Alfredo Volpi, o pintor operário
Artista considerado um dos mais importantes da segunda geração do modernismo brasileiro tem como marca as bandeirinhas de festa junina
Há 38 anos, em 28 de maio de 1988, falecia Alfredo Volpi. Vinculado à segunda geração modernista, Volpi é considerado um mais importantes pintores brasileiros do século 20. Sua obra contempla desde a arte figurativa de inspiração popular até a abstração geométrica, destacando-se pela sutileza no uso das cores e pelo tratamento peculiar da matéria pictórica.
Formação
Alfredo Volpi nasceu em Lucca, na Itália, em 14 de abril de 1896. Com pouco mais de um ano de idade, emigrou com sua família para o Brasil, fixando residência no Cambuci, um bairro operário de São Paulo, onde seus pais abririam um pequeno comércio.
Volpi frequentou a Escola Profissional Masculina do Brás e, ainda adolescente, trabalhou como marceneiro, encadernador e pintor de paredes. Em 1911, começou a trabalhar com pintura decorativa, realizando frisos, murais e painéis para ornamentar as residências das famílias abastadas da capital paulista. Dedicou-se paralelamente à pintura de cavalete, iniciando sua carreira artística como autodidata.
O artista expôs suas obras pela primeira vez em 1925, em uma mostra sediada no Palácio das Indústrias. Apresentou paisagens e retratos marcados pelo domínio sútil do colorido e pela sensibilidade na representação da luz, evidenciando o influxo estético do romantismo e do impressionismo.
O Grupo Santa Helena
Na década de 1930, Volpi se aproximou dos chamados “pintores operários” do Grupo Santa Helena — comunidade de artistas que se reunia nos ateliês de Francisco Rebolo e Mario Zanini, no Palacete Santa Helena, produzindo obras desvinculadas do experimentalismo conceitual das correntes modernas.
O Grupo Santa Helena se consagrou como um importante movimento de renovação da arte paulista. Diferentemente dos artistas vinculados à Semana de Arte Moderna de 1922, em sua maioria oriundos das classes abastadas, os pintores do grupo eram jovens de origem operária, profundamente conectados com o cotidiano das massas.
Volpi participou de várias excursões com os artistas do Grupo Santa Helena. Desenvolveu uma predileção por pintar os subúrbios e bairros populares, os trabalhadores, as paisagens urbanas, os interiores modestos e a rotina da gente comum.
Em 1936, Volpi participou da fundação do Sindicato dos Artistas Plásticos de São Paulo. A forte atuação de artistas “proletarizados” no sindicato contribuiu para que a entidade tivesse papel central na luta pela profissionalização da classe artística, conduzindo campanhas reivindicando regulamentação, remuneração adequada e proteção social para a categoria.

Alfredo Volpi em seu ateliê na década de 1970. Fotografia de autor desconhecido.
Via Arte Ref
Buscando uma nova linguagem artística
Sob a influência estética de Ernesto de Fiori, Volpi passou a valorizar mais os aspectos plásticos e formais das composições do que os temas representados, adotando o uso de cores vivas e conferindo maior atenção ao tratamento da matéria pictórica. A partir de 1938, ele expôs nos Salões da Família Artística Paulista, uma agremiação informal de artistas vinculados à tradição operária e ao modernismo contido do Grupo Santa Helena.
Em 1940, Volpi venceu o concurso pictórico promovido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), com telas retratando os monumentos e as paisagens das cidades São Miguel e Embu das Artes. Interessou-se igualmente pelo estudo da arte colonial, abordando temas religiosos e populares em suas telas. Por fim, criou composições para a Osirarte, empresa de azulejaria fundada por Paulo Rossi Osir.
Em 1944, o pintor realizou sua primeira exposição individual, sediada na Galeria Itá, em São Paulo, e participou de uma coletiva organizada por Alberto da Veiga Guignard em Belo Horizonte.
Inspirado pelo construtivismo, Volpi passou a empregar a simplificação geométrica de forma gradativa em suas composições, iniciando sua progressão para o abstracionismo. Também adotou a têmpera como sua técnica pictórica preferida.
Após uma viagem à Europa em 1950, quando conheceu pessoalmente as obras dos velhos mestres, o pintor passou a adotar soluções pictóricas empregadas por pré-renascentistas na disposição espacial das composições.
Abstracionismo geométrico e temas religiosos
Na década de 1950, Volpi aprofundou sua adesão ao abstracionismo geométrico e iniciou suas famosas séries de mastros e bandeirinhas de festas juninas, fachadas de casarios e ampulhetas. Tomou parte das três primeiras edições da Bienal Internacional de São Paulo, dividindo com Di Cavalcanti o prêmio de melhor pintor nacional em 1953, e marcou presença nas Exposições Nacionais de Arte Concreta.
Em 1958, o pintor foi laureado com o Prêmio Guggenheim. Além das obras abstratas, executou pinturas de temas religiosos, nomeadamente os painéis da Igreja de Cristo Operário em São Paulo e os afrescos da Capela Nossa Senhora de Fátima, em Brasília.
Volpi participou de quatro edições da Bienal de Veneza e expôs em Paris, Roma e Buenos Aires. Recebeu o prêmio de Melhor Pintor dos críticos de arte do Rio de Janeiro em 1962 e em 1966. Realizou um ciclo de trabalhos para a Companhia Nacional de Navegação Costeira e ajudou a decorar os edifícios governamentais de Brasília, pintando o afresco “O Sonho de Dom Bosco” para o Palácio do Itamaraty.
Em 1973, Volpi foi agraciado com a Medalha Anchieta da Câmara Municipal de São Paulo e com a Ordem do Rio Branco. Em 1986, foi homenageado com uma ampla retrospectiva organizada pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo. Faleceu na capital paulista dois anos depois, em 28 de maio de 1988, aos 92 anos de idade.
























