Quarta-feira, 2 de setembro de 2026
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Há 39 anos, em 14 de agosto de 1987, tinha início a Batalha de Cuito Cuanavale, a principal campanha militar da Guerra Civil Angolana e o maior combate convencional travado no continente africano desde a Segunda Guerra Mundial.

A batalha opôs as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, apoiadas pelos governos de Cuba e da União Soviética, às forças da UNITA e da África do Sul. O conflito se estendeu por meses e mobilizou dezenas de milhares de soldados, centenas de tanques, artilharia pesada e intensa atividade aérea.

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A vitória dos cubanos e angolanos no conflito foi essencial para consolidar o controle do MPLA sobre o território angolano e para viabilizar a independência da Namíbia, encerrando a ocupação sul-africana que já se estendia há mais de 70 anos. O triunfo também contribuiu para enfraquecer o regime do apartheid, ajudando a acelerar o colapso do governo da minoria branca na África do Sul.

A luta pela independência

Submetida a mais de quatro séculos de exploração e domínio colonial europeu, Angola proclamou sua independência em 11 de novembro de 1975. A autonomia foi conquistada após uma sangrenta guerra travada contra Portugal, que se estendeu por 13 anos e ceifou dezenas de milhares de vidas.

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O processo de independência também foi impulsionado pela Revolução dos Cravos, ocorrida em Portugal em 1974. A derrubada da ditadura do Estado Novo e a posse de um governo provisório de inspiração socialista abriram caminho para a emancipação das colônias portuguesas na África.

O fim da guerra colonial, entretanto, não garantiu estabilidade política ao novo país, uma vez que o movimento independentista angolano estava fragmentado em três grandes organizações que divergiam profundamente em termos ideológicos.

O principal grupo guerrilheiro era o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), organização marxista-leninista liderada por Agostinho Neto, com forte presença nos centros urbanos. O segundo grupo era a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), comandada por Holden Roberto e com sua base no norte do país. Por fim, havia a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), de Jonas Savimbi, que se consolidaria como uma organização conservadora e anticomunista, concentrando apoio no sul angolano.

Ao término da Guerra de Independência, o MPLA controlava quase todas as províncias de Angola, além da capital, Luanda. O líder da organização, Agostinho Neto, o proclamador da independência, foi nomeado como primeiro presidente e instalou um governo de inspiração socialista. Os demais movimentos, no entanto, não aceitaram a legitimidade do governo do MPLA e iniciaram uma insurreição armada, dando início à Guerra Civil Angolana.

A Guerra Civil

O conflito angolano adquiriu rapidamente uma forte dimensão internacional, tornando-se um dos muitos conflitos “por procuração” provenientes da polarização ideológica da Guerra Fria, opondo os blocos capitalista e socialista. O governo do MPLA recebeu apoio militar, econômico e diplomático da União Soviética e de Cuba. Já a UNITA e a FNLA eram respaldadas pelos Estados Unidos e pelo regime do apartheid da África do Sul.

Além das afinidades ideológicas, o governo sul-africano tinha outras motivações para o seu envolvimento no conflito. Desde a Primeira Guerra Mundial, a África do Sul mantinha a ocupação ilegal do território da Namíbia (então chamada de Sudoeste Africano). O Conselho de Segurança da ONU chegou a aprovar a Resolução 435, determinando o fim da ocupação e o reconhecimento da independência da Namíbia, mas a ordem foi ignorada pelos sul-africanos.

Por meio de seu apoio à UNITA, o governo da África do Sul pretendia impedir que Angola se transformasse em uma base para os movimentos de libertação que combatiam o regime do apartheid, em especial a Organização do Povo do Sudoeste Africano (SWAPO, principal movimento independentista namibiano) e o Congresso Nacional Africano (CNA, a organização antiapartheid de Nelson Mandela).

Ainda em 1975, antes mesmo da declaração de independência de Angola, as tropas da África do Sul e do Zaire se uniram às forças da FNLA e da UNITA na Operação Savana, lançando uma invasão contra o território angolano. Angola pediu ajuda a Cuba, que então despachou dezenas de milhares de soldados na Operação Carlota. As forças enviadas por Fidel Castro tiveram papel central para derrotar a ofensiva sul-africana e ajudaram a consolidar o domínio do MPLA sobre a região de Luanda.

Os soldados cubanos permaneceriam em Angola nos anos seguintes, defendendo o território angolano e ajudando a treinar e estruturar as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), o exército regular do MPLA. Estima-se que mais de 400.000 soldados cubanos foram mobilizados para atuar em Angola a partir de 1975.

À frente de ofensivas como a Operação Protea (1981) e a Operação Askari (1983), o exército da África do Sul conseguiu ocupar temporariamente vastas áreas no sul de Angola. Sob a gestão de Ronald Reagan, o governo norte-americano também intensificou o apoio militar à UNITA, alegando que o MPLA era uma “ameaça à liberdade da África”. O apoio da África do Sul e dos Estados Unidos permitiu que a UNITA consolidasse suas bases nas regiões de Mavinga e Jamba, frustrando os ataques perpetrados pelas FAPLA.

A Batalha de Cuito Cuanavale

Em 1987, o presidente angolano José Eduardo dos Santos e os conselheiros soviéticos decidiram lançar uma ofensiva contra a UNITA — a Operação Saudemos Outubro. O objetivo da operação era capturar Mavinga, antiga base portuguesa convertida no principal centro logístico da UNITA, e avançar sobre Jamba, a “capital” do território sob controle de Jonas Savimbi.

A União Soviética investiu mais de um bilhão de dólares em armamentos, fornecendo tanques modernos, lançadores de foguetes, artilharia pesada e aviões. Conselheiros soviéticos, liderados pelo tenente-general Pyotr Gusev, assumiram grande parte do planejamento operacional. Fidel Castro, no entanto, se opôs inicialmente à ofensiva, considerando-a inadequada ao terreno africano e excessivamente arriscada.

Em agosto de 1987, oito brigadas das FAPLA, divididas em duas colunas principais, avançaram em direção a Mavinga. Elas partiam de Cuito Cuanavale, um município da província de Cuando Cubango, no sul de Angola. O local foi escolhido para ser a base de operações das FAPLA em função de sua localização estratégica, próxima a importantes linhas de comunicação e a um campo de aviação.

A campanha contou com a participação de 18 mil combatentes cubanos e angolanos, acompanhados por dezenas de tanques e apoio aéreo. A UNITA, embora contando com um grande efetivo (cerca de 28 mil combatentes regulares, além das forças paramilitares), enfrentou dificuldades para conter o avanço e foi empurrada para o sul.

A situação mudou quando a África do Sul decidiu intervir diretamente para impedir o avanço das FAPLA. A Força de Defesa Sul-Africana (SADF) iniciou a contraofensiva com a Operação Modular, enviando milhares de soldados para apoiar a UNITA em Angola. O ataque foi coordenado pelo general Jannie Geldenhuys e pelo coronel Deon Ferreira.

Os primeiros confrontos ocorreram entre o fim de agosto e início de setembro de 1987, às margens do Rio Lomba. Entre setembro e outubro, as tropas da UNITA e da África do Sul infligiram derrotas duras às forças angolanas — em especial a 47ª Brigada das FAPLA, que foi praticamente aniquilada. A 16ª e a 21ª Brigadas também sofreram pesadas perdas e foram forçadas a recuar 200 quilômetros até as posições a leste de Cuito Cuanavale.

A partir de novembro de 1987, o exército sul-africano e a UNITA intensificaram os ataques, lançando duas novas ofensivas: as operações Hooper e Packer. O objetivo era destruir ou forçar a retirada das brigadas das FAPLA barricadas em Cuito Cuanavale. A destruição de uma ponte sobre o Rio Cuito pelas forças sul-africanas em janeiro de 1988 agravou ainda mais a situação dos angolanos, que se viram confinados a um pequeno bolsão na região do “Triângulo de Tumpo”.

A captura de Cuito Cuanavale representaria um golpe devastador para o governo do MPLA, comprometendo sua capacidade de manter a campanha militar e abrindo caminho para o avanço das tropas da UNITA e da África do Sul rumo ao interior de Angola. Cientes da importância estratégica de manter o controle da cidade, as tropas angolanas resistiram heroicamente aos ataques durante três semanas — um episódio que despertou comparações com a resistência soviética aos nazistas na Batalha de Stalingrado.

Soldados cubanos em Cuito Cuanavale.
Fotografia de Pastor Batista, via Granma

A intervenção cubana

Diante do risco representado pelo cerco a Cuito Cuanavale, Fidel Castro decidiu intervir de forma mais assertiva no conflito. O governo cubano enviou mais 20 mil soldados e conselheiros militares para Angola, incluindo unidades de elite como a 50ª Divisão, responsável pela defesa de Guantánamo. Tanques, lançadores de foguetes e esquadrões inteiros da Força Aérea Cubana foram despachados para atuar na batalha. Até mesmo os sistemas de defesa antiaérea de Cuba foram colocados à disposição dos angolanos.

Os militares cubanos substituíram os soviéticos no comando do planejamento operacional, o que causou um certo atrito com Moscou. O próprio Fidel Castro coordenou pessoalmente a ofensiva a partir de Havana. Em uma conversa com Joe Slovo, dirigente do Partido Comunista Sul-Africano, o líder cubano explicou sua estratégia com uma metáfora do boxe: Cuito Cuanavale seria a mão esquerda que se protege dos ataques, enquanto o punho direito se prepara para golpear fortemente o adversário.

O alvo da “mão direita” já estava definido: Fidel abriria uma nova frente de combate no sudoeste de Angola. Entre abril e junho de 1988, soldados cubanos, angolanos e combatentes da SWAPO avançaram em direção à fronteira com a Namíbia, ameaçando as posições sul-africanas e realizando bombardeios a alvos estratégicos, incluindo instalações militares de Ruacana e a Barragem do Calueque.

A Força Aérea Cubana desempenhou papel decisivo. Os caças MiG-23 conseguiram neutralizar os ataques da aviação sul-africana e paralisaram o avanço das tropas terrestres. As manobras cubanas na fronteira com a Namíbia demonstraram que o país tinha plena capacidade de realizar ataques de grande porte contra territórios sul-africanos, agravando a pressão sobre o regime de Pretória e forçando o redesenho de sua estratégia militar.

África do Sul e UNITA lançariam seis novas ofensivas contra a região do Triângulo do Tumpo no primeiro semestre de 1988, mas não conseguiram romper as defesas angolanas. Tornava-se cada vez mais evidente que as tropas sul-africanas não conseguiriam tomar Cuito Cuanavale. A intervenção cubana havia mudado drasticamente o prognóstico da guerra.

O fim do conflito

Enquanto os combates militares prosseguiam no sudoeste de Angola, os líderes políticos davam início às negociações. As conversas envolveram representantes de Angola, Cuba e África do Sul e foram mediadas pelo governo dos Estados Unidos.

Inicialmente, o governo sul-africano tinha grandes expectativas em relação às negociações, cogitando a possibilidade de reformar a Resolução 435 e manter a Namíbia sob seu controle. Com a mudança no campo de batalha após a intervenção de Cuba, tais expectativas foram frustradas. “A África do Sul deve compreender que não obterá nesta mesa de negociações nada que não possa alcançar no campo de batalha”, asseverou o diplomata cubano Jorge Risquet, complementando que “a época das aventuras militares, das agressões impunes, dos massacres de refugiados acabou”.

Sem alternativas e sob crescente pressão no campo de batalha, a África do Sul viu-se obrigada a ceder. Em 22 de dezembro de 1988, foram assinados os Acordos de Nova York. O tratado previa a implementação da Resolução 435, a remoção completa das forças sul-africanas dos territórios de Angola e da Namíbia e a retirada faseada dos soldados cubanos.

A Batalha de Cuito Cuanavale produziu importantes mudanças no continente africano. Em 21 de março de 1990, livre da ocupação militar, a Namíbia finalmente conseguiu proclamar sua independência. Sam Nujoma, um dos principais dirigentes da SWAPO, venceu as eleições e se tornou o primeiro presidente do país.

A vitória dos combatentes cubanos e angolanos também ajudou a erodir a base de sustentação do regime do apartheid, contribuindo para acelerar o fim do regime segregacionista da minoria branca na África do Sul. Além de desmoralizar e isolar o governo sul-africano, a batalha afetou sensivelmente a capacidade de Pretória de continuar projetando poder sobre a África Austral.

Durante sua visita a Cuba em julho de 1991, Nelson Mandela fez um discurso ressaltando a importância da batalha para a superação do regime segregacionista: “A derrota do exército racista em Cuito Cuanavale permitiu-me estar aqui com vocês hoje! Cuito Cuanavale é um marco na história da luta de libertação da África do Sul! Cuito Cuanavale marca a virada na luta para livrar o continente e o nosso país do flagelo do apartheid.”