173 anos de José Martí, o mártir da independência cubana
Jornalista e fundador do Partido Revolucionário Cubano destacou-se por importantes ensaios políticos e literários, sendo conhecido por defender a integração latino-americana
Há 173 anos, em 28 de janeiro de 1853, nascia o poeta, jornalista e revolucionário cubano José Martí. Herói nacional de Cuba, ele é reverenciado como o “apóstolo da independência” e se consagrou como um dos maiores expoentes da luta anticolonial no século 19.
Martí aderiu ao movimento emancipacionista ainda na adolescência, o que lhe rendeu prisões, deportações e uma vida marcada pelo exílio. Destacou-se também pelo enorme talento literário, firmando-se como um dos precursores do modernismo hispano-americano.
Fundador do Partido Revolucionário Cubano, José Martí foi o principal articulador da Guerra de Independência de 1895. Morreu em combate contra as tropas espanholas, transformando-se em um mártir da independência.
A juventude e a primeira prisão
José Julián Martí Pérez nasceu em Havana, capital de Cuba, então uma das derradeiras colônias do Império Espanhol nas Américas. Ele era o primogênito e único homem entre os oito filhos de Mariano Martí Navarro e Leonor Pérez Cabrera, um casal de imigrantes espanhóis.
Martí viveu com sua família por um breve período em Valência, no leste da Espanha. Após retornar a Cuba, matriculou-se na Escola de Instrução Primária de Varones, instituição dirigida por Rafael María de Mendive, seu futuro mentor intelectual. Prosseguiu com os estudos no Instituto de Educação Secundária e, em 1867, ingressou na Escola Profissional de Pintura e Escultura de Havana, onde teve aulas de desenho.
Sem conseguir se firmar profissionalmente como artista, Martí se transferiu para a Escola de San Pablo, igualmente dirigida por Mendive, onde também exerceu funções administrativas.
A partir de 1868, com o início da Guerra dos Dez Anos — o primeiro grande levante emancipacionista de Cuba — Martí passou a frequentar os clubes nacionalistas de Havana, acompanhado do amigo Fermín Valdés Domínguez. É dessa época que datam seus primeiros poemas patrióticos, publicados no jornal “El Diablo Cojuelo”. Em 1869, então com 16 anos, Martí fundou o jornal “La Patria Libre”, onde publicou “Abdala”, poema épico-dramático que exalta a luta pela independência.
O apoio ao movimento independentista renderia ao poeta sua primeira prisão. Em outubro de 1869, após a apreensão de uma carta com críticas às autoridades espanholas, Martí foi acusado de traição e condenado a seis anos de cadeia. Encarcerado em condições brutais, submetido à tortura e com grilhões presos às pernas, o poeta sofreu graves lacerações e adoeceu gravemente. Em consequência de seu frágil estado físico, a prisão foi comutada por degredo na Isla de Pinos.
O exílio na Espanha
Diante dos incessantes apelos dos amigos e familiares, as autoridades coloniais permitiram que Martí partisse para o exílio na Espanha. Estabelecido em Madri em fevereiro de 1871, o jovem travou contato com a comunidade de exiliados cubanos, à qual posteriormente se juntou Fermín Valdés Domínguez.
Matriculado no curso de direito da Universidade Central de Madri, Martí voltou a se envolver no debate político e a criticar abertamente a violência da colonização espanhola. Ainda em 1871, ele publicou o panfleto “A Prisão Política em Cuba”, uma denúncia vigorosa dos abusos cometidos pelos colonizadores nas instalações carcerárias da ilha caribenha.
Em 1873, Martí escreveu “Meus Irmãos Mortos em 27 de Novembro”, uma homenagem poética a oito estudantes cubanos que foram injustamente acusados de profanar o túmulo de um jornalista espanhol e acabaram fuzilados pelas autoridades coloniais. Após a efêmera proclamação do regime republicano, Martí redigiu “A República Espanhola e a Revolução Cubana”, um ensaio criticando a hipocrisia dos líderes do movimento republicano espanhol, que se negavam a reconhecer o direito à autodeterminação do povo cubano.
Em maio de 1873, Martí se mudou para Saragoça, onde prosseguiu estudando direito na Universidade Literária. Em paralelo, cursou a Faculdade de Filosofia e Letras. Obteve sua dupla graduação já no ano seguinte, partindo então para Paris, onde conheceu os poetas Victor Hugo e Auguste Vacquerie.

Monumento a José Martí em Cienfuegos.
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Atividades no México e na Guatemala
Legalmente impedido de retornar para Cuba, Martí se mudou para o México em 1875, a fim de ficar mais próximo de sua família. Trabalhou como escritor e jornalista, traduzindo obras de Victor Hugo e escrevendo artigos para a “Revista Universal”. Integrou-se rapidamente aos círculos intelectuais da Cidade do México e tornou-se membro da Sociedade Gorostiza — o clube artístico-literário onde conheceu Carmen Zayas-Bazán, sua futura esposa.
Defensor dos princípios liberais e do radicalismo clássico, Martí também se engajou nas discussões políticas mexicanas. O intelectual cubano fez forte oposição ao Plano de Tuxtepec e à articulação golpista comandada por Porfirio Díaz, defendendo a legitimidade do governo de Sebastián Lerdo de Tejada. Tornou-se um dos principais líderes do Grande Círculo Operário e colaborou com o jornal El Socialista.
Em 1877, o poeta se mudou para a Guatemala. À época, o país experimentava um processo fecundo de reformas progressistas, encabeçado pelo presidente Justo Rufino Barrios. Martí foi contratado pelo governo guatemalteco para escrever a peça “Pátria e Liberdade”, abordando a luta pela independência na Guatemala e a opressão imposta aos povos indígenas durante o período colonial.
Na Guatemala, Martí foi nomeado chefe do Departamento de Literatura da Universidade de São Carlos. Ele lecionou na Academia de Meninas da América Central e assumiu a vice-presidência da Sociedade Literária “El Porvenire”. Entre suas alunas estava María García Granados, filha do ex-presidente guatemalteco Miguel García Granados. María nutriu um amor não correspondido por Martí. Após sua comovente morte precoce, ela foi imortalizada pelo cubano no poema “La Niña de Guatemala”.
Novo exílio
Martí retornou a Cuba em agosto de 1878, acompanhado da esposa. Três meses após seu retorno, ele vivenciou o nascimento de seu filho, José Francisco, dito “Pepito”. A ele, Martí dedicou o livro de poemas “Ismaelillo”, publicado em 1882. Marcado pela linguagem livre e pelo amplo recurso ao simbolismo, o livro se tornaria um dos marcos inaugurais do modernismo hispano-americano.
Imediatamente após seu retorno, Martí retomou sua participação no movimento independentista. Ele foi um dos fundadores e vice-presidente do Clube Revolucionário Central de Cuba e estabeleceu uma prolífica parceria com o líder revolucionário Juan Gualberto Gómez.
A volta de Martí a Cuba coincidiu com o fim da Guerra dos Dez Anos. O poeta criticou severamente a capitulação das forças do Exército Libertador (ou Exército Mambí), selada através da Paz de Zanjón, que manteve Cuba submetida ao status de colônia da Espanha.
Assim, em agosto de 1879, Martí se envolveria em um novo levante revolucionário que eclodiu em Santiago de Cuba — a chamada “Guerra Pequena”, liderada por Calixto García. A insurreição foi rapidamente debelada pelas forças coloniais. No mês seguinte, Martí foi preso pelas tropas espanholas e expulso novamente de Cuba.
O movimento revolucionário
Em 1881, após um período radicado em Nova York, Martí se mudou para a Venezuela. Em Caracas, ele fundou a Revista Venezolana, um periódico cultural e literário estruturado sob um projeto ambicioso de difusão da produção intelectual latino-americana.
O projeto, no entanto, teve vida curta. Incomodado com o ensaio sobre Cecilio Acosta publicado pela revista, o ditador venezuelano Antonio Guzmán Blanco ordenou a expulsão de Martí.
De volta a Nova York, o cubano trabalhou como editor, jornalista e tradutor. Publicou poemas e peças de teatro, fundou uma revista infantil (La Edad de Oro), traduziu romances inéditos e atuou como correspondente para vários periódicos latino-americanos.
Seus artigos e crônicas, caracterizados pelo lirismo, originalidade e densidade intelectual, o consagraram como um dos mais renomados intelectuais de seu tempo. Ele também foi convidado a atuar como cônsul para os governos da Argentina, Paraguai e Uruguai.
A partir de 1882, Martí se dedicou, sobretudo, à reorganização do movimento independentista de Cuba. Ele se juntou ao Comitê Revolucionário Cubano de Nova York e se aproximou das lideranças militares do Exército Libertador, nomeadamente Máximo Gómez Báez e Antonio Maceo, contribuindo para a elaboração de um plano insurrecional.
Em 1887, Martí assumiu a presidência do Comitê Executivo do movimento revolucionário. Convencido de que a luta independentista carecia de unidade, organização civil e direção política clara, ele tratou de isolar as lideranças militares propensas a ceder ao caudilhismo, priorizando a construção de uma base popular.
O poeta visitou os clubes patrióticos, as fábricas de tabaco e as comunidades de imigrantes para buscar apoio do operariado cubano e arrecadar fundos para financiar o levante autonomista. Em 1892, como fruto desse intenso processo de articulação política, Martí fundou o Partido Revolucionário Cubano (PRC).
Eleito delegado do PRC, Martí intensificou os preparativos para a luta armada. Entre 1892 e 1893, ele viajou pelos Estados Unidos e por vários países da América Central e do Caribe, unificando as lideranças que haviam atuado nos levantes autonomistas anteriores e cooptando apoio das comunidades para o projeto independentista.
Esse período foi marcado também por grandes contribuições intelectuais. Em 1891, Martí publicou o ensaio Nossa América, reivindicando a unidade e a soberania dos povos latino-americanos, exortando a resistência contra o colonialismo e advertindo para os riscos do imperialismo norte-americano. Nesse mesmo ano, o autor publicou Versos Simples, uma célebre coletânea de poemas enfocando temas como patriotismo, liberdade e dignidade humana.
A insurreição e o martírio
Em dezembro de 1894, Martí e os coronéis Enrique Collazo e Mayía Rodríguez redigiram o chamado “Plano Fernandina” — a operação militar que visava dar apoio à revolta anticolonial em Cuba. O plano foi descoberto e as embarcações que seriam utilizadas pelos revolucionários acabaram apreendidas pelo governo norte-americano.
Apesar do revés, Martí decidiu dar sequência ao movimento insurgente. A insurreição foi deflagrada em 24 de fevereiro de 1895. O Manifesto de Montecristi, divulgado por Martí e pelo general Máximo Gómez na República Dominicana no mês seguinte, expôs os fundamentos e justificativas da revolução.
A expedição de Martí chegou a Cuba em 11 de abril de 1895. Após desembarcarem no Cabo Maisí, os rebeldes se somaram às tropas comandadas por Antonio Maceo e iniciaram a marcha para o interior da ilha. Os cubanos lograram neutralizar as primeiras ofensivas das tropas espanholas em Baracoa, mas o respaldo popular à insurreição ficou muito aquém do esperado.
Em 19 de maio de 1895, a frente comandada por Máximo Gómez se deparou com uma coluna de soldados espanhóis na região de Dos Ríos. Ignorando a ordem para recuar emitida pelo general, Martí avançou a cavalo contra os inimigos. O poeta foi mortalmente alvejado pelos tiros dos soldados espanhóis, falecendo no campo de batalha aos 42 anos.
A morte de Martí privou o movimento independentista cubano de seu principal formulador político. Os combates prosseguiram por mais três anos. Em 1898, a Espanha foi derrotada, mas a intervenção dos Estados Unidos no conflito impediu que Cuba se tornasse independente. O domínio colonial foi substituído pela tutela de Washington — exatamente o cenário que Martí previa e queria, ao máximo, evitar.
Conhecido pela alcunha de “Apóstolo da Independência”, José Martí é um dos heróis nacionais mais cultuados de Cuba. Suas ideias sobre liberdade e soberania influenciaram os maiores insurgentes cubanos do século 20, incluindo os revolucionários de 1959, e são até hoje reivindicadas por diversos movimentos populares e anti-imperialistas da América Latina.
























