Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
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Há 41 anos, em 9 de dezembro de 1984, falecia o coronel Amelio Robles Ávila, herói da Revolução Mexicana.

Designado como mulher em seu nascimento, Amelio iniciou sua transição social após se juntar ao exército insurgente de Emiliano Zapata. Ele se consolidou como um dos líderes militares da Revolução Mexicana, atingindo a patente de coronel e chefiando tropas com mais de mil soldados.

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Amelio liderou as forças rebeldes durante a tomada de várias cidades no sul do México. Após a revolução, ele ajudou a fundar o Partido Socialista de Guerrero e dirigiu a Liga Central das Comunidades Agrárias, organizando a luta dos camponeses por terra.

Amelio foi a primeira pessoa do México a ter sua mudança de gênero formalmente reconhecida. Ele foi homenageado com a Medalha de Veterano da Revolução Mexicana e com a Ordem do Mérito Revolucionário.

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A juventude de Amelio Robles

Amelio nasceu em 3 de novembro de 1889 em Xochipala, um pequeno povoado no estado de Guerrero, no sul do México. Pertencia a uma família abastada, dona de terras, cabeças de gado e de uma pequena destilaria de mezcal.

O pai, Casimiro Robles, faleceu quando Amelio tinha três anos de idade. A mãe, Josefa Ávila, casou-se novamente com Jesús Martínez, um próspero pecuarista da região. O casal teve outros três filhos — Luis, Concepción e Jesús.

Designado como mulher ao nascer, Amelio foi batizado como “Amelia Robles Ávila”. Ele estudou em um colégio católico feminino de Chilpancingo, mantido pela congregação das Filhas de Maria Imaculada da Medalha Milagrosa. Na escola, tinha aulas de catecismo, corte e costura e tarefas domésticas, mas nada disso o interessava.

Amelio preferia as atividades ao ar livre, sobretudo aquelas tradicionalmente vistas como masculinas. Na fazenda, ele montava a cavalo, tocava o gado, ordenhava as vacas, laçava novilhas e manuseava armas de fogo.

O comportamento escandalizava a família, sobretudo o padrasto, Jesús Martínez, com quem Amelio tinha um péssimo relacionamento. O revolucionário confidenciaria posteriormente que chegou a pensar em matar o padrasto em duas ocasiões.

Os conflitos familiares se tornaram cada vez mais intensos e Amelio só pensava em deixar a fazenda. A oportunidade de partir em busca da liberdade veio em 1912, quando as tropas insurgentes de Juan Andreu Almazán passavam por Xochipala. Eram os combatentes da Revolução Mexicana — a grande insurreição armada que se levantou contra a ditadura de Porfírio Díaz, reivindicando transformações políticas e sociais profundas.

O levante teve início com o chamado de Francisco Madero por eleições livres e rapidamente se transformou em uma guerra civil multifacetada, envolvendo líderes populares como Emiliano Zapata, defensor da reforma agrária no sul, e Pancho Villa, comandante de tropas revolucionárias ao norte.

A Revolução Mexicana

Amelio apoiava a Revolução Mexicana desde 1911, quando exerceu o cargo de tesoureiro em um clube maderista de Xochipala. Ele ingressou nas tropas revolucionárias ainda sob sua identidade feminina, mas logo iniciou sua transição social, adotando o nome masculino e passando a se vestir como os guerrilheiros.

Muitas mulheres que participaram da Revolução Mexicana adotaram nomes e indumentárias masculinas como meio de se proteger da violência sexual ou como uma tentativa de impor respeito aos colegas de farda. Mas no caso de Amelio, a transição representava uma libertação. Segundo suas próprias palavras, foi na guerrilha que ele sentiu, pela primeira vez, “a sensação de ser completamente livre”.

Entre 1913 e 1918, Amelio lutou nas divisões do Exército Libertador do Sul, a força insurgente comandada por Emiliano Zapata. Assumiu, assim, a defesa do Plano de Ayala — o manifesto revolucionário que exortava indígenas e camponeses a lutarem pela retomada das terras que lhes foram subtraídas e pela imposição de uma ampla reforma agrária.

Amelio atuou em mais de 100 operações militares ao longo da revolução, integrando as fileiras dos principais comandantes zapatistas, incluindo Jesús Salgado, Heliodoro Castillo e Encarnación Díaz. Seu primeiro combate documentado ocorreu em fevereiro de 1913, quando lutou contra as tropas de Julián Blanco no acampamento de Carrizalillo.

A habilidade e a destreza de Amelio chamaram a atenção dos comandantes revolucionários, impressionados com sua agilidade no manejo das armas de fogo e o tirocínio rápido em combate.

Após roubar o cavalo do coronel Zenón Carreto durante uma batalha em Mazatlán, Amelio foi promovido a major e passou a comandar suas próprias tropas. Ele liderou a campanha de Tlacotepec e o ataque à fábrica têxtil de Aguas Blancas, em Coyuca de Benítez. Também comandou as tropas durante as tomadas de Chilapa, Tixtla e Chilpancingo.

Foi durante esse período que Amelio sofreu uma tentativa de agressão sexual por parte de um combatente de sua própria tropa, episódio que resultou na execução do agressor por ordens do comando revolucionário.

Promovido a coronel em 1914, Amelio chegou a liderar tropas com mais de 1.000 soldados. Ele participou da efêmera ocupação da Cidade do México pelas tropas zapatistas e villistas, confrontando as forças de Venustiano Carranza. Atuou também na Batalha de Apango, ocasião em que foi ferido por tiros de metralhadora.

Já integrado à divisão de Encarnación Díaz, Amelio lutou na campanha de Puebla e auxiliou na tomada de San Martín Texmelucan. Em 1918, ele comandou o resgate do engenheiro Ángel Barrios, homem de confiança de Zapata que havia sido aprisionado por Jesús Salgado, então rompido com o comandante do Exército Libertador.

A longa sequência de expedições enviadas por Carranza para combater os revolucionários acabou por desarticular as tropas zapatistas. Em novembro de 1918, Amelio entregou as armas e se rendeu às tropas federais. Zapata seria assassinado alguns meses depois, tombando em abril de 1919, em uma emboscada do general Jesús Guajardo.

Amelio Robles, fotografado em 1915.
Wikimedia Commons

Após a revolução

Amelio voltaria a se insurgir contra o governo de Carranza em 1920, pegando em armas para lutar no Levante de Agua Prieta, ao lado das tropas de Álvaro Obregón.

Posteriormente, Amelio ajudou a reprimir a Rebelião Delahuertista de 1924. Integrando as forças de Adrián Castrejón, ele lutou na Batalha da Fazenda de Pozuelos, que resultou na morte do general Marcial Cavazos.

Amelio se afastou dos combates militares em 1926, mas manteve intensa atividade política até o fim da vida. Foi um dos fundadores do Partido Socialista de Guerrero e integrou a Frente Zapatista da República, movimento que reivindicava a concretização do programa agrário proposto por Emiliano Zapata.

O revolucionário mexicano ainda pegaria em armas pela última vez em 1940, apoiando a revolta armada conclamada por Juan Andreu Almazán, como resposta às fraudes na eleição de 1939.

Amelio se destacou como dirigente da Liga Central das Comunidades Agrárias, comandando a ação articulada dos sindicatos camponeses. Ele foi um dos mais destacados líderes comunitários de Xochipala. Ao longo de décadas, ajudou a regularizar os títulos de propriedade de terras e atuou firmemente contra o desmatamento das florestas da região.

Na década de 1930, Amelio se casou com Ángela Torres, que seria sua companheira pelo resto da vida. A união civil foi possível graças a uma certidão de nascimento falsificada, onde Amelio era registrado como um recém-nascido do sexo masculino. O casal mais tarde adotaria uma menina chamada Regula Robles Torres.

Em 1948, Amelio ingressou na Confederação Nacional dos Veteranos da Revolução, reivindicando o reconhecimento de seu status como ex-combatente das tropas revolucionárias.

Seria uma luta longa e árdua. Foi somente em 1974 que o Exército reconheceu formalmente Amelio como veterano, registrando-o sob o gênero masculino. Ele se tornou, assim, a primeira pessoa do México a ter sua mudança de gênero formalmente reconhecida pelo Estado.

Nos anos 70, Amelio foi laureado com a medalha de Veterano da Revolução Mexicana, com o título de Legionário Honorário do Exército e com a Ordem do Mérito Revolucionário. Seus feitos também inspiraram diversas canções folclóricas e mitos populares.

Amelio Robles Ávila faleceu em 9 de dezembro de 1984, aos 95 anos. Embora tenha sido reconhecido como um herói da Revolução Mexicana, a historiografia oficial por muito tempo resistiu em aceitá-lo como um homem. A lápide do túmulo do revolucionário até hoje o identifica sob seu nome de batismo feminino e a instituição criada para homenageá-lo postumamente foi originalmente denominada “Casa Museu Coronela Amelia Robles”.

Nos últimos anos, com o avanço das pautas LGBTQIA+, registraram-se importantes iniciativas visando o reconhecimento da identidade transgênera de Amelio, levando ao reconhecimento de seu status como homem transgênero nos livros didáticos e na documentação oficial do Ministério da Cultura.