Há 53 anos, em 11 de setembro de 1973, a menina Ana Lídia Braga, de apenas sete anos, era sequestrada na entrada de seu colégio em Brasília. Seu corpo foi encontrado sem vida no dia seguinte, com marcas de tortura, violência sexual e estrangulamento.
As investigações apontaram o possível envolvimento de figuras ligadas à ditadura militar. Ana Lídia teria sido levada a um sítio pertencente ao senador Eurico Rezende, o vice-líder da ARENA, partido oficial do regime. No local, ela teria sido entregue ao filho do senador, Eduardo Ribeiro Rezende, e a Buzaidinho, filho do então Ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, um dos formuladores do AI-5.
Os militares proibiram a imprensa de divulgar informações sobre o caso e afirmaram que o envolvimento de filhos de políticos era um boato difundido por “grupos a serviço da subversão”. O caso somente foi reaberto durante a redemocratização, mas a morte de testemunhas e acontecimentos estranhos durante a exumação de um dos suspeitos impediram a continuidade das investigações. Até hoje, ninguém foi punido.
Ana Lídia Braga nasceu em 10 de julho de 1966, em Brasília. Ela era a caçula dos três filhos de Eloyza Rossi e Álvaro Braga, ambos servidores do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), uma repartição incumbida de prestar assessoria e auxiliar na elaboração das propostas orçamentárias do governo federal.
Os amigos e familiares descreviam Ana Lídia como uma menina meiga, extrovertida e muito ativa. Ela morava em um apartamento de classe média na Asa Norte de Brasília e estudava no Colégio Madre Carmen Sallés, mantido pelas Irmãs Concepcionistas. À tarde, frequentava aulas de reforço e tinha lições de piano.
Na tarde de 11 de setembro de 1973, pouco antes das 14h, a mãe de Ana Lídia a deixou no colégio para as aulas de reforço. A menina deveria permanecer na escola até as 16h30. Quando a empregada da família foi buscá-la, no entanto, um funcionário do colégio informou que Ana Lídia já havia deixado o local. Um homem alto, magro e de cabelos claros fora apanhá-la.
Segundo relatado por testemunhas, Ana Lídia parecia conhecer o homem e o acompanhou sem esboçar qualquer resistência. As características físicas levantaram suspeitas de que o homem em questão seria Álvaro Henrique Braga, o irmão mais velho de Ana Lídia.
Os pais foram avisados do desaparecimento e a polícia foi imediatamente acionada, iniciando as buscas. À noite, a família recebeu uma carta anônima exigindo um resgate no valor de 500 mil cruzeiros, estabelecendo o prazo limite até o dia 14 de setembro para o pagamento e alertando para que a polícia não fosse envolvida.
Posteriormente, os sequestradores fizeram um telefonema exigindo o pagamento de dois milhões de cruzeiros. Ana Lídia foi colocada ao telefone, chorando e chamando pela mãe. Esse foi o último contato realizado.
O desfecho macabro do sequestro ocorreu muito antes do prazo estipulado na carta de resgate. Por volta das 13h do dia 12 de setembro de 1973, apenas 22 horas após desaparecimento, o corpo de Ana Lídia foi encontrado por policiais em um matagal nos arredores da Universidade de Brasília (UnB).
Ana Lídia estava seminua, semienterrada em uma vala rasa. Os peritos constataram que ela havia sido brutalmente torturada, estuprada e asfixiada até a morte. Os cabelos estavam cortados de forma irregular e o corpo estava repleto de hematomas, escoriações e marcas de queimadura de cigarro.
Ao lado do corpo, os policiais encontraram dois preservativos usados e pedaços de papel higiênico com resquício de sêmen. Havia também impressões digitais abundantes no corpo e nas roupas da menina, além de marcas de pneus de motocicletas e outros indícios que poderiam facilmente servir de provas para sustentar a condenação dos autores do crime, não fosse por um detalhe: alguns dos suspeitos eram filhos de políticos do primeiro escalão da ditadura militar.
O primeiro alvo das investigações foi o irmão da vítima, Álvaro Henrique Braga. A hipótese levantada pela polícia era a de que ele, endividado com traficantes de drogas, teria arquitetado o sequestro da própria irmã como forma de extorquir o dinheiro da família. Sua namorada, Gilma Varela de Albuquerque, teria atuado como cúmplice.
Além de Álvaro, a polícia indiciou o traficante Raimundo Lacerda Duque, que trabalhava como funcionário da mãe de Ana Lídia. Ele fugiu após ser apontado como suspeito, sendo posteriormente capturado no Pará. Duque e Álvaro Henrique chegaram a ser presos, mas foram absolvidos por falta de provas em 1975. A família sempre negou o envolvimento do filho no crime e Álvaro afirmava ter sido usado como bode expiatório.
À medida que as investigações avançavam, nomes ligados a políticos poderosos começaram a emergir. Segundo relatos reunidos pela polícia, Ana Lídia teria sido levada para um sítio localizado em Sobradinho após o sequestro. O imóvel pertencia ao senador Eurico Rezende, o vice-líder da bancada da ARENA, partido político oficial da ditadura.
No sítio, a menina teria sido entregue a Eduardo Ribeiro Rezende, o filho do senador Eurico Rezende, e a Alfredo Buzaid Júnior, o Buzaidinho, filho de Alfredo Buzaid, Ministro da Justiça do governo de Emílio Garrastazu Médici e um dos principais formuladores do AI-5.
A partir de então, a apuração policial foi marcada por uma sequência de erros, omissões graves e uma completa falta de rigor técnico. Os policiais não realizaram a coleta de impressões digitais nem solicitaram exames grafotécnicos para comparar com a caligrafia da carta de resgate. Álibis e informações apresentadas pelos suspeitos não foram sequer checados.
Buzaidinho nunca foi indiciado. Convocado como testemunha, ele se recusou a comparecer em Brasília e acabou depondo por carta precatória em São Paulo, para onde a família se transferiu. Disse que não conhecia os demais suspeitos e que só soube do crime pela imprensa.
Os militares afirmaram que a inclusão do filho do ministro como suspeito era uma “manobra de grupos a serviço da subversão”, supostamente para desgastar o governo Médici. Eduardo Ribeiro Rezende também negou todas as acusações e nunca foi formalmente acusado de nenhum crime.
Quando as notícias sobre o alegado envolvimento de Buzaidinho e Eduardo começaram a ser ventiladas pela imprensa, a ditadura impôs censura à divulgação. Em 20 de maio de 1974, a Polícia Federal encaminhou um comunicado advertindo as redações dos jornais: “De ordem superior, fica terminantemente proibida a divulgação através dos meios de comunicação social, escrito, falado, televisionado, comentários, transcrição, referências e outras matérias sobre o caso Ana Lídia e Rosana”, dizia o documento.
O “caso Rosana” fazia referência a Rosana Pandim, uma menina de 11 anos que havia desaparecido em Goiânia no mesmo ano. Seu corpo nunca foi encontrado e a investigação seguiu um padrão parecido de censura e negligência.

A proibição de divulgar ou investigar a morte de Ana Lídia se manteve até o fim do regime militar. Somente 13 anos após o assassinato, já no período da redemocratização, a jornalista Mônica Teixeira, da Vídeo Abril, deu início a uma investigação independente, afirmando possuir testemunhas e evidências que confirmariam a participação de Alfredo Buzaid Júnior no crime.
A essa altura, Buzaid Júnior já havia sido legalmente declarado como falecido. O filho do ministro teria morrido em um acidente automobilístico em 1975. Mônica Teixeira, no entanto, alegava que a morte de Buzaidinho era uma mentira forjada para impedir sua responsabilização legal.
Diante das novas informações, a Justiça reabriu o caso e autorizou a exumação do corpo de Buzaid Júnior. Os peritos, no entanto, acabaram desenterrando os restos mortais de Felício Buzaid, o avô do suspeito. Em uma segunda tentativa de exumação, um corpo supostamente correspondente a Buzaid Júnior foi entregue ao Instituto Médico Legal, mas os peritos constataram que a arcada dentária do cadáver havia sido removida, impossibilitando sua identificação.
A reabertura do caso foi acompanhada por vários imprevistos e coincidências estranhas, incluindo o fato de que algumas das testemunhas convocadas a depor morreram logo depois de serem intimadas, impedindo o avanço das investigações. O processo foi novamente arquivado por falta de provas.
Até hoje, o caso Ana Lídia não obteve desfecho e ninguém foi punido pelo crime. Outros dois suspeitos já faleceram. Eduardo Ribeiro Rezende cometeu suicídio em 1990 e Raimundo Lacerda Duque morreu por complicações relacionadas ao alcoolismo em 2005.
Ana Lídia foi homenageada emprestando seu nome a um parque próximo à entrada do Setor Hoteleiro Sul de Brasília. O túmulo da menina, localizado no Cemitério Campo da Esperança, segue até hoje como um dos mais visitados da cidade. A lápide está sempre coberta de flores, velas, fotografias, brinquedos, terços e bilhetes de agradecimento por “graças alcançadas”.