Quarta-feira, 13 de maio de 2026
APOIE
Menu

Há 33 anos, em 10 de abril de 1993, o líder revolucionário Chris Hani era assassinado na África do Sul. Ele foi executado a tiros por Janusz Walus, um supremacista branco ligado ao Partido Conservador, incomodado com o processo de redemocratização no país.

Dirigente do Partido Comunista Sul-Africano, Chris Hani foi um dos maiores líderes da luta contra o apartheid. Ele comandou as operações militares do uMkhonto weSizwe, o braço armado do CNA, e coordenou as operações de guerrilha e sabotagem contra o governo segregacionista da África do Sul.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Informação pronta para compartilhar
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize em Opera Mundi

Hani também lutou ao lado do Exército Revolucionário Popular do Zimbábue na Guerra Civil da Rodésia. Seu assassinato enfureceu a população sul-africana, resultando em uma onda de protestos que levou milhões de pessoas às ruas do país.

Juventude e formação

“Chris Hani” era o pseudônimo de Martin Thembisile Hani, nascido em 28 de junho de 1942 em Cofimvaba, uma aldeia Xhosa na região do Cabo Oriental, África do Sul. Ele era o quinto dos seis filhos de Mary e Gilbert Hani. A família vivia em condições precárias e três irmãos de Hani morreram ainda na infância.

Mais lidas

Operário da construção civil, Gilbert passava longos períodos longe de casa, buscando trabalho nos grandes centros urbanos. Assim, Hani teve de começar a trabalhar muito cedo, ajudando a mãe na lavoura e na criação do gado. Conciliava o trabalho com os estudos em uma escola católica da região.

Por influência dos professores, Hani se tornou muito religioso na infância. Ele chegou a servir como coroinha e tinha o sonho de se tornar padre. Contrariado com a ideia, seu pai o transferiu para uma escola secular em Cala. Foi nesse período que Hani se aproximou da luta contra o regime segregacionista do apartheid. O jovem viu vários de seus professores serem perseguidos e demitidos por protestarem contra a Lei de Educação Bantu.

Aprovada pelo governo sul-africano em 1953, a nova lei criava um sistema educacional específico para a população negra, ofertando um ensino de qualidade inferior, voltado exclusivamente ao preparo dos alunos para o trabalho braçal. A mobilização contra a Lei de Educação Bantu teve grande impacto na formação política de Hani. Ele também foi muito influenciado pelo pai, que se tornaria ativo no movimento sindical e militante do Congresso Nacional Africano (CNA), a principal organização de resistência ao apartheid.

Em 1957, Hani se matriculou no Instituto Lovedale, a escola missionária em Alice onde concluiu o ensino secundário. Nesse mesmo ano, ele se filiou à Liga da Juventude do CNA e passou a se dedicar com afinco à militância política — em especial, os protestos convocados contra o indiciamento e prisão dos membros da Aliança do Congresso, uma frente de oposição às políticas segregacionistas.

Entre 1959 e 1961, Hani estudou na Universidade de Fort Hare – primeira universidade sul-africana a ministrar cursos para estudantes negros e “alma mater” de líderes como Nelson Mandela e Oliver Tambo. Posteriormente, transferiu-se para a Universidade de Rhodes, onde se formou em 1962, obtendo o bacharelado em Latim e Inglês.

Durante a graduação, ele se aprofundou no estudo do marxismo e das teorias socialistas e desenvolveu a percepção de que o racismo era um elemento intrínseco da exploração capitalista. Também atuou nas lutas do movimento estudantil, em especial a campanha contra a Lei de Extensão do Ensino Universitário, que criminalizou o ingresso de pessoas negras em universidades frequentadas por brancos.

Partido Comunista, MK e a luta armada na Rodésia

Em 1961, Hani se filiou ao Partido Comunista Sul-Africano (SACP). Embora tivesse sido banida após a promulgação da Lei de Supressão do Comunismo, a agremiação foi reformulada e seguiu atuando clandestinamente na luta contra o regime do apartheid.

No ano seguinte, Hani também ingressou no uMkhonto weSizwe (dito MK, ou “A Lança da Nação”), o braço armado do Congresso Nacional Africano. Fundado por Nelson Mandela após o Massacre de Sharpeville, o MK articularia uma série de ações de enfrentamento armado, guerrilha, boicote e sabotagem contra o governo da África do Sul.

Hani se consagraria como uma das principais lideranças do MK na região do Cabo Ocidental, integrando o chamado “Comitê dos Sete”. Ainda em 1962, o sul-africano foi detido portando panfletos com críticas ao governo. Ele seria condenado a 18 meses de prisão, mas conseguiu fugir enquanto aguardava o julgamento de um recurso. Foi quando adotou o pseudônimo “Chris”, nome real de um de seus irmãos, e passou a viver sob identidade falsa na Cidade do Cabo e em Joanesburgo.

Seguindo a orientação do Partido Comunista, Hani se exilou na União Soviética, onde obteve treinamento militar e aprendeu táticas de guerrilha. Ele retornou para o continente africano em 1967, assumindo o posto de comissário político junto ao Exército Revolucionário Popular do Zimbábue (ZIPRA) e se engajando na Guerra Civil da Rodésia ao lado dos combatentes nacionalistas.

Hani integrou o chamado Destacamento Luthuli, uma força conjunta de guerrilheiros do ZIPRA e do MK, ativa em diversas campanhas contra o regime segregacionista da Rodésia. Além de apoiar a luta de libertação do povo zimbabuano, as operações visavam estabelecer as bases operacionais para uma futura ofensiva contra o governo da África do Sul.

A principal contribuição de Hani na Guerra Civil da Rodésia ocorreu no âmbito da Campanha de Wankie. O revolucionário sul-africano liderou uma coluna de guerrilheiros oriundos da Zâmbia e travou importantes batalhas contra as forças da Rodésia na região do Parque Nacional Hwange.

As ações armadas ajudaram a consolidar as alianças entre os movimentos revolucionários africanos e tiveram grande importância simbólica para a causa independentista, mas foram militarmente derrotadas pelo governo rodesiano. Cercado por tropas inimigas, Hani ainda conseguiu fugir para Botsuana, mas acabou sendo capturado e permaneceu na cadeia por dois anos.

O exílio em Lesoto e na Tanzânia

Após sua libertação, Hani voltou para a Zâmbia e retomou seu trabalho ao lado das forças insurgentes. A atuação na luta armada o projetou como uma das principais lideranças do movimento revolucionário sul-africano e contribuiu para sua ascensão à cúpula dirigente do MK.

Incomodado com a falta de apoio durante o período em que ficou encarcerado, Hani criticou duramente os líderes do MK e do CNA. Ele recriminou a “moderação excessiva” da coordenação civil, pressionando por um maior comprometimento e integração com a luta armada. As críticas de Hani levaram à realização da Conferência de Morogoro e à subsequente criação do Conselho Revolucionário, que possibilitou o ingresso de não-negros nas fileiras do CNA.

Em 1974, após uma breve passagem clandestina pela África do Sul, Hani se mudou para Lesoto. Permaneceu nesse país por sete anos, organizando células do MK e coordenando as operações de guerrilha transfronteiriças. Casou-se na mesma época com a ativista Limpho Sekamane, com quem teve três filhas: Neo, Nomakhwezi e Lindiwe.

Em 1982, Hani foi eleito integrante do Conselho Executivo Nacional do CNA. Ele se mudou então para Lusaka, capital da Zâmbia e sede do quartel-general da organização. Hani também assumiria o cargo de vice-comandante e, posteriormente, de chefe de gabinete do MK.

Sob a liderança de Hani, o movimento insurgente da África do Sul chegaria ao seu ápice. A partir das bases estabelecidas na África Austral (Zâmbia, Lesoto, Tanzânia, Angola e Moçambique), ele executou diversas operações de sabotagem e ataques coordenados contra instalações do governo sul-africano.

Hani buscou unificar a luta armada e a mobilização política das massas, incentivando as greves, os protestos e atos de desobediência civil, pavimentando o caminho para as “Revoltas dos Townships”. Ele atuou ainda na articulação internacional do movimento, ajudando a difundir a campanha mundial contra o apartheid.

As ações de Hani o transformaram em um alvo prioritário do governo sul-africano. Ele sobreviveu a várias tentativas de assassinato, incluindo um ataque terrorista com carro-bomba. Também teve papel central para garantir a unidade do movimento revolucionário, agindo rapidamente para suprimir os motins de dissidentes anticomunistas em Angola.

: Chris Hani. Via Fundação Rosa Luxemburgo
wikimedia

O retorno à África do Sul e o assassinato

A vigorosa luta popular, a mobilização política interna, as ações da guerrilha e o crescente isolamento diplomático levaram o regime do apartheid a uma profunda crise, forçando o governo sul-africano a fazer uma série de concessões.

Em fevereiro de 1990, o presidente sul-africano Frederik Willem de Klerk anunciou a legalização do Partido Comunista e a libertação de Nelson Mandela. Em março, Hani retornou para a África do Sul, encerrando um exílio de 28 anos.

O retorno de Hani foi recebido com enorme entusiasmo popular. Ele já era amplamente reconhecido como um dos principais líderes da luta contra o apartheid e era visto por muitos como o sucessor natural de Mandela. Hani assumiu papel de destaque na transição política, defendendo a continuidade da mobilização popular e a necessidade de garantir que o fim do apartheid resultasse em mudanças sociais profundas, e não apenas em uma transição formal de poder.

Hani substituiu Joe Slovo como secretário-geral do Partido em 1991. Diante da crise do socialismo na Europa e da dissolução da União Soviética, ele renunciou ao cargo de chefe de gabinete do MK para se dedicar exclusivamente à rearticulação do partido.

O líder comunista viajou pelo país inteiro, discursando nas “townships”, sindicatos e assembleias populares. Sua presença nas ruas e nos comícios inflamava multidões. Hani apoiou a suspensão da luta armada em prol do avanço das negociações, mas advertiu contra o abandono da transformação econômica. Defendia a nacionalização de setores estratégicos, a reforma agrária e a ampliação dos direitos trabalhistas e dos programas sociais.

O assassinato

Chris Hani foi assassinado em 10 de abril de 1993, quando retornava para sua casa em Boksburg, uma cidade nos arredores de Joanesburgo. Ele foi executado com quatro tiros à queima-roupa disparados por Janusz Walus, um imigrante polonês de extrema-direita.

O assassino de Hani era ligado ao Movimento de Resistência Africâner (AWB), uma organização supremacista e neonazista responsável por uma série de atentados contra lideranças negras da África do Sul. Ele foi auxiliado por Clive Derby-Lewis, um dirigente do Partido Conservador, que forneceu o endereço de Hani e a arma usada no crime.

O objetivo do assassinato era inflamar as tensões raciais e paralisar as negociações de transição, impedindo a realização das eleições. A morte de Chris Hani enfureceu os sul-africanos. Milhões de pessoas saíram às ruas em protestos e manifestações e uma enorme greve geral paralisou o país. Mandela e Frederik Willem de Klerk tiveram de fazer um pronunciamento conjunto na televisão para tentar acalmar os ânimos.

A morte de Hani também interrompeu a ascensão política do Partido Comunista, que despontava como um dos favoritos para o pleito seguinte, ameaçando o domínio político do CNA. Esse fato despertou desconfianças sobre o possível envolvimento de atores políticos do campo progressista e até a hipótese de intervenção externa em seu assassinato.

Janusz Walus e Derby-Lewis foram presos e condenados à pena de morte em outubro de 1993, mas tiveram suas sentenças comutadas em prisão perpétua. Os assassinos solicitaram anistia alegando que suas ações foram atos políticos, mas os argumentos foram rejeitados pela Comissão da Verdade e Reconciliação.

Derby-Lewis foi libertado por razões humanitárias em junho de 2015, falecendo de câncer no ano seguinte. Walus permaneceu preso até 2022, quando recebeu a liberdade condicional. Ele foi deportado para a Polônia em 2024 – uma decisão que causou indignação entre os sul-africanos.