Há 82 anos, em 9 de setembro de 1944, combatentes da Frente da Pátria apoiados pelo Exército Vermelho derrubavam o governo de Konstantin Muraviev, encerrando a aliança da Bulgária com a Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
Composta por comunistas, social-democratas e militantes do movimento nacionalista Zveno, a Frente da Pátria mobilizou mais de 20.000 partisans na luta contra o nazifascismo. Após o triunfo da Revolução Socialista de 9 de Setembro, os guerrilheiros búlgaros aboliram a monarquia e instauraram um governo socialista que se prolongou por 46 anos e conduziu profundas reformas econômicas, políticas e sociais.
Submetida ao domínio do Império Otomano desde o fim do século 14, a Bulgária somente conquistou sua independência plena em 1908, quando o príncipe Fernando I, aproveitando-se da crise política engendrada pela Revolução dos Jovens Turcos, transformou o país em um czarado sob domínio da Casa de Saxe-Coburgo-Gota.
Fernando I abdicou do trono em 1918, sendo sucedido por seu filho, Boris III. O novo rei ascendeu ao poder em um contexto político bastante atribulado. A Bulgária, que já havia perdido a Segunda Guerra dos Bálcãs, também saiu derrotada na Primeira Guerra Mundial. O país sofreu importantes perdas territoriais, sendo forçado a ceder a Trácia Ocidental à Grécia, as Terras Ocidentais ao Reino dos Sérvios e a Dobruja do Sul à Romênia. O exército foi desmontado e as pesadas indenizações sobrecarregaram uma economia que há anos já estava arruinada.
As perdas e as punições frustraram o sonho da unificação nacional e alimentaram um ressentimento profundo entre os búlgaros, que enxergavam os termos do armistício como uma humilhação imposta pelos vencedores. Em 1923, o primeiro-ministro Aleksandar Stamboliysky, vinculado às ideias de esquerda, foi derrubado e assassinado por um golpe. Formou-se um novo gabinete sob o comando de Aleksandar Tsankov, figura ligada à extrema-direita e simpatizante das ideias fascistas.
O longo ciclo de instabilidade, violência e perseguição política, as sucessivas crises econômicas e o revanchismo em relação às perdas territoriais explicam em grande parte a aproximação da Bulgária com o governo da Alemanha nazista ao longo da década de 1930.
Após o início da Segunda Guerra Mundial, sob pressão diplomática e em busca de reaver os territórios perdidos, o governo da Bulgária aderiu ao Pacto Tripartite em março de 1941, estabelecendo uma aliança formal com as nações do Eixo. A Bulgária permitiu a utilização de seu território pelas forças alemãs nas campanhas contra a Iugoslávia e a Grécia. Em retribuição, o regime nazista permitiu que tropas búlgaras reocupassem parte dos antigos territórios que haviam sido cedidos.

O governo búlgaro se tornaria cada vez mais autoritário e repressivo, perseguindo violentamente comunistas e dissidentes, deportando os judeus das regiões ocupadas da Macedônia e da Trácia, realizando prisões em massa e execuções por enforcamento de apoiadores e simpatizantes das forças antifascistas. A despeito das pressões de Berlim, a Bulgária se recusou a declarar guerra à União Soviética, embora buscasse manter distância de Moscou.
A partir de 1941, reagindo à crescente repressão do governo pró-Eixo, iniciou-se a formação de um movimento de resistência civil. O Partido dos Trabalhadores da Bulgária, já incorporando o Partido Comunista e liderado do exílio por Georgi Dimitrov, secretário-geral da Internacional Comunista, teve papel central na organização da resistência.
A agremiação articulou ampla rede de combatentes, abrangendo vários destacamentos de partisans sediados nas montanhas. Mais de 20.000 civis búlgaros lutaram na resistência, passando a empreender ações de guerrilha, sabotagem, contrainteligência e enfrentamento aberto contra o governo e os ocupantes alemães.
Em 1942, sob orientação da Internacional Comunista, as diferentes correntes antifascistas búlgaras se uniram para criar a Frente da Pátria, uma ampla coalizão que reunia comunistas, dissidentes de esquerda da União Agrária Nacional Búlgara, social-democratas e membros do movimento nacionalista Zveno, um grupo de oficiais militares reformistas de tendência republicana que havia liderado levantes contra o governo em 1923 e 1934.
A morte súbita e misteriosa do czar Boris III em agosto de 1943, possivelmente envenenado após um encontro tenso com Adolf Hitler, deixou a Bulgária sob a regência do príncipe Cirilo. Durante o encontro, o líder nazista havia tentado, sem sucesso, persuadir o monarca búlgaro a apoiá-lo na abertura de uma nova frente de combate contra os soviéticos.
A situação da Alemanha começava a se deteriorar rapidamente. A derrota dos nazistas em Stalingrado, o avanço avassalador do Exército Vermelho na Frente Oriental e o desembarque aliado na Itália já sinalizavam a derrota da Alemanha no horizonte. Na Bulgária, o avanço dos Aliados galvanizava a resistência, enquanto crescia a insatisfação popular com o governo.
Em agosto de 1944, com o Exército Vermelho avançando pelos Bálcãs e a capitulação da Romênia, a posição da Bulgária se tornou insustentável. Completamente isolado, o governo do primeiro-ministro Ivan Bagryanov tentou estabelecer uma “política de neutralidade”, rompendo formalmente com Berlim — um gesto tardio e insuficiente que não conseguiria evitar o colapso.
Em 2 de setembro de 1944, Bagryanov foi substituído pelo premiê Konstantin Muraviev, que tentou negociar às pressas um armistício com os Aliados e até declarou guerra à Alemanha nazista. Moscou, no entanto, não confiava no governo búlgaro.
Em 5 de setembro de 1944, a União Soviética declarou guerra à Bulgária. Três dias depois, na manhã de 8 de setembro, a 3.ª Frente Ucraniana do marechal Fiódor Tolbukhin, mobilizando cerca de 260 mil homens, cruzou o Rio Danúbio e avançou rumo a Varna e Burgas.
Em paralelo ao avanço dos soviéticos, os partisans búlgaros iniciaram uma rebelião generalizada contra o governo do país, organizando manifestações, greves e insurreições armadas. Na noite de 8 para 9 de setembro de 1944, unidades militares favoráveis à Frente da Pátria ocuparam pontos estratégicos na capital, Sófia.
Em poucas horas, o Ministério da Guerra, o Ministério do Interior, os correios, a estação de rádio, a central telefônica e outros pontos estratégicos passaram ao controle dos insurgentes. O governo de Muraviev foi derrubado e seus integrantes foram presos.
Em Sófia, a transição política ocorreu praticamente sem resistência, embora alguns confrontos tenham irrompido no interior do país nas semanas seguintes. Ainda no dia 9 de setembro, anunciou-se a formação de um novo governo de coalizão chefiado por Kimon Georgiev, dirigente histórico do grupo Zveno. A Bulgária juntou-se imediatamente à frente antifascista, somando forças com a União Soviética e com os Aliados ocidentais na luta contra as tropas de Hitler.
O Partido dos Trabalhadores da Bulgária (posteriormente renomeado como Partido Comunista Búlgaro) rapidamente se impôs como força dominante, utilizando o controle dos ministérios estratégicos e das milícias populares para isolar os grupos adversários. O retorno de Georgi Dimitrov à Bulgária, em novembro de 1945, após mais de duas décadas de exílio, simbolizou a consolidação da liderança comunista.
Um referendo realizado em 8 de setembro de 1946 resultou em esmagadora aprovação popular pela abolição da monarquia. A família real foi exilada e a República Popular da Bulgária foi proclamada uma semana depois, em 15 de setembro de 1946. Georgi Dimitrov foi nomeado primeiro-ministro. Uma nova Constituição inspirada no modelo soviético seria promulgada em dezembro de 1947.
Nos anos seguintes, o novo governo iniciou as reformas políticas, econômicas e sociais, instituindo a redistribuição de terras, nacionalizando os setores estratégicos da economia, estabelecendo o controle estatal sobre o comércio e a indústria. Os direitos trabalhistas foram expandidos, o sistema de saúde foi universalizado e uma série de investimentos foram direcionados às campanhas de alfabetização em massa e à expansão das escolas, universidades e serviços públicos.