Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
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Em meio às celebrações pelo primeiro aniversário da queda de Bashar al-Assad, Damasco viveu um fim de semana inteiro de atos, desfiles e festas em diferentes bairros da capital – todos culminando na maior concentração realizada nesta segunda-feira (08/12), na praça dos Omíadas. A reportagem de Opera Mundi acompanhou de perto o evento, que tomou a praça desde as primeiras horas da manhã e seguiu madrugada adentro, marcado por discursos oficiais, desfiles militares e um policiamento intenso.

Apesar do grande número de participantes, o perfil do público presente este ano era visivelmente diferente – e bem mais homogêneo – daquele visto nas celebrações espontâneas que marcaram a queda de Assad em 8 de dezembro de 2024, quando jovens de diferentes classes sociais, minorias religiosas e diversos segmentos da sociedade civil tomaram as ruas.

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Desta vez, a presença era dominada por grandes blocos tribais – muitos deles carregando as bandeiras de suas próprias tribos – e por outros sírios pertencentes, majoritariamente, ao grupo sectário-religioso sunita.

A composição da maioria do público presente na celebração refletia a orientação religiosa do atual governo interino, formado a partir da estrutura do antigo grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), cuja identidade político-religiosa é marcada por um conservadorismo sunita e por elementos ideológicos próximos ao salafismo jihadista.

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Essa tonalidade esteve presente ao longo de toda a celebração: músicas religiosas ecoavam pelos alto-falantes, e caixas de som oficiais repetiam “Allahu Akbar” (“Deus é grande”), expressão que, neste contexto, reforçava a natureza explicitamente religiosa – e cada vez mais sectária – do novo poder instalado em Damasco. Indivíduos identificados com grupos jihadistas também circulavam livremente pela praça: a reportagem de Opera Mundi encontrou homens portando, no braço, o brasão do grupo Estado Islâmico.

Pelas ruas de Damasco, outdoors instalados pelo governo interino repetem a frase “uma Síria, um povo”, numa tentativa de transmitir uma imagem de unidade nacional que, ao longo do último ano, não se verificou na prática. A desconexão entre a mensagem oficial e a realidade no terreno ecoa o que Opera Mundi documentou desde a queda da capital: nossa equipe esteve presente em Damasco durante o colapso do regime Assad em dezembro de 2024 e percorreu diversas regiões do país ao longo de 2025, registrando a perseguição sistemática e massacres contra minorias sectárias sob o novo governo interino – sobretudo contra alauítas e drusos.

“Somos livres agora’’, disse Roula, síria de 20 anos que caminhava com amigas em direção à praça dos Omíadas. “Agora eu me sinto orgulhosa de ser síria. Por Deus, nós esperamos tanto por esse dia e eu vivi para vê-lo acontecer”.

Entre as promessas de “uma Síria livre” repetidas nos discursos oficiais e nas entrevistas conduzidas pela reportagem de Opera Mundi nesta segunda-feira com os presentes na comemoração, persiste uma realidade difícil de ignorar: o mesmo país que comemora o primeiro aniversário da queda de Assad, agora enterra suas minorias, vítimas do novo governo que se instalou desde dezembro passado.

O massacre da minoria alauíta

Os alauítas – muçulmanos pertencentes a uma corrente heterodoxa do islamismo xiita que desenvolveu práticas consideradas esotéricas e pouco ortodoxas por correntes sunitas mais conservadoras – são fortemente associados ao antigo regime: a família Assad é alauíta, assim como grande parte de seus aliados políticos e militares.

Ao contrário do que se possa imaginar, no entanto, muitos viveram e continuam a viver na extrema pobreza. Em entrevista, Alaa Issa (o nome foi mudado, por razões de segurança), alauíta de 30 anos e ex-funcionário do governo de Assad, explicou que os Assad, apesar de alauítas, simularam uma afinidade com essa comunidade para gerar desconfiança no restante da população e fortalecer a dependência desse grupo com o regime. Isso não implicou para os alauítas em nenhum privilégio extra. “Vivemos na pobreza, assim como o resto do país”, afirmou. “Nós, os alauítas, pudemos existir enquanto o regime existiu. Minha carreira e minha vida inteira dependiam da existência do regime. Eu perdi tudo”.

Queda de governo de Bashar al-Assad na Síria aconteceu no dia 8 de dezembro de 2024
Giovanna Vial

A desconfiança do restante da população síria em relação aos alauítas foi fomentada sob o governo interino pós-Assad e resultou em uma onda de vinganças sectárias contra essa minoria, que atingiu seu apogeu em março de 2025. À época, nas regiões de Latakia e Tartus, parte costeira do país em que encontra-se a maioria dos sírios alauítas da Síria, ocorreu o que o Observatório Sírio para Direitos Humanos chamou de uma “verdadeira chacina contra alauítas”.

À medida que massacres foram acontecendo, se consolidou um padrão de distanciamento por parte do governo interino em relação aos autores dessas ações, frequentemente rotulados como “grupos não identificados” ou “fora da lei”, ainda que atuem em regiões sob controle nominal da própria administração.

Os druzos e o avanço israelense em território sírio

A minoria alauíta não foi a única a se tornar alvo das chacinas cometidos ao longo do primeiro ano do governo do presidente Ahmad Al-Sharaa – ele mesmo anteriormente associado aos grupos jihadistas Al Qaeda e Estado Islâmico.

Em julho de 2025, a violência contra drusos, que já havia deixado dezenas de mortos em Damasco alguns meses antes, atingiu seu apogeu na região de Al-Suwayda, de maioria drusa, no sul do país. Confrontos intensos eclodiram entre combatentes tribais e grupos drusos armados – o que não foi impedido pelas Forças de Segurança interinas.

Sob o argumento de proteger a minoria drusa contra o novo governo sírio, Israel realizou ataques aéreos na província de Al-Suwayda e uma série de bombardeios em Damasco – inclusive contra o edifício do Ministério da Defesa e áreas próximas ao Palácio Presidencial.

Em entrevista a Opera Mundi, o jornalista e comentarista político Iyad Khleif explica como Israel busca manipular tensões sectárias ao se colocar como protetor da minoria drusa para reforçar seu controle político e territorial na região.

“Israel, fundado como um Estado judeu, há muito busca legitimar seu caráter religioso ao se cercar de vizinhos sectários ou fragmentados. Isso moldou uma estratégia consistente de ‘aliança com minorias’, apoiando grupos menores contra maiorias dominantes” explica Iyad. “Na Síria, a ascensão de facções islamistas radicais intensificou os temores das minorias, levando algumas comunidades a enxergar Israel como um potencial protetor. Mas essa dinâmica, no fim, apenas aprofunda a fragmentação e alimenta conflitos sem fim. A verdadeira salvaguarda contra o extremismo e o colapso estatal não é a partição sectária, mas sim Estados unificados e democráticos, construídos sobre a cidadania – e não sobre políticas identitárias”.

O número de mortos em decorrência de confrontos, execuções e ataques aéreos israelenses em Al-Suwayda em julho ultrapassou 1100 pessoas – entre elas crianças, mulheres e jornalistas.