Alfeu de Alcântara Monteiro: primeiro militar assassinado pela ditadura
Tenente-coronel da Forças Armadas assumiu cargo de piloto presidencial e chefiou a Superintendência da Fronteira Sudoeste e foi executado em 1964
Há 104 anos, em 31 de março de 1922, nascia Alfeu de Alcântara Monteiro, aviador e tenente-coronel da Força Aérea Brasileira (FAB).
Alinhado aos setores nacionalistas e progressistas das Forças Armadas, Alfeu se destacou por seu papel central durante a Campanha da Legalidade, o movimento político-militar que garantiu a posse de João Goulart. Alfeu comandou a insurreição dos oficiais legalistas na Base Aérea de Canoas, impedindo que a cidade de Porto Alegre fosse bombardeada pelos golpistas.
Após o golpe de 1964, Alfeu liderou a criação de uma patrulha armada para garantir a segurança de Goulart. Ele foi executado a tiros três dias após a quartelada, tornando-se o primeiro militar assassinado pela ditadura.
A carreira militar
Alfeu de Alcântara Monteiro nasceu em Itaqui, uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, às margens do Rio Uruguai, já na fronteira com a Argentina. Filho de Natalina Schenini e João Alcântara Monteiro, ele se interessou desde cedo pela carreira militar.
Aos 19 anos, em 1941, Alfeu ingressou na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, transferiu-se para a Escola da Aeronáutica, onde se formou como aspirante a oficial em 1942.
Alocado inicialmente na Base Aérea de Fortaleza, Alfeu obteve uma rápida ascensão profissional, sendo muito elogiado por sua dedicação e disciplina. Ele foi promovido ao posto de primeiro-tenente aviador ainda em 1946 e esteve entre os primeiros instrutores incumbidos de treinar a tripulação dos bombardeiros B-25 e dos aviões de caça Gloster Meteor, adquiridos pela Força Aérea Brasileira entre as décadas de 40 e 50.
Alfeu serviu em diversas bases nos anos seguintes, vivendo em São Paulo, Rio de Janeiro e Natal. Ele ingressou no curso do Estado-Maior da Aeronáutica em 1958 e tornou-se integrante do colegiado no ano seguinte, trabalhando na Subseção do Exterior do Comando de Segurança Nacional. Permaneceu nesse órgão até janeiro de 1961, solicitando então a transferência para a Base Aérea de Canoas.
Na Aeronáutica, Alfeu se alinhava aos setores nacionalistas, compondo o núcleo de oficiais que apoiavam as iniciativas de modernização política e econômica e o projeto desenvolvimentista conduzido por Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e, posteriormente, por João Goulart.
A postura progressista de Alfeu o colocava em clara oposição aos setores reacionários das Forças Armadas, contrariados com o crescente protagonismo político dos sindicatos e com o fortalecimento dos movimentos populares e dos partidos de esquerda.
A Campanha da Legalidade
A cisão ideológica na caserna se acentuou ainda mais em agosto de 1961, quando Jânio Quadros abdicou da presidência da república, afirmando estar sob pressão de “forças terríveis”. A renúncia deu início a uma grave crise sucessória e quase jogou o país em uma guerra civil.
Alegando “risco à segurança nacional”, os comandantes das Forças Armadas vetaram a posse do sucessor legal de Jânio, João Goulart, eleito vice-presidente em um pleito separado. A cúpula militar rejeitava a proximidade de Goulart com o movimento sindical, os líderes trabalhistas e as agremiações da esquerda nacionalista.
A decisão dos generais não encontrou respaldo unânime entre os militares de baixa e média patente. Muitos oficiais se opuseram à manobra golpista e defenderam a posse de Goulart. É o caso do tenente-coronel Alfeu, que logo se uniu ao grupo dos legalistas, engajando-se na luta pela preservação da ordem democrática e defendendo a estrita observância do texto da Constituição de 1946.
No Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola comandou a oposição ao golpe, lançando a “Campanha da Legalidade”. Utilizando uma rede com mais de 150 estações de rádio, o líder trabalhista conclamou a população de todo o país à resistência e convenceu dezenas de milhares de voluntários a se unirem às milícias populares e aos comitês legalistas para lutar pela preservação da ordem constitucional.
Determinado a esmagar a resistência no Rio Grande do Sul, o general Orlando Geisel, chefe do Estado-Maior do I Exército, instruiu o brigadeiro Aureliano Passos a bombardear as torres da Rádio Guaíba e o Palácio Piratini, sede do governo gaúcho.
A ordem para bombardear uma capital brasileira causou indignação em Alfeu e revoltou vários oficiais da 5ª Zona Aérea. Alfeu liderou o movimento insurgente que destituiu Aureliano Passos do comando e assumiu o controle temporário da Base Aérea de Canoas. Os militares rebelados esvaziaram os pneus dos caças e desarmaram as aeronaves, impedindo que o banho de sangue se concretizasse.
A solução negociada para debelar a crise sucessória de 1961 foi a adoção do regime parlamentarista, limitando os poderes de João Goulart. Ainda assim, a posse do presidente não estava garantida. Os oficiais da Aeronáutica favoráveis ao golpe lançaram a “Operação Mosquito”, que pretendia derrubar o avião presidencial a caminho de Brasília.
Alfeu também teve papel central para garantir o retorno seguro de Goulart. Ele ajudou a articular a “Operação Tática”, ocultando informações sobre o plano de voo do presidente e divulgando dados meteorológicos falsos para confundir e distrair as equipes das bases aéreas ao longo do trajeto.
O golpe de 1964
A lealdade de Alfeu a João Goulart e seu compromisso com a manutenção da democracia foram recompensadas. Ele chegou a assumir o cargo de piloto do avião presidencial e foi nomeado chefe da Superintendência da Fronteira Sudoeste.
As ações de Alfeu também lhe valeram inimigos poderosos dentro das Forças Armadas. A conspiração golpista contra Goulart seguia viva na caserna e se agravou ainda mais nos anos seguintes, recebendo o firme respaldo dos empresários, dos magnatas da imprensa, dos setores conservadores da Igreja Católica e, sobretudo, do governo dos Estados Unidos.
A articulação golpista chegou ao ápice em março de 1964, com os jornais publicando manchetes diárias clamando por uma quartelada. Em 31 de março de 1964, as tropas lideradas pelo general Olímpio Mourão Filho iniciaram a movimentação contra o governo. Outros comandos militares rapidamente aderiram à insurreição.
O golpe foi consumado em 1º de abril de 1964, após o presidente do Senado, Auro Moura Andrade, declarar a vacância da presidência da república, sob o falso argumento de que Goulart havia fugido do país. Ranieri Mazzilli, o presidente da Câmara dos Deputados, assumiu interinamente o governo.
Mais uma vez, o tenente-coronel Alfeu de Alcântara Monteiro se posicionou em favor do respeito à ordem constitucional. O oficial se desligou do Quartel-General da 5ª Zona Aérea em Canoas e buscou articular uma estratégia de resistência junto aos outros militares legalistas.
Informado sobre o plano do comando golpista para sequestrar João Goulart, Alfeu organizou uma patrulha com voluntários armados e ocupou a pista do Aeroporto Salgado Filho para tentar garantir a segurança do presidente deposto. A resistência, contudo, seria desestimulada pelo próprio João Goulart, alarmado diante da possibilidade de uma invasão norte-americana ao Brasil.

Alfeu de Alcântara Monteiro
Memórias da Ditadura
O assassinato
No dia 4 de abril de 1964, Alfeu foi convocado a comparecer a uma reunião na Base Aérea de Canoas. Ao chegar ao local, ele foi recepcionado pelo major-brigadeiro Nélson Freire Lavanère-Wanderley, interventor nomeado pelos golpistas, e pelo tenente-coronel Roberto Hipólito da Costa, sobrinho do futuro ditador Castelo Branco.
Conforme o depoimento de militares presentes no quartel na ocasião, os oficiais tiveram uma discussão bastante acalorada. Alfeu teria enfatizado a ilegalidade do golpe e se negado a acatar a ordem de prisão dada por Nélson Freire.
Quando o tenente se preparava para deixar a sala do interventor, Roberto Hipólito o alvejou com vários tiros pelas costas. Alfeu de Alcântara Monteiro tinha 42 anos quando foi assassinado. Ele deixou sua viúva, Firmina Paschoa Endres, e quatro filhos.
O inquérito aberto pela Aeronáutica absolveu os dois assassinos. A Justiça Militar acatou o argumento de que os oficiais haviam agido em legítima defesa, após Alfeu tentar alvejá-los. Segundo a versão oficial, Alfeu teria sido morto por um único disparo.
O relato dos oficiais foi desmentido posteriormente pelo Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos, elaborado pelo Comitê Brasileiro pela Anistia. Com base no relatório da autópsia, o comitê esclareceu que Alfeu provavelmente foi morto com uma rajada de metralhadora. Seu corpo trazia 16 perfurações de tiro.
A documentação levantada pelo comitê também desmentiu o registro do local da morte, confirmando que Alfeu foi executado na Base Aérea de Canoas. A certidão de óbito emitida pelo regime militar dizia que o militar teria sido socorrido, vindo a falecer no Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre.
A responsabilidade do Estado brasileiro pela morte de Alfeu foi reconhecida em 1995, quando a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos concedeu uma indenização simbólica aos familiares do militar. Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade confirmou a responsabilidade da União pela morte de Alfeu e recomendou a retificação de sua certidão de óbito.
Em março de 2019, a 2ª Vara Federal de Canoas acolheu a ação movida pelo Ministério Público Federal, reconhecendo formalmente Alfeu de Alcântara Monteiro como o primeiro militar assassinado pela ditadura.






















