Abreu e Lima: um general brasileiro no Exército libertador de Bolívar
Perseguido após Revolução Pernambucana, Abreu e Lima se exilou na Venezuela e participou das campanhas pela independência regional
Há 232 anos, em 6 de abril de 1794, nascia o revolucionário pernambucano José Inácio de Abreu e Lima, herói da luta pela independência da América espanhola. Perseguido pelas autoridades portuguesas após a Revolução Pernambucana, Abreu e Lima se exilou na Venezuela, onde se uniu ao Exército libertador de Simón Bolívar.
Alçado ao posto de chefe de Estado Maior e nomeado general de brigada por Bolívar, Abreu e Lima participou das mais importantes batalhas da campanha pela independência, ajudando a libertar a Venezuela, Colômbia, o Equador, Panamá, Bolívia e Peru.
De volta ao Brasil, Abreu e Lima se envolveu nos debates políticos do Império e desenvolveu uma prolífica carreira como escritor e jornalista. Ele também foi autor do livro O Socialismo, obra pioneira na divulgação do socialismo utópico no Brasil.
Da juventude à proscrição na Revolução Pernambucana
Nascido no Recife, José Inácio de Abreu e Lima descendia de uma das famílias mais ricas e influentes de Pernambuco, proprietária de engenhos e vastas extensões de terra. Seu pai, José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima, era conhecido pela alcunha de Padre Roma. Ordenado sacerdote na Europa, Padre Roma retornou ao Brasil e requisitou secularização, passando a atuar como advogado.
Educado em casa por seu pai e por tutores particulares, Abreu e Lima aprofundou seus estudos na escola leiga do Seminário de Olinda, onde cursou Humanidades, tendo aulas de latim, filosofia, retórica e língua francesa. Em 1811, ambicionando a carreira militar, o jovem ingressou no curso regimental de artilharia de Olinda. No ano seguinte, transferiu-se para o Rio de Janeiro, a fim de cursar a Academia Real Militar.
Abreu e Lima se destacou durante os estudos, recebendo prêmios e elogios por seu desempenho em matemática e engenharia militar. Ele se formou em 1816, aos 22 anos, recebendo a patente de capitão de artilharia. Partiu para Angola nesse mesmo ano, integrando uma comissão incumbida de treinar os oficiais da administração colonial.
Após retornar para o Brasil, Abreu e Lima se envolveu em uma grave confusão com oficiais portugueses. Acusado de insubordinação e de incitar um motim contra seus superiores, o militar foi preso e enviado para a Fortaleza de São Pedro em Salvador.
Abreu e Lima ainda estava encarcerado na Bahia quando irrompeu em Recife a Revolução Pernambucana — vigoroso levante independentista e republicano contra o domínio colonial português. Inspirado pelas ideias liberais e iluministas, o levante mobilizou militares, comerciantes e religiosos e recebeu significativo apoio popular.
O pai de Abreu e Lima, Padre Roma, se destacaria como um dos principais líderes da Revolução Pernambucana. Após a proclamação de um governo independente em Recife, Padre Roma viajou para a Bahia em busca de reforços e de alianças para expandir a insurreição pelo Nordeste. Preso logo após desembarcar em Salvador, ele se recusou a delatar o nome de seus companheiros, mesmo sob tortura.
Padre Roma foi condenado à morte e executado no Campo da Pólvora em março de 1817. Como parte de uma punição sádica, Abreu e Lima e seu irmão, Luís Inácio, foram forçados a testemunhar o fuzilamento do pai. O episódio sepultou a carreira do jovem militar. À época, as Ordenações do Reino determinavam que as punições por crime de lesa-majestade deveriam ser impostas até a segunda geração dos réus.
Abreu e Lima no Exército de Bolívar
Seis meses após a execução de Padre Roma, Abreu e Lima e Luís Inácio conseguiram fugir da prisão em Salvador. Auxiliados por seus colegas da maçonaria, os irmãos partiram para o exílio nos Estados Unidos, onde foram recebidos por Cruz Cabugá, outra liderança da Revolução Pernambucana.
Durante sua estadia nos Estados Unidos, Abreu e Lima travou contato com partidários de Simón Bolívar, o célebre líder do movimento revolucionário que lutava pela independência das colônias espanholas nas Américas. Defensor convicto do movimento libertador, o pernambucano escreveu uma carta para Bolívar, oferecendo-se voluntariamente para lutar ao lado das tropas insurgentes.
Em 1819, Abreu e Lima partiu para a Venezuela, instalando-se em Angostura (atual Ciudad Bolívar), sede do quartel-general das tropas revolucionárias. O militar brasileiro foi incorporado ao Exército de Bolívar como capitão de artilharia. Ele serviria nas forças da Grã-Colômbia durante 13 anos, chegando ao posto de general de brigada.
Abreu e Lima teve papel central nas batalhas pela emancipação das antigas colônias do Vice-Reino de Nova Granada, ajudando a libertar a Venezuela, Colômbia, Equador, Panamá, Bolívia e Peru. O brasileiro se consagrou como um dos mais importantes generais de Simón Bolívar e foi nomeado chefe de Estado Maior do Departamento de Madalena.
O batismo de fogo de Abreu e Lima ocorreu ainda em 1819. Ele participou da Batalha de Las Queseras del Medio, servindo como ajudante-de-campo do general José Antonio Páez. Depois, tomou parte da audaciosa marcha através do Páramo de Pisba e da Campanha dos Andes, atuando nas batalhas do Pântano de Vargas e de Gámeza y Tópaga.
Ao término da Campanha dos Andes, Abreu e Lima se destacou na Batalha de Boyacá, onde lutou ao lado do general Francisco de Paula Santander e foi condecorado com a Esmeralda de Muzo. A batalha terminou com a rendição de um amplo contingente de tropas espanholas, tendo papel decisivo para assegurar a independência da Colômbia.
Em 1821, Abreu e Lima lutou na célebre Batalha de Carabobo, ajudando a expulsar as forças coloniais de Caracas e a consolidar a libertação da Venezuela, fortalecendo o projeto unificador da Grã-Colômbia. O pernambucano foi gravemente ferido durante o combate, mas seguiu atuando na linha de frente das tropas revolucionárias.
Abreu e Lima assumiu o comando de uma coluna de soldados em 1822, durante a Batalha de Puerto Cabello. Ele foi responsável pela bem-sucedida estratégia de artilharia, subjugando as defesas das tropas realistas, logrando a captura do porto e destruindo um dos derradeiros redutos coloniais na Venezuela.

General Abreu e Lima, em pintura de autor desconhecido
Galería de Arte Nacional da Venezual / Wikimedia Commons.
Defensor da Grã-Colômbia
Em 1824, Abreu e Lima se engajou na Batalha de Ayacucho, o último grande enfrentamento terrestre travado entre as tropas espanholas e o Exército dos libertadores da América. Lutando sob o comando de Antonio José de Sucre, o pernambucano contribuiu para uma vitória decisiva, pavimentando o caminho para a libertação definitiva do Peru.
Além de suas contribuições militares, Abreu e Lima também se distinguiu como um importante ideólogo do movimento independentista. Ele foi nomeado editor do Correo del Orinoco, o órgão oficial do movimento revolucionário, e publicou diversos artigos e ensaios em defesa da luta anticolonial e da unidade latino-americana.
Vários dos textos redigidos por Abreu e Lima seriam coligidos na obra Resumo histórico da última ditadura do Libertador Simón Bolívar. O brasileiro liderou uma vigorosa campanha na imprensa em defesa da independência das nações latino-americanas e foi enviado à Europa para responder aos ataques ao processo revolucionário feitos pelo liberal suíço Benjamin Constant.
Abreu e Lima permaneceu fiel a Simón Bolívar até o fim, mesmo quando o sonho de uma confederação latino-americana começou a se desfazer. O brasileiro enfrentou os separatistas e ajudou a proteger Bolívar da tentativa de assassinato articulada pelas tropas de Pedro Carujo durante a Conspiração Setembrina. Desiludido e frustrado diante da fragmentação de seu projeto integracionista, Bolívar renunciou à presidência da Grã-Colômbia e faleceu pouco tempo depois, em dezembro de 1830.
Abreu e Lima seguiu tentando defender a unidade nacional e o projeto bolivariano e se lançou ao combate contra os rebeldes de Riohacha. A vitória política dos opositores de Bolívar, no entanto, inviabilizou o movimento de resistência. Abreu e Lima passou a ser perseguido pelos novos dirigentes e foi expulso do país em agosto de 1831.
O retorno ao Brasil
Após deixar a Grã-Colômbia, Abreu e Lima passou uma temporada nos Estados Unidos e na Europa. Em Portugal, ele conheceu o ex-imperador Dom Pedro I, que havia abdicado do trono brasileiro em abril de 1831, sob enorme pressão política.
Em 1832, Abreu e Lima retornou definitivamente ao Brasil, fixando residência no Rio de Janeiro. O governo imperial restaurou seus direitos civis e políticos e reconheceu a patente conquistada nas lutas pela independência da América Espanhola.
A despeito de seus vínculos históricos com a epopeia libertadora de Bolívar, Abreu e Lima se converteu em um apoiador do regime monárquico no Brasil. Ele criticou veementemente o elitismo do movimento republicano e a inépcia do governo regencial. Tornou-se um destacado líder do Partido Restaurador, defendendo o retorno de Dom Pedro I ao trono.
Para Abreu e Lima, não havia incoerência em sua postura. Após testemunhar a fragmentação e as disputas fratricidas da Grã-Colômbia, ele havia se convencido de que a monarquia era necessária para preservar a unidade territorial do Brasil. Não obstante, Abreu e Lima seguiria reivindicando a necessidade de reformas políticas profundas, defendendo o fim da escravidão, a reforma agrária e a concessão de mais autonomia para as províncias.
No Rio de Janeiro, Abreu e Lima atuou intensamente na imprensa. Ele colaborou em jornais como O Raio de Júpiter, onde defendeu o programa monárquico como um modelo de estabilidade. Envolveu-se em debates acalorados com os republicanos e se dedicou a produzir obras históricas pioneiras, incluindo Bosquejo Histórico, Político e Literário do Brasil (1835), Compêndio de História do Brasil (1843) e História Universal Desde os Tempos mais Remotos até os Nossos Dias (1846-1847).
A Revolução Praieira e a defesa do socialismo
Abreu e Lima foi um dos maiores defensores do chamado “golpe da maioridade”, a declaração que permitiu que Dom Pedro II fosse coroado como rei aos 15 anos de idade, abreviando a tumultuada experiência do Período Regencial.
Em 1844, Abreu e Lima retornou para Recife, onde seguiu atuando como jornalista. Ele se filiou ao Partido Liberal e editou o Diário Novo, o órgão oficial da agremiação. Posteriormente, fundou o jornal A Barca de São Pedro, notabilizado pela firme oposição às lideranças conservadoras.
Quatro anos depois, em novembro de 1848, Abreu e Lima se veria envolvido em mais um movimento insurrecional pernambucano — a chamada Revolução Praieira, um levante inspirado no radicalismo liberal, que exigia o fim do latifúndio, a instituição do voto livre universal, a liberdade de imprensa e a nacionalização do comércio e da indústria.
Abreu e Lima não participou diretamente da revolta, mas foi acusado de incentivá-la através de suas críticas ao governo imperial. Em 1849, ele foi detido e condenado à prisão perpétua, sendo enviado para o cárcere na Ilha de Fernando de Noronha. Posteriormente, conseguiu comprovar sua inocência e foi posto em liberdade.
Nas últimas décadas de vida, Abreu Lima se dedicou ao estudo do pensamento socialista. Em 1855, ele publicou O Socialismo, o primeiro tratado sobre o socialismo utópico produzido no Brasil. O livro, influenciado pelas ideias de Charles Fourier e Henri de Saint-Simon, defendia a reorganização da sociedade com base em princípios de justiça social, cooperação e bem-estar coletivo.
Abreu e Lima também dirigiu críticas ácidas à Igreja Católica. Em 1867, ele publicou As Bíblias Falsificadas ou Duas Respostas a Joaquim Pinto Campos e O Deus dos Judeus e o Deus dos Cristãos, obras em que defende a liberdade religiosa e o livre pensamento e questiona certas interpretações teológicas e dogmas eclesiásticos.
José Inácio de Abreu e Lima faleceu no Recife em 8 de março de 1869, aos 74 anos, vitimado pela tuberculose. Seu sepultamento causou polêmica. Contrariado pelas críticas de Abreu e Lima à igreja e por suas ligações com a maçonaria, Dom Francisco Cardoso Aires, o bispo de Olinda, não autorizou que o falecido fosse enterrado em cemitérios católicos. O general de Bolívar teve de ser sepultado no Cemitério dos Ingleses, reservado para protestantes e estrangeiros.























