‘Museu das Lembranças’ mantém viva história da Nakba em campo de refugiados palestinos no Líbano
Criado por ex-funcionário da ONU, local reúne itens coletados de famílias provenientes da diáspora palestina, principalmente durante a criação do Estado de Israel
Pelos labirintos do campo de refugiados de Chatila, subúrbio sul de Beirute, encontramos Ali Al-Khatib, um senhor palestino de espírito jovial e com muitas histórias para contar. Detentor de um espanhol impecável, herdado dos tempos de estudo em Cuba, ele guiou a reportagem de Opera Mundi pelas veias do bairro palestino até chegarmos ao coração, onde fica o chamado “Museu das Lembranças”.
Criado em 2004 pelo seu irmão Mohammad Al-Khatib, no período em que ele trabalhava na Organização das Nações Unidas (ONU), Ali conta que todos os itens reunidos ali foram coletados de famílias provenientes da diáspora palestina, principalmente durante a Nakba, período entre os anos de 1947 a 1949, quando mais de 750 mil palestinos foram expulsos de suas casas para dar lugar ao que é hoje o Estado de Israel.
O acervo com objetos, fotos, livros e documentos que registram a história da região do Levante palestino, território ocupado pelo exército israelense, que inclui a Faixa de Gaza e também a Cisjordânia, são algumas das muitas evidências da limpeza étnica que a Palestina tem enfrentado há 78 anos, com a conivência de vários países, principalmente os Estados Unidos e países europeus.
A história da família de Ali é uma colcha de retalhos costurada com perdas e deslocamentos forçados, onde peças simples carregam o peso da memória. A máquina de costura de sua mãe, uma Singer italiana, é um desses exemplos simbólicos.
Ele recorda que Fátima conseguiu salvar o instrumento de trabalho de um bombardeio em Nabatieh, que matou seu pai em 16 de maio de 1974, um dia após a data que marca o início da catástrofe palestina.
Mas a tragédia voltou a se repetir. Em 1976, durante o massacre de Tal al-Zaatar pelos falangistas (cristãos maronitas), outro irmão de Ali foi morto e a máquina, perdida. “Minha mãe ficou muito triste, porque perdeu a máquina. Meu irmão comprou outra, mas ela dizia que não era a mesma coisa, porque a outra era melhor e original”, recorda.
Com a voz carregada de emoção e nostalgia, Ali lembra de outro momento traumático vivido por seus familiares, em Chatila. No ano de 1982, durante o massacre que chocou e marcou a história recente, seu irmão, que trabalhava no hospital do Crescente Vermelho Palestino, teve um pressentimento: “quando ele viu os soldados chegando, disse às pessoas para saírem, pois haveria ali um massacre”.
Enquanto alguns médicos hesitavam, acreditando que seriam poupados pela nobre profissão, seu irmão e mais dois conseguiram escapar pelos fundos. “Só três sobreviveram. Os outros foram assassinados”, descreve, ao recriar o episódio que ficou conhecido como o “Massacre de Sabra e Chatila” e remete ao assassinato de civis palestinos e libaneses em 1982, durante a invasão israelense do Líbano com apoio de milícias maronitas aliadas a Israel.

Parede do ‘Museu das Lembranças’ exibe adornos e objetos antigos de cobre, fabricados na região do Levante palestino
Stefani Costa / Opera Mundi
A ‘Verdadeira Palestina’
Ali Al Khatib nasceu em um dos primeiros campos de refugiados palestinos criados durante a Nakba, termo que significa “catástrofe” em árabe. “Meu povoado se chama El Jalsa, no norte da Palestina, na região da Galileia, bem na fronteira com o Líbano”, retrata.
Ao explicar sobre as raízes do conflito, Khatib faz questão de nomear os responsáveis históricos. “Os ingleses são os principais culpados pela Nakba. Quando ocuparam a Palestina, já tinham um plano: não apenas ocupar o território, mas entregá-lo aos sionistas”, disse, citando a carta do então ministro britânico, Arthur James Balfour, datada em novembro de 1917.
Ele lembra ainda que muitos judeus palestinos eram aliados. “Não se trata simplesmente de judeus, mas de sionistas. Eles diziam para nós, em 1948, que não deveríamos sair de lá, porque aquela gente que vinha de fora destruiria todos nós, e que precisávamos permanecer juntos”, lembra.
Foi com a ajuda do mapa da “Verdadeira Palestina”, emoldurado no centro do museu, que Ali foi explicando o contexto histórico do conflito que, segundo ele, é quase sempre ignorado.
“A luta começou em 1920, pelo menos na nossa região. Naquela época os sionistas ainda não eram tão fortes. Os ingleses eram os mais poderosos. Eles davam armas, treinamento e proteção aos sionistas”, conta.
Após a morte de Al-Qassam, um líder sírio que atuava na Palestina, a resistência se intensificou em 1936 com a primeira grande revolta palestina, que durou até 1939. Com a partilha do território feita pela ONU, em 1947, foram criados dois estados, um árabe e outro judeu. O primeiro luta até hoje pelo direito de existir.
“Nosso povo não aceitou essa divisão, pois queríamos uma Palestina para todos”, destaca Ali, que acrescenta como argumento que, em 1948, os israelenses já possuíam capacidade militar graças ao armamento deixado pelos ingleses, e lamenta: “perdemos a guerra naquele ano, em seguida, nosso povo foi disperso pelo Líbano, Síria, Jordânia e Egito”.

Cédula de dinheiro palestino da época da colonização britânica na região
Stefani Costa / Opera Mundi
A Nakba libanesa
Décadas depois, ao ser questionado se o Líbano vive hoje uma nova Nakba, Ali reflete e afirma que “a tragédia tem se repetido diante dos nossos olhos, mas agora as pessoas têm mais consciência”.
Em meio às paredes úmidas do museu construído pelos irmãos, as bandeiras da Palestina e do Líbano permanecem unidas. Mesmo que os raios de sol não penetrem as vielas que abrigam o “Museu das Lembranças”, o calor humano mantém acesa a chama de um povo que luta contra o genocídio, fazendo daquele local um farol para a humanidade.
“Tudo o que meu irmão encontrava relacionado à Palestina era guardado e preparado para o museu, porque isso faz parte da nossa cultura. Ele dizia que não podíamos deixar que as coisas palestinas se perdessem. E aqui seguimos com a nossa luta”, salienta.
De acordo com o Conselho Nacional de Pesquisa Científica do Líbano, entre os dias 2 de março a 8 de maio, Israel já destruiu ou danificou mais de 50 mil unidades residenciais em território libanês, resultando em mais de um milhão de deslocados em um país com menos de seis milhões de habitantes.
Ademais, os ataques israelenses ao Líbano mataram pelo menos 657 pessoas desde o início do cessar-fogo, segundo informa o Ministério da Saúde libanês.
Desde o dia 16 de abril, data em que teve início um cessar-fogo que para os libaneses só existiu no papel, as populações de 99 vilas no sul do Líbano tiveram que fugir. Hoje, já são cerca de três mil mortos e mais de oito mil feridos, incluindo 200 crianças, 110 profissionais de saúde e mais de 20 jornalistas e trabalhadores da comunicação.
























