A história de Brenda Lee: anjo da guarda das travestis
Ativista ganhou centralidade histórica ao acolher as primeiras pessoas diagnosticadas com HIV em São Paulo
29 de janeiro é o Dia Nacional da Visibilidade Trans. A data é dedicada a promover a conscientização sobre a cidadania e os direitos das pessoas trans, travestis e não-binárias. Aproveitamos a ocasião para recordar o trabalho de Brenda Lee, uma das lideranças mais ativas na luta pelos direitos das comunidades trans.
Conhecida pelo epíteto de “anjo da guarda das travestis”, Brenda Lee se notabilizou por ajudar pessoas que foram expulsas de suas casas ou forçadas à prostituição. Nos anos 80, ela criou uma das mais importantes experiências de enfrentamento à epidemia de HIV no Brasil e transformou sua própria casa em São Paulo em um espaço de acolhimento para travestis, transexuais e pessoas marginalizadas.
Brenda Lee permaneceu à frente do projeto até 1996, quando foi assassinada. Seu legado foi perenizado através da Casa de Apoio Brenda Lee, a primeira ONG voltada ao acolhimento de pessoas vivendo com HIV na América Latina. Ela também foi articuladora das primeiras políticas governamentais relacionadas ao HIV no Brasil.
Quem foi Brenda Lee
Como ocorre com grande parte das pessoas trans e travestis brasileiras, as pesquisas históricas acerca da biografia de Brenda Lee são relativamente escassas — um silêncio que ainda ecoa a percepção introjetada de que as personagens da comunidade trans são indignas do registro na memória oficial.
Brenda Lee nasceu em 10 de janeiro de 1948, no município de Bodocó, no sertão de Pernambuco. Sua infância transcorreu em um contexto marcado pela miséria, pela escassez de políticas públicas e por uma organização social profundamente hierarquizada por gênero.
Desde muito cedo, Brenda demonstrava expressões de gênero dissidentes, o que a colocou em rota de conflito com normas sociais rígidas e o conservadorismo da sociedade. Vivenciando constantes desentendimentos com sua família, ela foi mais uma entre tantas pessoas forçadas a deixar o próprio lar.
Ainda adolescente, por volta dos 14 anos, Brenda Lee migrou para São Paulo, seguindo um fluxo histórico de deslocamento forçado de populações empobrecidas para o Sudeste, em busca de uma vida melhor. Mas a cidade, longe de conceder oportunidades de inclusão, apresentou-se como espaço de precarização extrema.
Como a maioria das travestis de sua geração, Brenda encontrou no trabalho sexual uma possibilidade imposta de sobrevivência. Um percurso que deriva diretamente da transfobia institucional, da exclusão sistemática do mercado formal de trabalho e da negação de direitos básicos.
Nos anos 1970 e 1980, em meio à ditadura militar, as forças policiais eram empregadas, dentre suas muitas funções oficiosas, como um “braço moralizador” do Estado. Assim, a repressão policial contra a presença de travestis nas ruas era brutal. Profissionais do sexo eram constantemente submetidas a prisões arbitrárias, extorsões, agressões físicas e humilhações públicas.
Desde esse período, Brenda se destacou pela capacidade de articular redes de solidariedade. Ela dividia moradia, recursos financeiros e estratégias de proteção com outras travestis recém-chegadas à cidade, oferecendo abrigo, informação e apoio em um ambiente profundamente hostil. Essas práticas coletivas de cuidado antecedem sua atuação formal como ativista e revelam que sua política nasceu da experiência concreta da sobrevivência compartilhada.

: Brenda Lee. Trecho de documentário da TV Brasil
Via Portal RCIA
A epidemia de HIV
Foi no Bixiga, um bairro na região central de São Paulo, historicamente povoado por operários, imigrantes e trabalhadores marginalizados, que Brenda passou a ser reconhecida como liderança comunitária informal. Ali, a rua não era apenas espaço de risco, mas também de sociabilidade, troca e construção de pertencimento.
A partir do início dos anos 1980, a epidemia de HIV escancarou a face mais brutal da exclusão social no Brasil. Pessoas vivendo com HIV, especialmente travestis e homossexuais em situação de vulnerabilidade, foram alvo de pânico moral, violência e abandono. Hospitais recusavam atendimento, famílias expulsavam parentes e o Estado demorou a formular respostas eficazes.
A epidemia de HIV/AIDS não foi apenas uma crise sanitária, mas também uma crise social. No Brasil, como em outros países, a doença foi rapidamente associada aos que eram considerados “socialmente indesejados”: homossexuais, travestis, profissionais do sexo, usuários de drogas.
Essa associação evoluiu para um estigma violento que justificava o abandono de uma parte da sociedade. Pessoas trans e travestis eram relegadas à condição de subcidadãs, tratadas como vidas menos dignas de proteção e cuidado.
Foi nesse cenário desafiador que a atuação de Brenda Lee ganhou centralidade histórica. Em 1984, ela acolheu em sua casa uma das primeiras pessoas diagnosticadas com HIV em São Paulo. Esse gesto, aparentemente simples, tinha enorme potência política: cuidar quando a ordem social escolhia deixar morrer.
A partir daí, sua residência passou a funcionar como espaço de acolhimento, recebendo travestis e outras pessoas vivendo com HIV e pessoas expulsas de residências, pensões, lares e até de hospitais.
Brenda Lee atuou exatamente nesse ponto de fratura. Seu trabalho revela que muitas mortes atribuídas ao HIV/AIDS foram, antes de tudo, mortes produzidas pela recusa institucional ao cuidado. Ao acolher pessoas vivendo com HIV quando o Estado se omitia, Brenda escancarou a dimensão política da epidemia. O que estava em jogo não era apenas a ausência de medicamentos, mas a negação do direito básico à existência.
Sua atuação antecede e pressiona, ainda que de forma indireta, a construção de uma resposta pública mais ampla à epidemia, que viria a se consolidar anos depois com a ampliação do acesso ao tratamento pelo sistema público de saúde.
A Casa de Apoio
A atuação social de Brenda evoluiu para um novo patamar em 1986, com a criação da Casa de Apoio Brenda Lee, posteriormente conhecida como Palácio das Princesas. Localizada no Bixiga, a casa se tornou uma das primeiras iniciativas da América Latina voltadas ao acolhimento de pessoas vivendo com HIV/AIDS, com atenção especial a travestis e mulheres trans, um grupo historicamente excluído das políticas públicas de saúde.
A Casa oferecia abrigo, alimentação, acompanhamento em serviços de saúde e, sobretudo, dignidade. Em um contexto de medo e estigmatização, Brenda construiu um espaço onde a vida era reafirmada cotidianamente. Um local onde o cuidado não se apresentava como gesto caritativo, mas como prática política concreta, organizada a partir da experiência comunitária.
Em 1988, a Casa de Apoio firmou convênio com a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, marcando um reconhecimento institucional tardio do trabalho desenvolvido por Brenda. Ainda assim, a relação com o poder público foi atravessada por precariedade, falta de recursos e vigilância constante. A experiência de Brenda evidencia como o Estado brasileiro historicamente terceirizou o cuidado de populações marginalizadas para iniciativas individuais e comunitárias.
Para as pessoas que buscavam abrigo, a Casa de Apoio significava um lar, habitado por uma “família escolhida”. Uma experiência que desafia as concepções normativas de família e evidencia como as formas alternativas de organização social emergem da exclusão. A Casa era um espaço reservado à convivência, afeto e reconstrução de laços e vínculos. Não por acaso, Brenda era chamada de mãe por muitas das travestis que acolhia.
Assassinato e legado
Brenda Lee foi assassinada em São Paulo, em 28 de maio de 1996, aos 48 anos. Ela foi alvejada com dois tiros. Seu corpo foi deixado em uma kombi, abandonada em um terreno baldio. A missa de corpo presente foi ministrada pelo padre Júlio Lancellotti.
O crime estava relacionado a um esquema de desvio de recursos da Casa de Apoio. Brenda havia descoberto que seu funcionário, o motorista Gilmar Dantas Felismino, havia falsificado um cheque da instituição. Irritado após ser confrontado, o motorista decidiu matá-la com ajuda do irmão, o policial militar José Rogério de Araújo Felismino. Ambos foram presos em junho de 1996.
O assassinato de Brenda interrompeu brutalmente uma trajetória dedicada à preservação da vida. Ao mesmo tempo, evidenciou o risco permanente enfrentado por pessoas trans que ocupam posições de organização e gestão, rompendo com o lugar social da marginalidade silenciosa.
O legado de Brenda Lee, no entanto, persiste. A Casa de Apoio continuou funcionando após sua morte, tornando-se uma referência para associações congêneres e políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+. Em 2008, foi criado o Prêmio Brenda Lee, concedido a iniciativas de enfrentamento ao HIV/AIDS com enfoque em direitos humanos.
Brenda Lee ocupa um lugar fundamental na memória das lutas LGBTQIA+ e da saúde pública no Brasil. Sua trajetória demonstra que políticas de cuidado não nasceram apenas nos gabinetes, mas foram arrancadas pela prática cotidiana de sujeitos historicamente excluídos.
Manter viva sua memória é também um gesto político e uma contribuição para reafirmar o papel histórico de travestis e mulheres trans como agentes centrais da transformação da realidade.
























