Atrocidades do anticomunismo: 81 anos do Massacre de Atenas
Após a libertação da Grécia do nazismo, governo perseguiu os comunistas do Exército Democrático, conflito que vitimou mais de 15 mil pessoas
Há 81 anos, em 3 de dezembro de 1944, 28 manifestantes antifascistas eram assassinados por soldados gregos e britânicos durante o Massacre de Atenas.
Os manifestantes participavam de um protesto organizado pela Frente de Libertação Nacional (EAM-ELAS), a organização da resistência grega que havia libertado o país do domínio nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
Vinculada ao Partido Comunista da Grécia, a Frente de Libertação Nacional se tornou um movimento de enorme força popular, chegando a congregar um quarto da população grega e a controlar 80% do território do país.
Preocupado com a possível ascensão de um governo comunista na Grécia, o governo britânico preferiu se aliar à extrema-direita e aos ex-colaboradores do regime nazista para esmagar o movimento. O Massacre de Atenas foi o estopim da Guerra Civil da Grécia, conflito que deixaria mais de 150.000 mortos.
A Grécia na Segunda Guerra Mundial
Apontada como parte do “espaço vital” reivindicado pelo imperialismo italiano, a Grécia se tornou alvo das ofensivas do Eixo em outubro de 1940, quando as tropas de Benito Mussolini invadiram o país a partir da Albânia. O regime fascista, no entanto, foi surpreendido pela capacidade de resistência dos gregos, que não apenas impediram a invasão como forçaram o recuo das tropas italianas.
Alarmado com o fracasso de seu aliado, Hitler decidiu intervir no conflito. O líder nazista enxergava o controle dos Balcãs como um passo estratégico para garantir a continuidade de seu projeto expansionista. Em abril de 1941, a Alemanha deu início a uma vigorosa ofensiva que mobilizou quase 700.000 soldados. Em poucas semanas, Atenas caiu. No início de junho, quase toda a Grécia já estava sob controle do Eixo, dividida em zonas de ocupação alemãs, italianas e búlgaras.
A ocupação foi brutal, marcada por repressão política e execuções em massa. A crise famélica de 1941-1942, uma consequência direta da pilhagem nazista e do bloqueio econômico, matou mais de 300.000 pessoas. Aldeias inteiras foram incendiadas e massacradas na campanha de terror imposta pelas tropas do Eixo.
Com o Exército Grego desmobilizado, a tarefa de lutar contra a ocupação nazifascista ficou nas mãos da população civil. A Grécia abrigou um dos movimentos de resistência mais aguerridos da Segunda Guerra Mundial, com diversos agrupamentos fundados a partir de 1941.
A maior dessas organizações era a Frente de Libertação Nacional (EAM), mantida pelo Partido Comunista da Grécia (KKE). A EAM chegou a congregar quase dois milhões de membros — ou um quarto da população grega. Seu braço armado, intitulado Exército de Libertação do Povo Grego (ELAS), teve papel central no combate aos nazistas, conduzindo guerrilhas, sabotagens e enfrentamentos abertos.
Grupos de ideologias distintas também participaram da resistência armada, notabilizando-se a Liga Nacional Republicana Grega (EDES), uma agremiação de perfil anticomunista, composta por republicanos, liberais e nacionalistas conservadores. Embora essas agremiações tenham cooperado em algumas missões, a convivência era bastante atribulada e a hostilidade foi se agravando à medida em que a guerra avançava.
O Governo das Montanhas e o fim da ocupação alemã
O crescimento exponencial da resistência grega, alimentado pela adesão voluntária de dezenas de milhares de civis, fragilizou o controle do Eixo sobre a Grécia. Em 1943, os partisans já controlavam quase metade do território, sobretudo as zonas montanhosas.
Nas áreas sob domínio da Frente de Libertação Nacional, os comunistas estabeleceram estruturas de autogestão democrática — o chamado “Governo das Montanhas”. Comitês e tribunais populares foram criados para gerir as aldeias e os serviços públicos e dezenas de escolas e cozinhas comunitárias foram inauguradas.
Mais de um milhão de pessoas participaram das eleições para formar o Conselho Nacional, uma espécie de parlamento da resistência. Foi a primeira vez na história da Grécia em que as mulheres puderam votar. Terras expropriadas de colaboracionistas foram redistribuídas e cooperativas agrícolas foram criadas para organizar a produção dos pequenos camponeses.
Os guerrilheiros comunistas ampliaram a quantidade de territórios sob seu controle a partir do segundo semestre de 1943. A queda de Mussolini e a rendição da Itália (administradora de 70% do território grego) abriram espaço para o avanço dos partisans e sobrecarregaram as forças alemãs.
As tropas de Hitler já estavam perdendo terreno em quase todas as frentes desde a derrota em Stalingrado. A potente contraofensiva soviética no Leste e a campanha aliada no norte da África pressionaram ainda mais os alemães.
O golpe de misericórdia na ocupação nazista veio com a ofensiva soviética nos Bálcãs. Em agosto de 1944, o Exército Vermelho dizimou as tropas do Eixo estacionadas no leste da Romênia, abrindo caminho para o avanço rumo à Península Balcânica e ameaçando as tropas nazistas na Grécia de serem capturadas por um cerco total.
Diante do risco, Hitler ordenou que suas tropas deixassem a Grécia antes que os soviéticos bloqueassem as rotas de fuga. Em outubro de 1944, as forças nazistas iniciaram a evacuação.
As tensões no governo de coalizão
Paradoxalmente, a libertação da Grécia do controle nazista trouxe preocupações para os Aliados ocidentais. Isso porque, com a progressiva desocupação do país, os partisans comunistas ganhavam cada vez mais terreno. Em meados de 1944, os guerrilheiros ligados à EAM-ELAS já tinham libertado cerca de 80% do território grego.
O primeiro-ministro britânico Winston Churchill estava decidido garantir a permanência da Grécia na esfera de influência do Ocidente, sob um regime capitalista e com a monarquia restaurada. Assim, em setembro de 1944, Churchill articulou a aprovação do Acordo de Caserta, que previa que as organizações da resistência se sujeitariam ao governo grego no exílio, dirigido pelo liberal Geórgios Papandréu.
O acordo determinava a formação de um governo de coalizão com a participação de todas as organizações ativas na resistência. Estipulava também a incorporação das milícias armadas ao Exército Grego, que, a princípio, estaria subordinado ao comando britânico e à liderança do tenente-general Ronald Scobie.
Receando que o KKE aproveitasse o vácuo de poder para instaurar um governo socialista, Churchill reforçou as tropas britânicas na Grécia e acelerou os trâmites para o retorno do governo exilado na “Operação Maná”. Conforme relatado pelo historiador Donny Gluckstein, o comando militar britânico chegou a tentar retardar a evacuação dos nazistas para impedir a expansão do domínio da EAM-ELAS sobre o país.
De fato, seria fácil para os comunistas tomarem o poder na Grécia em 1944. Além do controle territorial, a EAM-ELAS contava com enorme respaldo e legitimidade popular. A cúpula do KKE, no entanto, resolveu seguir as orientações de Josef Stalin. O líder soviético havia instruído os dirigentes do partido a cooperarem com os britânicos, visando preservar as boas relações com os Aliados e, possivelmente, respeitar os acordos informais sobre os limites das esferas de influência firmados com Churchill.
A EAM aceitou as condições previstas no Acordo de Caserta e indicou 6 dos 24 ministros para compor o governo de coalizão liderado por Papandréu. Contudo, a presença de representantes dos comunistas no gabinete não se refletia na incorporação das pautas e as lideranças da EAM foram sistematicamente isoladas.
Todas as reivindicações da EAM-ELAS reunidas no plano de reconciliação nacional foram rejeitadas pelo novo governo grego — incluindo o expurgo de oficiais e agentes que colaboraram com os nazistas e a convocação de novas eleições.
Massacre de Atenas
As tensões se agravaram ainda mais em 1º de dezembro de 1944, quando Papandréu, seguindo instruções da embaixada britânica, ordenou o desarmamento de todas as forças guerrilheiras, com exceção do Batalhão Sagrado e da 3ª Brigada de Montanha — organizações que eram diretamente controladas pelo governo grego.
A ordem causou indignação. A EAM protestou veementemente, argumentando que desarmar o ELAS deixaria os partisans vulneráveis aos ataques de milícias anticomunistas. Criticou também o fato de o governo grego estar incorporando às tropas regulares os combatentes oriundos dos Batalhões de Segurança — paramilitares que serviram como colaboradores do Eixo durante a ocupação nazifascista.
Os comunistas formularam um projeto alternativo, propondo o desarmamento simultâneo de todas as organizações paramilitares, a garantia de incorporação do ELAS ao exército e o afastamento de colaboracionistas. O governo grego rejeitou a proposta e fixou o prazo de dez dias para o desarmamento unilateral do ELAS.
Protestando contra a medida, os seis ministros da EAM renunciaram aos seus cargos no governo. O KKE convocou uma greve geral e marcou uma manifestação popular, a ser realizada no dia 3 de dezembro de 1944, em frente ao Parlamento Helênico.
O governo grego proibiu a realização do ato, mas de nada adiantou. Cerca de 250.000 pessoas responderam ao chamado da EAM, lotando a Praça Sintagma, no centro de Atenas. A manifestação era pacífica, com a multidão exibindo faixas e bandeiras antifascistas e cartazes com críticas a Papandréu.
Uma frota de tanques e grandes contingentes de policiais e soldados gregos e britânicos foram enviados para intimidar a população. Quando um grupo de manifestantes se aproximou do Túmulo do Soldado Desconhecido para depositar uma coroa de flores, os soldados abriram fogo contra a multidão.
Os disparos vinham de várias direções. Além dos soldados que estavam na praça, os oficiais gregos e britânicos haviam posicionado atiradores no telhado do parlamento e nos prédios das redondezas. O massacre deixou ao menos 28 manifestantes mortos e 148 feridos.
Uma testemunha afirmou ter visto o chefe da polícia, Angelos Evert, dando a ordem para o fuzilamento. Dmitri Kessel, um fotógrafo da revista Life que estava registrando o protesto, confirmou que os policiais abriram fogo sem que houvesse nenhuma provocação dos manifestantes.

Soldados britânicos em combate aos guerrilheiros do ELAS/ Wikimedia Commons
Dekemvriana e Guerra Civil
O massacre enfureceu a população e desatou um violento conflito. No dia 4 de dezembro, em resposta à matança, combatentes do ELAS conduziram uma onda de ataques a delegacias de polícia, instalações militares e edifícios do governo.
Uma greve geral paralisou Atenas, fechando todos os comércios, fábricas e serviços públicos. Ainda no dia 4, um novo ato convocado pelo EAM foi violentamente confrontado por membros da Organização X, uma milícia de extrema-direita liderada pelo coronel Georgios Grivas. O ataque deixou mais de 100 mortos e inflamou ainda mais os ânimos.
Os conflitos em Atenas se estenderam por 37 dias — episódio conhecido como “Dekemvriana”, ou “eventos de dezembro”. Sob o comando de Georgios Siantos, as forças do ELAS chegaram a controlar a capital grega por um tempo, mas logo foram forçadas ao recuo pelos numerosos reforços do Exército Britânico, enviados para esmagar a insurreição.
A resistência da EAM foi gradualmente sufocada. Em janeiro de 1945, o ELAS se retirou de Atenas e os combates chegaram ao fim. A derrota levou ao Tratado de Varkiza, assinado em fevereiro de 1945, no qual a EAM aceitou o desarmamento do ELAS em troca da promessa de anistia e eleições livres.
Na prática, o acordo pavimentou o caminho para uma violenta repressão contra os comunistas e as organizações de esquerda, dando início ao período conhecido como “Terror Branco”, marcado por perseguições, prisões, torturas, estupros e assassinatos em massa. A campanha de terror, por sua vez, acabaria por desencadear a Guerra Civil Grega, que se estendeu por três anos e meio e deixou mais de 150.000 mortos.























