A traição aos fuzileiros africanos: 81 anos do Massacre de Thiaroye
Recrutados para lutar na Segunda Guerra Mundial, soldados oriundos das colônias francesas na África foram assassinados por militares da França durante chacina
Há 81 anos, em 1º de dezembro de 1944, centenas de soldados africanos que participaram da luta contra o nazifascismo eram assassinados por militares franceses no Massacre de Thiaroye.
As vítimas pertenciam às unidades dos “Tirailleurs”, compostas por soldados oriundos das colônias francesas na África. Eles foram recrutados para lutar contra a ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
Após a libertação da França, os fuzileiros africanos protestaram exigindo o pagamento dos soldos atrasados. As autoridades coloniais francesas responderam enviando tropas para fuzilá-los. Estima-se que até 400 pessoas morreram no massacre.
Os “Tirailleurs”
O avanço colonial francês sobre os territórios africanos foi uma das expressões mais brutais do imperialismo europeu no século 19. Afirmando-se portadora de uma “missão civilizatória” que pretendia “levar o progresso” aos “povos atrasados”, a França chegou a dominar um terço do continente africano, criando o segundo maior império colonial do mundo.
O processo de conquista foi marcado pela desarticulação das sociedades nativas, submetidas a uma sequência interminável de atrocidades e a um sistema administrativo baseado em princípios supremacistas e na segregação racial. Além das matérias-primas, as colônias africanas serviam como uma fonte inesgotável de mão de obra — incluindo o fornecimento de soldados para as tropas regulares francesas.
Em 1857, foram criados os “Tirailleurs Sénégalais” (“Fuzileiros Senegaleses”), corpos de infantaria que congregavam nativos oriundos de várias regiões da África Ocidental Francesa — os atuais territórios de Senegal, Guiné, Mali, Mauritânia, Costa do Marfim, Níger, Burquina Fasso e Benim.
Muitos dos tirailleurs eram recrutados à força, com base nos dispositivos de alistamento compulsório impostos pelo governo francês. Outros se ofereciam ao recrutamento voluntário para tentar escapar da miséria, uma vez que as oportunidades de emprego e ascensão social eram bastante limitadas nas colônias.
Além de atuarem nas campanhas de expansão colonial no continente africano, os tirailleurs tiveram papel crucial em quase todos os grandes conflitos travados pela França entre a segunda metade do século 19 e a primeira metade do século 20, incluindo a Guerra Franco-Prussiana e Primeira Guerra Mundial.
A despeito de sua importância para a máquina militar francesa, os soldados africanos sofriam enorme discriminação. Eles recebiam soldos bem inferiores aos dos combatentes brancos. Raramente conseguiam ascender além do posto de sargento e eram submetidos a um tratamento muito severo, com castigos físicos e humilhações constantes.
A Segunda Guerra
Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, as divisões de tirailleurs estacionadas na Argélia estiveram entre as primeiras unidades militares enviadas para o combate na linha de frente. Mais de 200.000 soldados oriundos das colônias francesas na África participaram da luta contra os regimes nazifascistas — representando quase um décimo do contingente total de militares da França.
Os fuzileiros africanos se destacaram sobretudo pelos combates encarniçados travados nas regiões da França central, como as batalhas de Gien, Bourges e Buzançais. Não obstante, a resposta francesa à invasão nazista foi lenta e descoordenada e o sistema defensivo nacional colapsou diante do emprego da estratégia da “blitzkrieg” (“Guerra relâmpago”). Após seis semanas de combate, a França foi derrotada e forçada a assinar o Armistício de Compiègne.
Milhares de combatentes negros rendidos foram assassinados pelos alemães durante a Batalha da França. Massacres como os de Chasselay, Airaines e Bois d’Eraine deixaram centenas de mortos. A cada nova cidade que era tomada, os nazistas fuzilavam os tirailleurs. Estima-se que até 1.500 prisioneiros africanos foram mortos nos massacres de junho de 1940.
Cerca de 120.000 soldados africanos foram capturados pelos alemães após a capitulação da França. Esses combatentes receberam um tratamento bastante distinto do que foi aplicado aos prisioneiros de guerra franceses. Enquanto os militares brancos foram realocados para campos de prisioneiros na Alemanha, os tirailleurs foram encarcerados em campos de concentração montados no próprio território francês, sob o pretexto de evitar o que os nazistas chamavam de “contaminação racial”.
As condições de vida nesses locais eram muito precárias. Os militares africanos viviam em habitações superlotadas e insalubres e enfrentavam jornadas extenuantes de trabalho forçado. A comida e a água eram escassas e as taxas de letalidade eram muito elevadas, tanto em função das epidemias quanto pela violência dos oficiais nazistas.
A libertação dos tirailleurs foi, em grande parte, uma façanha de seus compatriotas. Como a França estava sob ocupação militar, o governo francês no exílio teve de buscar mais soldados nas colônias africanas para prosseguir lutando contra os nazistas. Os soldados africanos chegaram a compor cerca de 65% do contingente das Forças Francesas Livres.
Embora essenciais para a expulsão dos nazistas, os soldados africanos não receberam nenhum tipo de reconhecimento dos Aliados. Ao contrário: quando Paris foi libertada em agosto de 1944, Charles de Gaulle ordenou que os soldados negros não participassem dos desfiles de celebração. Aos olhos do mundo, a libertação da capital francesa deveria parecer uma façanha dos povos europeus.

Tirailleurs capturados durante a Batalha da França
Wikimedia Commons
O retorno dos fuzileiros
Com a progressiva libertação da França em 1944, os ex-prisioneiros africanos começaram a ser reagrupados para repatriamento. Os tirailleurs, no entanto, exigiam que as autoridades francesas garantissem o pagamento dos soldos que estavam atrasados. Reivindicavam também o direito a receber seus trajes de desmobilização e suas indenizações por tempo de cativeiro, como era previsto na legislação.
Após muita pressão, o governo francês realizou um pagamento parcial de 1.500 francos para os soldados, mas não informou as datas previstas para disponibilizar os valores restantes. Houve também desentendimentos relativos à conversão das poupanças e ao câmbio utilizado na troca do franco metropolitano para o franco CFA, que resultaria em prejuízos significativos para os soldados.
Os repatriamentos tiveram início em 3 de novembro de 1944, quando 1.635 soldados africanos embarcaram no navio Circassia a caminho do Senegal. Um grupo de 315 tirailleurs se recusou a retornar enquanto não recebesse os pagamentos atrasados. Eles foram violentamente reprimidos pelos militares franceses e encarcerados no campo de Trévé.
O navio Circassia aportou em Dakar em 21 de novembro de 1944. Os soldados foram então encaminhados para a base militar de Thiaroye, que seria utilizada como campo de trânsito. Os fuzileiros receberam novamente a promessa de regularização das pendências, mas os pagamentos não foram feitos.
O massacre
No dia 25 de novembro de 1944, os oficiais franceses ordenaram a transferência dos combatentes oriundos do Mali para Bamako. Os soldados, no entanto, se recusaram a deixar o campo de Thiaroye até que recebessem os soldos atrasados. Alertado sobre “atos de insubordinação”, o general Marcel Dagnan fez uma visita ao campo em 28 de novembro.
O oficial francês foi recebido com um protesto enérgico dos tirailleurs, que bloquearam a passagem de seu carro e gritaram palavras de ordem. Furioso com o ocorrido, Dagnan procurou seu superior, o general Yves de Boisboissel, e afirmou que os soldados africanos estavam amotinados e que quase o tomaram como refém.
Chefe das forças coloniais francesas, Boisboissel era um simpatizante do regime nazista. Durante a vigência do regime colaboracionista da França de Vichy, ele fortaleceu o sistema de segregação racial nos territórios da África Ocidental Francesa e chegou a reintroduzir o trabalho escravo nas colônias.
Decidido a punir exemplarmente os fuzileiros africanos, Boisboissel autorizou Dagnan a conduzir uma operação no campo de Thiaroye. Na manhã de 1º de dezembro de 1944, três companhias de fuzileiros, agentes da Gendarmeria Nacional e o Regimento de Artilharia Colonial invadiram a base militar.
Veículos blindados, caminhões e militares armados com fuzis e metralhadoras cercaram todo o campo, impedindo a saída dos tirailleurs. Desarmados, os ex-prisioneiros foram forçados a se concentrar no pátio central. Os soldados coloniais então abriram fogo, fuzilando centenas de combatentes africanos.
Não se sabe o número exato de vítimas da matança. O primeiro relatório francês sobre o massacre registrou 24 vítimas. Um segundo relatório oficial publicado dias depois atualizou o montante para 70 mortos. O número, no entanto, parece subdimensionado. Alguns historiadores senegaleses afirmam que a cifra deve se aproximar de 400 mortes.
Investigações e consequências
Nos relatórios oficiais sobre o massacre, os oficiais franceses afirmaram que um dos tirailleurs teria tentado atacar os soldados coloniais com uma faca, mas essa versão foi desmentida pelos sobreviventes. As alegações posteriores de que teria ocorrido um tiroteio foram igualmente desmentidas — e não encontram respaldo sequer na documentação coeva produzida pelos militares franceses.
Não houve abertura de inquérito nem responsabilização dos assassinos. Por outro lado, 34 africanos que sobreviveram à matança foram presos, julgados e condenados a até 10 anos de prisão por insubordinação e incitação a motim. Eles foram libertados em 1947, após receberem anistia do presidente francês Vincent Auriol.
Por quase 70 anos, a França manteve a versão do “motim” e tentou ocultar o episódio. Até hoje, o Massacre de Thiaroye não é ensinado nas escolas francesas. Também segue ignorado na maior parte da historiografia sobre a Segunda Guerra Mundial. Em 1988, “Camp de Thiaroye”, um filme senegalês sobre o massacre, dirigido por Ousmane Sembène, foi censurado na França.
Os primeiros passos para o reconhecimento oficial da matança somente ocorreram a partir de novembro de 2014, quando o presidente francês François Hollande fez um discurso em homenagem às vítimas. Em 2024, Emmanuel Macron classificou pela primeira vez o episódio como um massacre, em uma carta endereçada ao presidente senegalês, Bassirou Diomaye Faye. Nunca houve, no entanto, um pedido formal de desculpas do Estado francês.























