Casos da Guerra Fria: o Partido Comunista da CIA
Apresentado como legenda revolucionária nos Países Baixos, MLPN era uma operação secreta dos EUA e Holanda para espionar China e fragmentar o movimento socialista
A década de 1960 foi um período desafiador para os partidos comunistas europeus. As denúncias contra Josef Stalin feitas por Nikita Kruschev, a ruptura sino-soviética e a invasão da Tchecoslováquia pelas tropas da URSS fragmentaram o movimento comunista e aceleraram a perda de apelo da esquerda revolucionária junto à classe trabalhadora.
Uma das agremiações que se surgiram nesse período foi o Partido Marxista-Leninista dos Países Baixos (MLPN). Por décadas, o partido se apresentou como uma legenda revolucionária, de inspiração maoísta, chegando a estabelecer vínculos diretos com Mao Zedong e o governo chinês.
O partido, entretanto, era uma legenda falsa, criada e diretamente operada pela CIA e pelo serviço secreto dos Países Baixos no âmbito da Operação Arenque / Projeto Mongol. Sua missão? Espionar a China e ajudar a sabotar e a desarticular a esquerda radical na Europa.
A Guerra Fria
Após o término da Segunda Guerra Mundial, o movimento comunista internacional registrou uma onda de apoio popular sem precedentes. O triunfo da União Soviética sobre a Alemanha nazista e o sacrifício dos partisans comunistas que lutaram na Resistência projetou uma imagem muito positiva da esquerda revolucionária.
Em países como França e Itália, os partidos comunistas emergiram do conflito como instituições de enorme capital político, identificadas como forças progressistas, patrióticas e verdadeiramente comprometidas com a reconstrução do continente e com a luta por justiça social.
O crescimento da influência comunista gerou grande preocupação nos Estados Unidos e nos países europeus. O temor principal era de que as crises sociais e as dificuldades econômicas do pós-guerra fomentassem movimentos revolucionários e culminassem na adesão de nações europeias ao bloco soviético.
Esse receio moldou a política externa do Ocidente e ajudou a estruturar a Guerra Fria. Em 1947, Washington instituiu a “Doutrina Truman”, uma política externa centrada nos esforços em prol da contenção do comunismo.
Logo em seguida veio a implementação Plano Marshall, que visava prevenir que a pobreza e o desemprego na Europa impulsionassem a adesão das massas ao pensamento revolucionário. Por fim, em 1949, foi fundada a OTAN, uma aliança militar que pretendia blindar a Europa Ocidental e reforçar seu peso junto à “cortina de ferro”.

Pôster do MLPN produzido pelo serviço secreto holandês
Via Erik Schaap (Eriks Gaap)
Operação Arenque Vermelho
Durante toda a Guerra Fria, os Estados Unidos e seus aliados no Ocidente incumbiram seus serviços secretos de criarem estratégias para desarticular as organizações socialistas e neutralizar o avanço da esquerda radical.
Esses esforços incluíam a criação de think tanks, o financiamento de organizações anticomunistas, a cooptação da imprensa e dos aparelhos ideológicos, infiltração e sabotagem das organizações de esquerda e fartos investimentos na indústria do entretenimento.
Uma outra estratégia menos ortodoxa surgiria nos anos 60, envolvendo a criação de falsas agremiações de esquerda. Partidos que se apresentariam como comunistas, mas que seriam diretamente controlados pelos serviços secretos ocidentais e utilizados para combater o socialismo.
Comandando essas organizações, os serviços secretos poderiam obter acesso a informações confidenciais, rastrear lideranças populares, infiltrar agentes em movimentos sociais, monitorar planos e projetos da esquerda, manipular a militância, ridicularizar e desacreditar o campo progressista e avançar discretamente suas próprias agendas.
O momento era bastante propício para o plano. O bloco socialista estava enfraquecido pela ruptura entre China e União Soviética. As tensões e desentendimentos eram generalizados. Em todo o mundo, os partidos comunistas estavam em crise, mergulhados em disputas internas e cisões.
Foi justamente para explorar as tensões entre a China e a União Soviética que foi criado o Partido Marxista-Leninista dos Países Baixos (MLPN, no acrônimo neerlandês).
O partido foi criado em 1968 pelo Serviço de Segurança Doméstica (BVD) dos Países Baixos, em colaboração com a Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos. Os holandeses batizaram o plano de “Projeto Mongol” e os norte-americanos o chamaram de “Operação Arenque Vermelho”.
A liderança do MLPN foi entregue a um agente do BVD chamado Pieter Boevé, que utilizaria por décadas o pseudônimo Chris Petersen. Boevé era um matemático que ingressou no serviço secreto neerlandês em 1955.
Antes de ser designado para assumir a liderança do Projeto Mongol, ele já havia se infiltrado no Centro Marxista-Leninista dos Países Baixos, por meio do qual estabeleceu contatos com socialistas do Leste Europeu, da União Soviética e da China.
Em 1968, Boevé provocou um desentendimento ideológico com o Centro Marxista-Leninista, obtendo assim um pretexto para “fundar” a legenda falsa e atrair militantes de sua antiga agremiação.
O MLPN
Mesmo sendo pequeno, o MLPN logo se tornou um partido influente. A organização tinha seu próprio jornal, o “De Kommunist”, que se tornou popular em setores da esquerda holandesa pela defesa vigorosa do purismo ideológico — embora fosse inteiramente escrito por agentes do BVD.
O partido também alegava representar os princípios do maoísmo e criticava o “revisionismo” do Partido Comunista dos Países Baixos, que era alinhado ao governo da União Soviética.
Ator excepcional e com bom conhecimento do pensamento marxista-leninista e do maoísmo, Boevé encantou as lideranças do Partido Comunista da China com seu falso zelo revolucionário. Passou a ser considerado um aliado por Pequim, sendo homenageado pelo Diário do Povo e convidado para reuniões com Mao Zedong.
Boevé fez 25 viagens para a China e se encontrou com quase todos os líderes socialistas do Ocidente, tornando-se especialmente próximo do governo da Albânia. “Eu poderia fazer discursos por horas e você pensaria que o próprio Mao Zedong foi meu professor”, afirmou Boevé após sua aposentadoria. Após os encontros, reunia-se com os serviços secretos holandês e norte-americano para repassar as informações.
Além de Boevé, que ocupava o cargo de secretário-geral, o presidente do MLPN e os membros do comitê central eram todos agentes do governo dos Países Baixos. A imensa maioria dos filiados do partido, entretanto, eram ativistas desavisados, que nada sabiam sobre a Operação Arenque Vermelho e realmente acreditavam estar militando em uma organização de vanguarda.
O MLPN elaborava listas com os nomes dos militantes de esquerda, rastreava a rotina das principais lideranças populares e entregava essas informações para a polícia secreta neerlandesa. O partido também incitava seus militantes a criticarem o “revisionismo” do Partido Comunista dos Países Baixos e do governo da União Soviética e atacarem outros partidos, com o objetivo de fragmentar e enfraquecer o movimento socialista na Holanda.
Ao mesmo tempo, o partido emitia comunicados regulares denunciando verdadeiros socialistas e comunistas como traidores ou espiões, instando sua militância a rejeitá-los e as lideranças estrangeiras, como o governo da China, a isolarem potenciais aliados.
Após as reformas econômicas chinesas iniciadas em 1978, o MLPN deixou sua atuação internacional em segundo plano e passou a focar no combate à esquerda holandesa. O partido foi dissolvido em 1990, um ano após a Queda do Muro de Berlim, quando os governos dos Estados Unidos e dos Países Baixos consideraram que a missão já havia cumprido seu objetivo de forma integral.
























