Há 90 anos, em 8 de setembro de 1936, eclodia em Lisboa a Revolta dos Marinheiros, uma das maiores insurreições militares contra o regime ditatorial de António de Oliveira Salazar.
A revolta mobilizou centenas de marinheiros ligados à Organização Revolucionária da Armada, uma estrutura associada ao Partido Comunista Português (PCP). Após se apoderarem de três navios de guerra atracados na barra do Rio Tejo, os rebeldes lançaram um ultimato contra o regime português, exigindo o fim da perseguição ideológica e a libertação dos presos políticos.
Os insurgentes pretendiam ainda colocar os navios de guerra à disposição das forças republicanas ativas na Guerra Civil Espanhola, reforçando a luta contra os regimes fascistas europeus. O movimento, no entanto, foi traído por delatores e rapidamente esmagado pela ditadura. Os marinheiros amotinados foram enviados para o infame campo de concentração do Tarrafal.
Proclamada em 1910, a Primeira República Portuguesa foi marcada por uma enorme instabilidade política. Dezenas de governos se sucederam em pouco mais de 15 anos, em paralelo às crescentes tensões sociais, graves crises econômicas e disputas entre republicanos, monarquistas, carbonários e católicos.
Esse cenário de caos institucional criou terreno fértil para legitimar a tutela dos militares. Em maio de 1926, um golpe de Estado liderado pelo general Manuel Gomes da Costa derrubou o regime parlamentarista e instituiu a Ditadura Militar. As disputas por poder persistiram até que a ditadura ganhasse contornos mais estáveis sob a figura do general Óscar Carmona.
Nomeado Ministro das Finanças em 1928, António de Oliveira Salazar ganhou enorme protagonismo político e conquistou forte apoio do oficialato ao conseguir estabilizar a moeda e equilibrar as contas públicas. Em 1932, Salazar assumiu a presidência do Conselho de Ministros, tornando-se o efetivo chefe de governo de Portugal.
Em 1933, uma nova Constituição serviu de base à instauração do Estado Novo, consolidando a ditadura. Sob o comando de Salazar e inspirado nas experiências fascistas da Europa, o governo português se tornou um regime cada vez mais autoritário e repressivo, perseguindo sistematicamente os opositores e os militantes de esquerda.
O Estado Novo baniu a atividade política independente, criou sua polícia política (PVDE) e órgãos de vigilância e monitoramento. A autonomia sindical foi extinta e as organizações trabalhistas foram submetidas ao controle corporativo. Jornais, revistas, livros, peças de teatro passaram a ser censurados e as greves e mobilizações populares foram fortemente reprimidas.
Antes mesmo da constituição formal do Estado Novo, grupos de oposição tentavam fomentar a sublevação contra o regime. É o caso dos sucessivos levantes reviralhistas, ligados aos antigos republicanos que pressionavam pela restauração das liberdades democráticas desde 1927.
Comunistas, anarquistas e sindicalistas estiveram na linha de frente da oposição ao Estado Novo, buscando organizar núcleos de resistência junto à classe trabalhadora e exortando a participação popular nos movimentos paredistas, em especial na histórica greve geral de 1934, que paralisou boa parte das atividades econômicas do país.
Setores militares ligados à Primeira República constituíram um dos mais combativos núcleos de oposição à ditadura. Os militares amotinados comandaram diversas tentativas de derrubar o regime, incluindo a Revolta de Fevereiro de 1927 e a Revolta da Madeira, de 1931, que chegou a estabelecer uma administração militar rebelde por algumas semanas no arquipélago.
O advento da Guerra Civil Espanhola em julho de 1936 tornou-se um fator adicional de tensão política em Portugal. Salazar apoiava abertamente as tropas nacionalistas lideradas pelo general Francisco Franco e temia que a Revolução Espanhola, implementada pelos anarquistas na Catalunha e em Valência, tivesse um “efeito de contágio”. O ditador passou a permitir que o território português fosse utilizado como corredor logístico para a entrega de armamentos enviados pelo regime nazista às tropas de Franco.
Em agosto de 1936, sob pretexto de proteger emigrantes portugueses na Espanha, o regime de Salazar enviou o navio de aviso “Afonso de Albuquerque” para as águas espanholas. A bordo desse navio, 17 marinheiros, vários deles ligados a organizações revolucionárias, manifestaram explicitamente seu apoio às tropas republicanas que lutavam contra as forças franquistas.
O comandante do navio denunciou por rádio o comportamento “insubordinado” dos praças, e, ao regressar a Lisboa, os 17 marinheiros foram presos e expulsos da Armada. Esse episódio serviria como estopim imediato para a Revolta dos Marinheiros, intensificando o descontentamento que já vinha se acumulando entre os marujos.
A principal agremiação envolvida na Revolta dos Marinheiros era a Organização Revolucionária da Armada (ORA), uma estrutura clandestina ligada ao Partido Comunista Português (PCP) que congregava células dentro da própria Marinha de Guerra. Entre seus principais dirigentes estava Manuel Guedes, membro do Comitê Central do PCP.
Desde 1932, a ORA vinha desenvolvendo um intenso trabalho de conscientização, agitação e propaganda entre a marinhagem, denunciando as arbitrariedades da hierarquia naval, criticando os salários baixos e as más condições de vida — incluindo a péssima qualidade da alimentação — e exigindo o fim da repressão política movida contra militares suspeitos de serem simpatizantes da esquerda.
O principal meio de difusão das ideias da ORA era um boletim chamado “O Marinheiro Vermelho”. Com uma tiragem que chegava a 1.500 exemplares, o jornal não apenas reforçava as denúncias sobre os abusos na Marinha como também exortava a solidariedade à luta dos republicanos e a resistência ao fascismo.
Não tardou para que a ORA e “O Marinheiro Vermelho” se tornassem alvos dos órgãos repressivos da ditadura. Em 1933, a redação do jornal foi fechada e Manuel Guedes foi preso. Dois anos depois, cerca de 30 militantes da organização, incluindo dirigentes da comissão operacional, também foram presos e enviados para a fortaleza de Angra do Heroísmo. Apesar da repressão, a ORA foi reorganizada sob a liderança de João Faria Borda e Fernando Vicente, adquirindo um posicionamento ainda mais combativo.
A ORA conquistou influência notável nas tripulações de três navios que viriam a protagonizar a revolta: o contratorpedeiro “Dão” e os avisos “Afonso de Albuquerque” e “Bartolomeu Dias”. Logo após o anúncio da punição aos 17 marinheiros do “Afonso de Albuquerque”, os dirigentes da agremiação decidiram lançar uma ação de protesto de maior envergadura, iniciando os preparativos para um grande motim contra o regime.
Os marinheiros amotinados reivindicavam o fim da perseguição ideológica e a libertação dos presos políticos. O plano consistia na tomada dos navios de guerra, que seriam removidos para fora da barra do Rio Tejo, colocando-os a salvo do alcance das fortificações costeiras. Em seguida, os marinheiros lançariam um ultimato contra o regime português, respaldados pelo poder de fogo das embarcações. Se o ultimato falhasse ou se não houvesse apoio em terra, rumariam para Angra do Heroísmo, a fim de libertar os presos políticos.
Os revolucionários planejavam ainda utilizar as embarcações para apoiar as tropas republicanas na Guerra Civil Espanhola, integrando a insurreição portuguesa à luta antifascista travada pela Frente Popular. Os amotinados pretendiam conduzir os navios de guerra até um porto espanhol, deixando-os à disposição dos republicanos e obtendo um refúgio seguro contra as retaliações do regime de Salazar.

A revolta teve início na madrugada de 7 para 8 de setembro de 1936. Grupos de marinheiros ligados à ORA tomaram controle efetivo dos três navios ancorados no estuário do Tejo, “Dão”, “Afonso de Albuquerque” e “Bartolomeu Dias”. Os amotinados renderam e neutralizaram os oficiais das embarcações e conclamaram as tripulações a se juntarem ao levante.
O governo português, no entanto, já tinha conhecimento prévio da preparação do movimento. Alertado por infiltrados e delatores, o regime reagiu com rapidez. Dezenas de marinheiros suspeitos de envolvimento foram detidos antes mesmo de a revolta eclodir.
Salazar ordenou que os navios amotinados fossem impedidos de alcançar o mar aberto a qualquer custo, autorizando até mesmo a destruição das embarcações caso fosse necessário para esmagar a rebelião. As fortificações que guardavam a foz do Rio Tejo e a Aeronáutica Militar foram mobilizadas contra os navios sublevados, que se viram sob intenso bombardeio enquanto tentavam navegar para jusante.
Sob fogo cerrado, o contratorpedeiro “Dão” perdeu o controle e acabou encalhando, o que praticamente selou o destino da revolta. Ao fim de poucas horas, o governo conseguiu dominar por completo a insurreição. Estima-se que entre 10 e 12 marinheiros foram mortos nos confrontos com as tropas do regime.
A resposta do Estado Novo à revolta foi severa, buscando transformar os rebelados em um exemplo dissuasor para o resto das Forças Armadas. Mais de 200 marinheiros foram presos e expulsos da Marinha e 82 militares foram sentenciados a penas de até 20 anos de prisão. Os condenados foram encarcerados na fortaleza de Angra do Heroísmo, na prisão de Peniche e na recém-inaugurada Colônia Penal do Tarrafal, em Cabo Verde.
A deportação para o Tarrafal constitui um marco da repressão política do Estado Novo. Conhecida como “Campo da Morte Lenta”, a infame colônia abrigou centenas de opositores do regime português, enviados ao longo de décadas de ditadura. Os prisioneiros eram submetidos a condições brutais, sofrendo com a violência dos guardas, trabalhos forçados, instalações insalubres, epidemias e alimentação escassa. Dezenas de pessoas morreram em função dos maus-tratos e de doenças, incluindo algumas das mais importantes lideranças do Partido Comunista.
A Revolta dos Marinheiros também deu ao governo português o pretexto para iniciar um amplo expurgo nas Forças Armadas, expulsando e prendendo os militares identificados com a defesa dos princípios democráticos ou com as ideias socialistas.