviaram homens-bomba para Dahye, a província na qual nasceu Hussein, provocando explosões que resultaram em inúmeras mortes. A lembrança deste acontecimento o deixa inseguro sobre o futuro.

“O Hezbollah entrou na guerra para defender as fronteiras do Líbano e impedir que os salafistas continuassem esses ataques em Dahye”, relata. “Há um perigo real de que esses extremistas possam tomar conta de todo o Líbano, assim como fizeram em regiões da Síria. Isso representa ameaça aos xiitas no Líbano. Mas provavelmente enfrentarão forte resistência, particularmente na região de Bekaa. Ninguém sabe o que acontecerá”.