Segunda-feira, 20 de abril de 2026
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O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, anunciou nesta semana um novo projeto de privatização do Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, o Complexo do Ibirapuera.

Inaugurado em 1957, o conjunto desportivo está entre os maiores da América Latina. O espaço tem grande importância para a história do esporte brasileiro, tendo sediado grandes eventos e servido como centro de treinamento para alguns dos maiores atletas do país.

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A despeito de sua relevância para a formação de atletas e para o fomento à democratização do esporte, o complexo foi submetido a um longo processo de sucateamento e descaracterização. As piscinas foram esvaziadas, as quadras foram convertidas em depósitos, o estádio está abandonado e a pista de atletismo foi destruída. Até mesmo a possibilidade de demolir o conjunto para transformá-lo em shopping center já foi aventada.

O complexo

A ideia de construir o complexo esportivo remonta ao Plano de Avenidas elaborado por Francisco Prestes Maia entre as décadas de 1920 e 1930. Considerado um marco histórico do urbanismo brasileiro, o plano buscava responder à necessidade de dotar a cidade de espaços não subordinados à lógica dos interesses industriais e da especulação imobiliária, incentivando a sociabilização, as atividades culturais e o lazer urbano.

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Em paralelo ao Plano de Avenidas, a prefeitura de São Paulo também previa a criação de um parque a ser instalado em uma área alagadiça nos arredores da Vila Mariana. O primeiro desenho do espaço foi concebido por Reynaldo Dierberger. O projeto seria posteriormente reformulado, dando origem ao atual Parque do Ibirapuera.

A construção do parque e do complexo esportivo só saíram do papel décadas mais tarde, em meio às celebrações do quarto centenário da cidade de São Paulo, comemorado em 1954.

O complexo foi erguido em um terreno lindeiro ao Parque do Ibirapuera, abrangendo uma área de quase 100 mil metros quadrados. O projeto arquitetônico do conjunto é de autoria de Ícaro de Castro Melo, ex-atleta olímpico e campeão sul-americano de salto em altura. As obras enfrentaram atrasos, problemas com as construtoras e greves por falta de pagamento, prorrogando a inauguração para 25 de janeiro de 1957.

À época da inauguração, o Ginásio do Ibirapuera tinha capacidade para até 20.000 pessoas, estando entre as maiores arenas do continente. Sua icônica cúpula branca, elevando-se a 38 metros do solo e com 40 metros de diâmetro, destacava-se na paisagem da cidade. O partido arquitetônico se destacava pela versatilidade, com um sistema de arquibancadas desmontáveis e uma moderna infraestrutura de imprensa.

As reformas posteriores diminuíram a capacidade da arena pela metade, mas o Ginásio do Ibirapuera seguiria como a maior arena poliesportiva coberta de São Paulo. O complexo conta ainda com uma segunda arena coberta, o Ginásio Mauro Pinheiro, apta a abrigar um público de até 3.000 pessoas.

Também fazem parte do complexo o Conjunto Aquático, com dez piscinas aquecidas e tanque de saltos, o Estádio Ícaro de Castro Melo, com capacidade para abrigar 13.400 pessoas sentadas, e o Palácio do Judô. O complexo conta ainda com três auditórios, alojamento para 340 pessoas, salas de condicionamento físico, sala de arco e flecha, pista de corrida, parque recreativo, quadras de tênis e quadras poliesportivas descobertas.

Complexo do Ibirapuera
Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo

Serviços e eventos

O conjunto é frequentado por milhares de pessoas todos os dias, entre atletas profissionais, amadores e populares. É um dos principais espaços de acesso livre e gratuito para a prática desportiva em São Paulo, oferecendo aulas de natação, hidroginástica, escolas de basquete, ginástica olímpica, esgrima, futebol de salão, boxe, judô e voleibol, além de atividades para pessoas com deficiência.

O Conjunto Desportivo foi palco de inúmeros eventos de grande importância para a história do esporte brasileiro e mundial. Em 1963, o conjunto abrigou várias competições dos Jogos Pan-Americanos de São Paulo. Em 1971, serviu de palco para duas lutas protagonizadas pelo célebre pugilista Muhammad Ali.

O Ginásio do Ibirapuera sediou três edições do Campeonato Mundial de Basquete Feminino — incluindo o campeonato de 1971, quando o Brasil conquistou a medalha de bronze. Também sediou o Campeonato Mundial Interclubes de Basquete de 1979, vencido pelo clube brasileiro E.C. Sírio, de Oscar, Marcel, Marquinhos Abdalla e Saiani. O Campeonato Mundial Feminino de Vôlei de 1994, vencido por Cuba, e a Liga Mundial de 1993, vencida pelo Brasil, também foram sediados no local.

O conjunto desportivo abrigou os jogos do Mundial de Handebol de 2011 e a Copa do Mundo de Judô, no mesmo ano. Sediou o ATP Challenger Tour Finals e testemunhou a vitória de Rafael Nadal no Brasil Open de 2013. Outros grandes tenistas exibiram seus talentos no complexo, tais como Guga, Pete Sampras, Jimmy Connors, Roger Federer, Maria Sharapova, Victoria Azarenka e Serena Williams.

Entre os pugilistas brasileiros, Éder Jofre, Popó, Adilson Maguila e Miguel de Oliveira também lutaram no local. O complexo também abrigou a Copa do Mundo de Ginástica Artística de 2006, quando Daiane dos Santos e Diego Hypólito se sagraram campeões no solo.

O estádio já sediou jogos da Portuguesa, Grêmio, Santos, Coritiba, Vitória e América Mineiro. O espaço foi utilizado pelo Santos durante a reforma da Vila Belmiro e pelo Corinthians em 1996. Foi o palco da vitória santista sobre o Peñarol do Uruguai durante a Supercopa Libertadores.

Mais recentemente, o espaço tem abrigado competições de novas modalidades de esportes de combate. Em 2012, sediou o WWE RAW World Tour. Em 2013, abrigou um evento do UFC, vencido por Vitor Belfort.

O conjunto é um dos principais espaços de formação de atletas de elite no Brasil. Maurren Maggi, campeã olímpica de salto em distância, e Robson Caetano, recordista sul-americano da prova dos 100 metros rasos, moraram e treinaram no complexo durante anos.

Importantes nomes da música também se apresentaram no espaço, tais como Tom Jobim, Chico Buarque, Legião Urbana, Rolling Stones, Metallica, Bob Dylan e Elton John.

Sucateamento

Apesar da enorme importância do complexo para a história e o desenvolvimento do esporte brasileiro, as sucessivas gestões do PSDB em São Paulo iniciaram um processo de sucateamento e desmonte, reduzindo verbas, cortando programas e atividades e abandonando completamente a manutenção do espaço.

Em 2010, todas as piscinas do Conjunto Aquático já estavam esvaziadas e acumulando lixo. As quadras poliesportivas estavam sem uso, convertidas em depósitos de equipamentos velhos. O Estádio Ícaro de Castro Melo ficou abandonado por uma década, com as cadeiras da arquibancada quebradas ou arrancadas.

Federações esportivas que funcionavam no local foram expulsas. Corredores de rua e até atletas de alto rendimento como Fabiana Murer foram impedidos de treinar no complexo. Quase todos os programas públicos de fomento ao esporte que funcionavam no conjunto foram encerrados.

A primeira proposta para privatização do espaço foi formulada ainda em 2005, após o Ginásio do Ibirapuera ser interditado por falta de segurança. Em resposta, o então governador Geraldo Alckmin propôs a entrega do espaço à iniciativa privada por 15 anos.

A ideia foi abandonada após encontrar forte resistência, mas foi retomada pelo próprio Alckmin em 2017, com uma nova proposta de concessão pelo prazo de 30 anos. O governador alegava que a manutenção do espaço era insustentável, causando um prejuízo anual aos cofres públicos de mais de R$ 7 milhões.

De Dória a Tarcísio

A proposta de concessão seria radicalizada durante a gestão de João Dória. Em novembro de 2020, atendendo aos interesses da especulação imobiliária, o governador apresentou novo projeto para privatizar o espaço, propondo a demolição das estruturas para construir um hotel, um shopping center, edifícios comerciais e uma arena multiuso.

Atletas olímpicos, militantes de movimentos sociais, parlamentares de esquerda e urbanistas reagiram à proposta, organizando protestos, abaixo-assinados e atos públicos.

Visando impedir a destruição do espaço, um grupo de pessoas protocolou um pedido de tombamento junto ao Condephaat, o órgão do governo paulista responsável pela preservação e gestão do patrimônio histórico do estado. A despeito da importância do conjunto, o pedido foi rejeitado, abrindo caminho para a demolição.

Uma decisão judicial da 2ª Vara de Fazenda Pública impediu que Dória concluísse a venda do complexo. Ao mesmo tempo, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) decretou o tombamento provisório do conjunto, visando impedir sua destruição.

Os ataques contra o Complexo do Ibirapuera foram retomados no governo de Tarcísio de Freitas. Em fevereiro de 2024, o governador autorizou a destruição da pista de atletismo do Estádio Ícaro de Castro Melo. A remoção visava adaptar o local para receber um evento de drift. A pista de atletismo do conjunto era uma das únicas quatro pistas certificadas pela Associação Internacional das Federações de Atletismo no Brasil.

Em 23 de março de 2026, Tarcísio de Freitas apresentou um novo plano para a privatização do Complexo do Ibirapuera e da Vila Olímpica Mário Covas, localizada na Rodovia Raposo Tavares.

A proposta de Tarcísio prevê que o poder público reforme e modernize o conjunto desportivo antes de repassá-lo para a iniciativa privada. Entre as obras propostas estão a construção de um centro comercial, a demolição de galpões e alojamentos e a construção de um hotel com até 10 metros de altura no espaço onde hoje ficam as quadras de tênis.