Uma singela bolinha de papel raramente entraria para a história como protagonista de uma eleição presidencial. Mas, quando o adversário a ser batido é o PT, a grande imprensa não mede esforços para se agarrar a qualquer tábua de salvação. Foi o que ocorreu na eleição de 2010, quando José Serra, candidato do PSDB à Presidência da República, foi atingido por uma bolinha de papel, supostamente atirada por um militante petista.
Jocosamente apelidada de “bolinhagate”, a “agressão” a José Serra se tornou um dos episódios mais caricatos e representativos da parcialidade da imprensa brasileira, que se empenhou ao máximo em tirar ganhos políticos da situação, a fim de reverter a vantagem de Dilma Rousseff nas pesquisas de intenção de voto.
Impulsionada pela avaliação excepcional de Lula, que chegou ao fim de seu segundo mandato com um recorde de aprovação de 87%, a campanha de Dilma Rousseff conseguiu manter um alto grau de tenacidade, resistindo à crescente agressividade da candidatura tucana.
Serra buscou erodir o apoio a Dilma utilizando-se de um discurso moralista — abordando questões como a descriminalização do aborto, religião e casamento entre pessoas do mesmo sexo — e vinculando a postulante petista a escândalos de corrupção, tais como o “mensalão” e o “dossiê dos aloprados”.
O segundo turno foi marcado pela intensificação dos ataques. A campanha de Serra chegou a veicular ilações de que o PT teria vínculos com o narcotráfico e com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). A persistência do elevado respaldo popular à candidatura petista certamente foi o que motivou os apoiadores de Serra a tentarem converter em fato político um evento que, em quaisquer outras circunstâncias, seria considerado banal.
No dia 20 de outubro de 2010, a menos de duas semanas do pleito, o candidato tucano e seus correligionários faziam uma caminhada pelo bairro carioca de Campo Grande, quando se depararam com um grupo de militantes do PT. Houve um pequeno tumulto, caracterizado por trocas de ofensas verbais, provocações mútuas e empurrões, sem, entretanto, evoluir para atos de violência.
Quando Serra se preparava para deixar o local, as equipes de mídia que o acompanhavam registraram o momento em que sua cabeça foi atingida por uma pequena bolinha de papel amassado. A bolinha ricocheteou e o candidato mal esboçou reação, prosseguindo com a passeata como se não tivesse sequer notado o impacto.
Cerca de 20 minutos depois, após receber um telefonema e cochichar com assessores, o candidato levou a mão à cabeça e passou a estampar uma expressão facial de agonia e dor lancinante, como se tivesse sido ferido mortalmente. A caminhada foi encerrada e um José Serra cambaleante seguiu até um automóvel apoiando-se nos ombros dos correligionários.
Serra foi levado até o Hospital Samaritano, na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde foi submetido a uma tomografia computadorizada e uma bateria de exames. O tucano foi atendido por um dos mais renomados cirurgiões de cabeça e pescoço do Brasil. Ostentando cara de frequentador de funeral, um assessor informou à imprensa que a agenda do candidato no Rio de Janeiro estava cancelada e que Serra teria de ficar em observação e repouso por 24 horas.

Ao sair do hospital, o tucano, ainda com uma expressão facial de severo sofrimento físico, queixou-se aos jornalistas de uma forte dor de cabeça, tontura e náuseas. Em seguida, comparou a militância petista às forças paramilitares do Terceiro Reich. “O PT tem tropa de choque. Não sei se foi previsto ou não, mas eles fazem no piloto automático. Lembra a tropa dos nazistas? É típico de movimentos fascistas”, afirmou o candidato.
Visando potencializar ao máximo os ganhos políticos da “agressão” e criminalizar a militância petista, a imprensa não poupou esforços para converter o episódio em um dramalhão. No Jornal Nacional, um sisudo William Bonner apresentava o “atentado” como o fato político mais relevante da campanha eleitoral.
Em uma reportagem de sete minutos no JN, a bolinha de papel foi convertida em “uma pesada bobina de fita adesiva”. Fernando Gabeira e um pastor evangélico foram apresentados como testemunhas oculares da “lesão corporal” infligida ao candidato do PSDB. Uma jornalista da Globo que cobria o evento respaldou igualmente o relato dos tucanos, afirmando ter sido agredida com pedradas na cabeça.
Os diários do dia seguinte relataram o episódio com manchetes histéricas. O título da Folha de S. Paulo afirmava que Serra havia sido ferido por uma “pancada na cabeça em confusão com militantes do PT”. No Estadão, a manchete era de que Serra foi “agredido por petistas no Rio”.
O presidente Lula apontou a cobertura enviesada da imprensa e acusou Serra de estar mentindo, comparando-o com o goleiro chileno Roberto Rojas — que simulou ter sido atingido por um rojão na partida contra o Brasil, sediada no Estádio do Maracanã em 1989, durante as eliminatórias da Copa do Mundo.
Lideranças petistas também questionaram o fato de a imprensa não ter dado qualquer atenção quando a candidata Dilma Rousseff foi atingida, na mesma semana, por balões de água e objetos atirados por correligionários do PSDB.
A Rede Globo resolveu dobrar a aposta e insistiu na narrativa da “agressão petista” pelo resto da semana. O Jornal Nacional veiculou imagens estremecidas e de baixa resolução, obtidas por intermédio da Folha de S. Paulo, apresentando-as como evidências de que José Serra não fora atingido por uma bolinha de papel, mas por um objeto mais pesado.
Para consubstanciar a afirmação, a Globo chegou a encomendar um laudo ao perito criminal Ricardo Molina, famoso por atuar no caso da morte de PC Farias e do assassinato de Eloá Pimentel. Molina publicou um relatório que assegurava que o objeto que atingira a careca de José Serra não era uma bolinha de papel e sim um rolo ou uma bobina de fita. A Globo ainda contrataria um segundo perito para ratificar o laudo sobre a agressão.
A Polícia Federal abriu inquérito para apurar o “ataque” contra José Serra. O caso da bolinha de papel chegou ao Supremo Tribunal Federal, tendo sido arquivado em agosto de 2012, por determinação do ministro Celso de Mello.
Malgrado os esforços persistentes, a tentativa de transformar a “bolinha de papel” em atentado político não funcionou. A cobertura midiática foi ridicularizada nas redes sociais, ao mesmo tempo em que peritos independentes rebateram o laudo de Ricardo Molina, comprovando que o suposto objeto descrito pelo perito não passava de uma sombra de um manifestante.