Domingo, 9 de agosto de 2026
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Em seu gabinete, evacuado para um prédio longe da Prefeitura após meses de fortes ataques aéreos, o vice-prefeito de Haret Hreik, Sadek Sleim, ajuda a administrar a prestação de assistência aos habitantes de uma das localidades da Grande Beirute mais atingidas por bombas lançadas por Israel contra o território do Líbano entre março e abril passados.

Em entrevista a Opera Mundi, Sleim fala sobre a forma como a gestão municipal busca soluções diárias para fornecer refeições diárias, água potável e itens de higiene e necessidade básica aos desabrigados que estão reunidos provisoriamente em escolas e universidades que não foram afetadas pelos mísseis de Tel Aviv.

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“Os ataques aéreos israelenses afetaram a infraestrutura de Haret Hreik. O abastecimento de água foi interrompido em muitos prédios. Nós também conseguimos garantir uma parte importante dos medicamentos para quem não tinha condições financeiras de comprá-los”, conta o político libanês.

A Prefeitura de Haret Hreik tem atuação alinhada à aliança entre o Movimento Amal e o Hezbollah, forças que tradicionalmente administram os conselhos municipais da região. O vice-prefeito explica que cada bairro possui uma administração própria, o que, de certa forma, facilita a coordenação dos trabalhos de assistência à população nos dias mais críticos.

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Reduzir o Hezbollah a uma única definição não explica sua complexidade. Nascido em 1982 contra a ocupação israelense, o grupo tornou-se uma força com múltiplos braços: é partido político, rede de assistência social e uma enorme resistência armada.

O caso de Haret Hreik, no subúrbio sul de Beirute, popularmente conhecido como Dahieh, ajuda a entender melhor a atuação do movimento. Neste local, Israel lançou, aproximadamente, oitenta bombardeios contra a população civil – segundo Sleim, isso equivale a cerca de 43% de todos os ataques realizados pelo exército israelense na região.

Os bombardeios destruíram muitos postes de energia elétrica, redes de abastecimento de água e tubulações de esgoto. Além das casas e prédios que desabaram completamente sobre as ruas, a cada esquina é possível encontrar edifícios cujas colunas de sustentação também ficaram comprometidas.

Segundo um levantamento preliminar feito pelo conselho municipal, mais de 25 prédios terão que ser demolidos somente neste bairro.

Cenário de destruição causado por bombardeios israelenses contra Haret Hreik
Stefani Costa / Opera Mundi

“Nunca abandonamos a região. Nos dias mais intensos, nosso trabalho era abrir as ruas para permitir a entrada da Defesa Civil, apagar os incêndios, retirar os corpos dos mártires e resgatar os feridos. Realizamos outra tarefa importante: retirar todos os escombros produzidos pelos bombardeios, desobstruir as ruas, varrer, lavar e limpar as vias”, relata o Sleim.

Atualmente, não há um número exato sobre quantas pessoas estão residindo em Haret Hreik. De acordo com o vice-prefeito, depois das agressões, cerca de 40 mil já retornaram ao bairro. “Mas Haret Hreik tem uma população maior. Em condições normais, chega a aproximadamente 100 mil habitantes”, complementa.

O gestor também lembrou dos que voltavam temporariamente para buscar documentos, recuperar seus pertences ou retirar as mercadorias que ainda estavam em suas lojas. “Auxiliamos diariamente muitos comerciantes a transportar seus produtos para protegê-los dos bombardeios, da destruição e dos danos”, adiciona.

Eco do silêncio

A guerra levanta muitas questões. Para quem vive no meio da barbárie, o dia a dia acaba gerando uma sensação de normalização, como se a vida se resumisse a resistir aos horrores. Já para quem não enfrenta essa realidade todos os dias, a caminhada pelas ruas de Haret Hreik segue acompanhada por um sentimento de angústia e revolta.

“À noite, o bairro ficava extremamente triste. Era realmente doloroso vê-lo completamente apagado e vazio. Ainda havia alguns moradores. Fornecemos a eles tudo o que era necessário para continuar vivendo ali, mas sabemos que não é uma realidade fácil”, lamentou Sadek Sleim.

Transeuntes em Haret Hreik caminhando entre escombros produzidos por bombardeios de Israel à localidade
Stefani Costa / Opera Mundi

Apesar da trégua de ataques israelenses à capital Beirute, as agressões de Israel contra o sul do Líbano continuam. Na semana passada, enquanto o presidente libanês Joseph Aoun viajava para Washington a convite de Donald Trump e Marco Rubio, o exército de ocupação israelense incendiou uma reserva natural na vila de Baraachit, em Bint Jbeil, um dos distritos ocupados ilegalmente.

No domingo passado (26/07), o exército libanês acusou o exército israelense de violar a legislação do sul do Líbano, ao continuar bombardeando cidades, abrindo fogo contra moradores, queimando terras agrícolas e seguindo com a demolição maciça de casas.

O comunicado também afirma que os ataques contínuos têm obstruído a passagem das forças armadas do Líbano para as chamadas “zonas-pilotos”, criadas durante o acordo costurado com Israel e Estados Unidos. Segundo os militares libaneses, as tropas israelenses têm impedido a retomada do controle, bem como o retorno dos deslocados às suas casas.

Desde o dia 2 de março, quando os ataques de Israel contra o Líbano se intensificaram, 4.332 civis foram mortos e outros 12.236 ficaram feridos, segundo dados do Ministério da Saúde libanês. No auge dos bombardeios, o número de deslocados em todo o país ultrapassou um milhão de pessoas.