Sexta-feira, 10 de julho de 2026
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Contam-se nos dedos de uma mão as organizações do terceiro setor aptas a rivalizar com a Fundação Ford em termos de influência e poder econômico. Sediada em Nova York, a entidade é uma das maiores fundações privadas do mundo, administrando um patrimônio de mais de 17 bilhões de dólares.

Sob o discurso institucional que exalta a “promoção da democracia”, a “defesa dos direitos humanos” e o “combate à desigualdade”, a Fundação Ford esconde um histórico conturbado de vínculos com a CIA e de cooperação com os interesses estratégicos do governo norte-americano, que inclui desde o apoio a golpes de Estado até o fomento a massacres e guerras civis.

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Ao lado da Fundação Rockefeller e do Instituo Carnegie, a Fundação Ford compõe a tríade das grandes organizações privadas tradicionalmente identificadas com a consolidação do imperialismo cultural norte-americano e com a difusão do pensamento liberal.

Henry Ford e o nazismo

A Fundação Ford foi criada em 1936 por Henry Ford, fundador da Ford Motor Company, e por seu filho, Edsel Ford. Primeiro empresário a aplicar a montagem em série na produção em massa de automóveis, Henry Ford revolucionou a indústria amealhou uma das maiores fortunas do mundo. Tornou-se um dos grandes ícones do capitalismo, incensado até os dias de hoje por ideólogos liberais e pelos profissionais do empreendedorismo de palco.

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Bem menos divulgadas pela imprensa são as ligações de Ford com a ideologia nazifascista. O empresário era um notório antissemita e foi o autor de “O Judeu Internacional”, uma série de quatro livros que serviria de inspiração para os nazistas arquitetarem o extermínio em massa de judeus durante o Holocausto.

Admirador de Adolf Hitler, Ford foi um dos grandes financiadores do Partido Nazista e ajudou a mobilizar o apoio da burguesia norte-americana ao Terceiro Reich. Ford foi responsável por fabricar um terço dos caminhões utilizados pelo exército nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Por sua vez, a subsidiária da Ford na Alemanha utilizava trabalho escravo de judeus, ciganos, soviéticos e outros povos aprisionados nos campos de Colônia.

Ao mesmo tempo em que fazia negócios com a Alemanha, Ford se recusava a vender insumos, motores e equipamentos para os Aliados antes e até durante a Segunda Guerra Mundial. A colaboração de Ford com regime nazista foi tão significativa que o empresário norte-americano foi condecorado por Hitler com a Ordem de Mérito da Águia Alemã.

Sede da Fundação Ford em Nova York.
Via Wikimedia Commons

Colaboração com a CIA

O fato de um empresário que utilizava mão de obra escrava e apoiava um regime genocida ter fundado uma das maiores organizações filantrópicas do mundo pode parecer estranho, mas o ingresso de Ford no universo da filantropia deve-se mais a uma manobra fiscal pragmática do que ao exercício do altruísmo.

Em 1936, no contexto do New Deal, Franklin Delano Roosevelt instituiu o “Revenue Act”, legislação que taxava em até 70% as grandes fortunas. Para contornar a legislação, Ford resolveu transferir 90% das ações de sua empresa para uma instituição “filantrópica”, criando a Fundação Ford para escapar da tributação. Assim, era a própria fundação filantrópica que tinha o status de mantenedora da corporação que a precedera.

A despeito de sua fachada filantrópica, a Fundação Ford logo se converteria em uma agência “oficiosa” do governo dos Estados Unidos, emprestando um verniz altruísta aos esforços para difundir a hegemonia global norte-americana ao redor do mundo.

A partir de 1947, como parte da chamada “Doutrina Truman” e do combate ao comunismo na Guerra Fria, a fundação tornou-se um braço da política externa de Washington, ajudando a operacionalizar as missões levadas a cabo pela recém-fundada Agência Central de Inteligência (CIA).

Na década de 1950, quase todo o conselho gestor da Fundação Ford era ocupado por burocratas e agentes dos serviços de inteligência dos Estados Unidos. Entre as mais importantes operações estratégicas que contaram com o apoio da Fundação Ford no período está o financiamento da milícia anticomunista alemã KgU e o apoio a operações de sabotagem e organizações antissoviéticas.

A atuação da fundação foi particularmente bem sucedida na estratégia de cooptação da academia e controle dos aparelhos ideológicos, ajudando a fomentar uma produção intelectual alinhada aos interesses dos Estados Unidos

A instituição investiu enormes somas no financiamento de universidades, acadêmicos, intelectuais, artistas e movimentos sociais, difundindo o pensamento liberal, a valorização das instituições burguesas e estimulando a criação de um progressismo antimarxista, avesso ao anticapitalismo e ao ideais revolucionários. Também estimulou o surgimento de uma elite intelectual americanófila, homogênea e bem integrada, disposta a defender os valores liberais e a naturalizar o domínio político norte-americano.

Ásia, África e América Latina

A Fundação Ford ajudou a executar algumas das mais sangrentas operações secretas levadas a cabo pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria.

Na Indonésia, a instituição ajudou a mobilizar amplos setores da sociedade contra o governo nacionalista e anti-imperialista de Sukarno, fomentando a desestabilização e o clima de agitação política que resultou no golpe de 1965 e nas subsequentes execuções em massa dos membros e simpatizantes do Partido Comunista, responsáveis por ceifar mais de um milhão de vidas.

Na Nigéria, a Fundação Ford financiou programas de cunho racialista e colonialista e auxiliou a CIA a articular a estratégia local do Projeto Camelot. A instituição também promoveu grupos separatistas e estimulou a cizânia entre os Hauçás e Ibos. O conflito atingiu o ápice durante a Guerra Civil da Nigéria, que deixou um saldo de dois milhões de mortos.

Alarmado pelo desfecho da Revolução Cubana, o governo norte-americano reforçou sua atuação na América Latina nos anos sessenta e a Fundação Ford iniciou a expansão na região. A instituição recebeu a incumbência de reverter o alinhamento tradicional dos intelectuais latino-americanos às ideologias de esquerda e ajudar a promover a ascensão de regimes alinhados aos ditames de Washington.

O escritório da Fundação Ford no Brasil foi inaugurado em 1961 e a instituição imediatamente somou esforços à campanha de desestabilização movida contra o governo de João Goulart, ao lado do IPES e do IBAD — think tanks conservadores financiados pela CIA que lideraram a conspiração antigovernista. Humberto Monteiro, gerente geral da Ford Motor, era também diretor da seção paulista do IPES e se destacou como um dos principais articuladores do golpe.

Após a deposição de Goulart em 1964, Peter Dexter Bell, um dirigente da Fundação Ford vinculado ao Pentágono, viajou ao Brasil para tratativas com a ditadura militar recém-instalada. Os militares garantiram à fundação o status de “organização de utilidade pública”, prerrogativa até então exclusiva de entidades nacionais.

A Ford destinou verbas para a Operação Bandeirante e para a criação do DOI-CODI, ajudando a financiar a tortura e o assassinato de opositores da ditadura militar. A fundação também se empenhou em fomentar atividades acadêmicas, financiando a criação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), que teria como expoente o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. O CEBRAP se destacaria como um dos principais promotores da tese de que a dependência dos países latino-americanos em relação aos Estados Unidos não era um empecilho ao crescimento econômico.

Nos anos 70, a Fundação Ford concentrou sua atuação no Chile, após o socialista Salvador Allende ser conduzido à presidência pelo voto popular. A instituição financiou acadêmicos, intelectuais e movimentos anticomunistas e ajudou a insuflar o golpe militar de 1973.

Já sob a ditadura de Augusto Pinochet, a fundação apoiou a transformação do Chile em um laboratório para aplicação de formulações teóricas ultraliberais — que incluíam até mesmo a privatização da previdência. A Fundação Ford foi uma das principais responsáveis por financiar os acadêmicos que consolidaram a hegemonia da tradição econômica liberal no continente, que se prolongaria mesmo após a redemocratização e segue majoritária até os dias de hoje.

O “progressismo domesticado”

Ao longo dos anos 80, a Fundação Ford também colaborou com as revoluções coloridas e operações de desestabilização conduzidas contra os governos socialistas do Leste Europeu, ajudando a custear de movimentos pseudo-progressistas que reivindicavam “liberdades individuais” e “abertura política”.

No período pós-Guerra Fria, a fundação seguiu estimulando a adesão internacional às ideias derivadas da “teoria da paz democrática”, que preconizavam que a adoção do ideário neoliberal e o fortalecimento da instituições burguesas eram as únicas maneiras de garantir a paz e a estabilidade da ordem mundial. Na prática, a teoria servia para justificar a hegemonia e o intervencionismo dos Estados Unidos, em uma tentativa de consolidar um sistema internacional unipolar.

Nas últimas décadas, a Fundação Ford buscou repaginar a composição de seu conselho gestor, diminuindo a presença de burocratas e militares e ampliando a participação de empresários, representantes de corporações, fundos de investimentos, conglomerados de mídia e think tanks.

A fundação mantém seus vínculos estreitos com o setor de inteligência e segue exercendo sua função original de promover o imperialismo cultural e a hegemonia norte-americana, embora cada vez mais dissimulando sua atuação sob um verniz progressista, apoiando grupos cujas causas coincidam com os interesses políticos e econômicos do império — quer seja apropriação de recursos, a busca de novos mercados ou a troca de governo não alinhados.

No Brasil, a Fundação Ford financiou dezenas de instituições e projetos, incluindo ONGs, think tanks (nomeadamente a FGV), universidades, movimentos sociais, organizações sindicais e até órgãos públicos. Os principais destinatários sãos organizações do terceiro setor, tais como a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) e ONGs ambientais e de direitos humanos.

A Fundação Ford ajudou a criar o Fundo Brasil de Direitos Humanos, que, por sua vez, financiou os comitês que organizaram os protestos contra a Copa do Mundo de 2014. A instituição também doou recursos a entidades ligadas à justiça brasileira, incluindo a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), principal entidade de classe dos juízes no Brasil.

Sugestão de imagem:

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/4f/Ford_Foundation_Building_1.jpg/960px-Ford_Foundation_Building_1.jpg

Link: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ford_Foundation_Building_1.jpg

Legenda: Sede da Fundação Ford em Nova York. Via Wikimedia Commons