Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
APOIE
Menu

Há 111 anos, em 5 de dezembro de 1914, nascia Lina Bo Bardi, ícone da arquitetura moderna no Brasil.

Originária da Itália, Lina integrou os movimentos de vanguarda de Milão, colaborando com Carlo Pagani e Gio Ponti. Testemunhou a ascensão do regime fascista de Benito Mussolini e os horrores da Segunda Guerra Mundial, tornando-se apoiadora da Resistência Italiana e do Partido Comunista.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Informação pronta para compartilhar
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize em Opera Mundi

Já casada com o marchand Pietro Maria Bardi, Lina se mudou para o Brasil, onde permaneceu pelo resto da vida. Consagrou-se como uma das maiores representantes do modernismo brasileiro, produzindo obras inspiradas pela estética brutalista, com destaque para a sede do MASP, um dos símbolos mais reconhecidos da cidade de São Paulo.

Carreira na Itália

Achilina di Enrico Bo nasceu em Prati di Castello, na cidade de Roma, filha primogênita de Giovanna Adriana Grazia e do engenheiro Enrico Bo. Estimulada pelo pai, desenvolveu seu interesse pela arte desde cedo, dedicando-se a produzir desenhos e pinturas.

Mais lidas

Na juventude, Lina frequentou o Liceu Artístico. Ela foi uma das primeiras mulheres a ingressar na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Roma — a célebre “La Sapienza”, uma das mais antigas e consagradas instituições de ensino superior da Itália. Graduou-se como arquiteta em 1939, elaborando um ousado projeto para centro de apoio à maternidade e à infância, inspirado em um trabalho de Luigi Piccinato.

Em 1940, Lina se mudou para Milão, onde abriu um escritório em parceria com o arquiteto Carlo Pagani. Colaborou também no estúdio de Gio Ponti, um dos maiores expoentes do design e da arquitetura moderna italiana. Produziu artigos, projetos e ilustrações para diversos periódicos especializados e chegou a se tornar codiretora da revista “Domus”. Foi também fundadora da revista “A – Cultura della Vita”, um periódico que tinha como foco os debates sobre a reconstrução da Itália no pós-guerra.

Em suas memórias, Lina deixou diversos registros a respeito de sua experiência na Segunda Guerra Mundial. Em agosto de 1943, ela perdeu seu escritório em Milão, destruído durante um bombardeio, e foi pressionada pelos ocupantes alemães a suspender a circulação da revista Domus.

Esses fatos teriam contribuído para sua adesão à resistência antifascista. Nas palavras de Lina: “Sentia que o mundo podia ser salvo, mudado para melhor, que esta era a única tarefa digna de ser vivida, o ponto de partida para sobreviver. Entrei para a Resistência, com o Partido Comunista. Só via o mundo em volta de mim como realidade imediata, e não como exercitação literária abstrata.”

A contribuição efetiva de Lina ao Comitê de Libertação Nacional seria questionada pelo arquiteto Carlo Pagani, que, entretanto, reconheceu a importância da decisão da arquiteta de manter a revista “Domus” em circulação, a despeito das restrições impostas pelos alemães.

A desobediência custou a Lina a perseguição da Gestapo, que apreendeu exemplares da revista contendo um artigo em que Lina ironizava um projeto arquitetônico de cidades subterrâneas elaborado pelo governo nazista.

Vinda para o Brasil

Em junho de 1944, após a libertação de Roma, Lina conheceu o jornalista, marchand e historiador de arte Pietro Maria Bardi. Eles iniciaram um relacionamento amoroso e se casaram dois anos depois, em 1946.

Nesse mesmo ano, o casal veio para o Brasil. Pietro fora convidado pelo magnata da imprensa Assis Chateaubriand para ajudá-lo a fundar e dirigir o Museu de Arte de São Paulo (MASP). Tratava-se de um projeto ousado: constituir do zero um acervo artístico que contemplasse os maiores nomes da arte universal.

O momento era propício para a empreitada. Com a Europa devastada pela Segunda Guerra, muitos colecionadores colocaram seus acervos à venda. O aumento da oferta tornou o mercado mais acessível. Chateaubriand aproveitou a oportunidade para pressionar os industriais e banqueiros de São Paulo a ajudá-lo a comprar telas de Picasso, Van Gogh, Renoir, Monet e muitos outros.

Lina e Pietro planejavam ficar apenas um ano à frente do projeto, mas se encantaram com o Brasil. Vislumbrando as possibilidades em uma nova nação e desestimulados a voltar para uma Itália arrasada pela guerra, eles decidiram fixar residência, fazendo do Brasil a sua morada pelo resto da vida.

A classe artística progressista, no entanto, enxergaria a arquiteta com reserva e desconfiança, tanto por seus vínculos com Chateaubriand quanto pelo relacionamento com Pietro Maria Bardi — que em sua juventude fora filiado ao Partido Fascista.

O primeiro projeto desenvolvido por Lina no Brasil foi a adaptação da sede do MASP, que então funcionava em um edifício no centro de São Paulo. Ela também fundou o Estúdio de Arte Palma, dedicado ao desenho de mobiliário moderno, e a revista “Habitat”, um dos principais veículos voltados à difusão da arquitetura e do design funcionalista no país.

No início dos anos 50, Lina criou seu primeiro marco arquitetônico: a Casa de Vidro, a residência onde ela vivia com Pietro em São Paulo. Essa seria também uma das únicas três residências projetadas por Lina que saíram do papel. Em uma ocasião, ela confidenciou: “Tenho horror em projetar casas para madames, onde entra aquela conversa insípida em torno da discussão de como vai ser a piscina, as cortinas”.

Criticar a mentalidade burguesa enquanto coabitava pacificamente os ambientes da alta sociedade paulistana era um contraste típico de Lina. Nas vernissages do MASP, frequentadas por socialites com casacos de pele e artistas ligados aos movimentos contestadores, ela costumava chocar a todos, dizendo-se ao mesmo tempo stalinista e antifeminista.

A arquiteta defendia com convicção o entendimento de que Josef Stalin fora o principal responsável por libertar a Europa do horror nazifascista, mas, ao mesmo tempo, enxergava o movimento feminista como uma frivolidade pequeno-burguesa.

As críticas de Lina ao feminismo, contudo, eclipsaram diante de suas próprias contribuições. Ela, afinal, ajudou a inserir mulheres em uma área quase exclusivamente dominada por homens. Destacou-se também a primeira mulher brasileira a ser laureada com o Leão de Ouro, láurea concedida pela Bienal de Veneza.

Lina Bo Bardi
Wikimedia Commons

O MASP

Lina Bo Bardi foi convidada a projetar a nova sede do MASP, em um terreno da Avenida Paulista que fora doado à prefeitura pelo urbanista Joaquim Eugênio de Lima no começo do século 20. O doador teria condicionado a cessão do terreno à manutenção da vista para o centro da cidade, descortinada pelo mirante sobre a Avenida Nove de Julho.

Assim, qualquer construção no terreno teria de ser suspensa ou subterrânea. Lina optou pela junção das duas possibilidades, concebendo um pavilhão elevado, suspenso a oito metros do chão por quatro enormes colunas, e um edifício semienterrado com três pavimentos.

Entre os dois blocos, estendia-se um vão livre de 74 metros, à época o maior do mundo. O projeto era tão arrojado que necessitou da aplicação de uma nova patente de concreto protendido, desenvolvida pelo engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz.

Lina enxergava o projeto como uma missão, parte de um legado que ela desejava deixar para a sociedade brasileira. A arquiteta pretendia que o MASP fosse um novo modelo de museu, não mais como “um túmulo para múmias ilustres” ou um “depósito de obras humanas”, e sim como um centro cultural dinâmico e multidisciplinar, oferecendo exposições, projeção de vídeos e filmes, peças de teatro, espetáculos de música e de dança, ateliê, oficinas, biblioteca, etc.

O MASP deveria ser um espaço condigno, à altura de seu rico acervo, mas não deveria estar subordinado à autoafirmação ou expressão do poder financeiro da elite paulistana, e sim a um projeto de educação artística para as massas, de permitir ao povo conhecer os grandes mestres da arte.

No projeto arquitetônico do MASP, Lina tentou elevar a expressão da “arquitetura pobre” — sua interpretação pessoal do estilo brutalista — ao ápice. A arquiteta buscou se desfazer do caráter intimidador das construções palacianas e do esnobismo cultural, buscando aliar funcionalidade à estética popular, evocando um sentido de coletividade.

O museu foi concebido como uma construção aberta aos transeuntes, sem cercas, portões, muros ou barreiras separando-a da cidade. É um convite para aproximar os cidadãos do universo da arte. A simplicidade também é aparente no acabamento, do concreto aparente à borracha industrial de chão de fábrica.

Lina também inovou nos cavaletes de vidro que criou como suportes para as pinturas, eliminando as paredes e as divisórias internas. Ao invés de trazerem a identificação do autor junto à tela, os suportes têm as etiquetas na parte posterior da obra. O objetivo é estimular o visitante a apreciar a obra pelo seu próprio valor artístico e estético, não vinculando a apreciação ao fato de o autor ser mais ou menos famoso.

A tentativa de Lina de abolir o ambiente elitizado dos museus em favor de uma concepção estética mais popular enfrentou críticas de parte da imprensa. O MASP, entretanto, caiu rapidamente no gosto popular, não apenas integrando-se de forma plena à paisagem paulistana, mas tornando-se um dos ícones mais conhecidos da cidade.

Outros projetos e contribuições

Entre as décadas de 1960 e 1970, Lina se vinculou a diversos movimentos culturais de oposição à ditadura e apoiou as expressões contestadoras da produção artística brasileira.

Ela colaborou, por exemplo, com o Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa, para o qual projetou a cenografia da peça “Na Selva das Cidades”, de Bertolt Brecht, em que aparecia o primeiro nu frontal feminino do teatro brasileiro. Também projetou os cenários da peça “Gracias Señor”, sediada no Teatro Oficina em 1972.

Lina chegou a se tornar alvo de um inquérito aberto pelos militares após emprestar sua casa para sediar uma reunião da Ação Libertadora Nacional (ALN) — um dos mais combativos movimentos da luta armada contra a ditadura. Diversos guerrilheiros procurados pelo regime estiveram presentes na reunião, incluindo Carlos Marighella.

As autoridades policiais chegaram a requisitar a prisão preventiva de Lina, acusando-a de manter ligações com “grupos terroristas”. A arquiteta teve de se exilar na Itália por alguns meses, mas acabou sendo liberada após voltar ao Brasil.

Lina também residiu por alguns anos em Salvador. Ela dirigiu o Museu de Arte Moderna da Bahia e coordenou os projetos de restauração do Solar do Unhão, da Casa do Benin e do Teatro Castro Alves, todos localizados na capital baiana.

Em conjunto com os arquitetos Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki, Lina elaborou o projeto de restauração do centro histórico de Salvador, tombado como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

De volta a São Paulo, Lina projetou o SESC Pompeia, retomando várias das concepções estéticas e a inspiração popular do projeto do MASP. Também elaborou a reforma do Teatro Oficina no começo da década de 1990.

Lina Bo Bardi manteve intensa atividade cultural até o fim da vida. Em 1990, ela converteu sua residência, a Casa de Vidro, em uma instituição cultural aberta ao público. Faleceu em 20 de março de 1992, aos 77 anos, deixando inacabado o projeto de reforma do Palácio das Indústrias, antiga sede da prefeitura de São Paulo.