Crimes da ditadura: 50 anos do assassinato de Tenorinho
Ícone do samba jazz e da bossa nova, Francisco Tenório Cerqueira Júnior desapareceu em Buenos Aires em 1976, vítima da Operação Condor apoiada pelos EUA na América Latina
Há 50 anos, em 18 de março de 1976, desaparecia em Buenos Aires o pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Júnior, mais conhecido como Tenorinho. Ele era um dos ícones do samba jazz e da bossa nova e despontava como uma das grandes promessas de sua geração.
Tenorinho estava na capital argentina acompanhando Vinícius de Moraes e Toquinho em uma turnê. Ao sair do hotel onde estava hospedado, o pianista foi interceptado por agentes da repressão e levado a um centro clandestino de detenção, onde foi torturado e assassinado.
O músico brasileiro foi uma entre as dezenas de milhares de pessoas assassinadas pela Operação Condor, uma campanha de repressão política mantida pelas ditaduras sul-americanas e apoiada pelo governo dos Estados Unidos.
Quem foi Tenorinho
Francisco Tenório Cerqueira Júnior nasceu no Rio de Janeiro em 4 de julho de 1940. Era filho da dona de casa Alcinda Lourenço e de Francisco Tenório Cerqueira, um delegado de polícia.
Tenorinho cresceu no bairro de Laranjeiras, na Zona Sul do Rio. Estudou no Colégio Santo Antônio Maria Zaccaria, um dos mais tradicionais do Catete, e iniciou sua trajetória artística aos 15 anos de idade, tocando violão e acordeão. Ele chegou a se matricular na Faculdade Nacional de Medicina, mas não concluiu o curso, preferindo se dedicar integralmente à carreira de músico.
Foi como pianista que Tenorinho encontrou sua verdadeira vocação. Ele se tornou um frequentador assíduo dos bares, boates e shows intimistas do “Beco das Garrafas”, endereço histórico de Copacabana que se consagraria como o berço da bossa nova.
No início dos anos 60, Tenorinho se juntou a Zezinho, Milton Banana, Paulo Moura, Meirelles, Raul de Souza e Hamilton para fundar o grupo de jazz “Os Cobras”. A banda lançou um álbum bastante elogiado, intitulado “O LP”.
Não demorou para que Tenorinho chegasse ao estrelato e ganhasse fama internacional. Seu estilo unia a sofisticação harmônica do jazz à expressividade rítmica do samba, além de elementos do hard bop. Era descrito como um “pianista de mãos de ouro”.
Em 1964, Tenorinho lançou “Embalo”, seu único álbum solo. O disco fez muito sucesso e angariou elogios pela experimentação e liberdade criativa. O pianista se consagrou como um dos grandes ícones da bossa nova e trabalhou ao lado de nomes como Leny Andrade, Edison Machado, Victor Assis Brasil, Wanda Sá, Gal Costa e Milton Nascimento.

Tenório Júnior
Via Agência Brasil / EBC Serviços
O desaparecimento
Em março de 1976, Tenorinho viajou para a Argentina acompanhando a banda de Vinícius de Moraes e Toquinho durante uma turnê pelo Cone Sul. Os brasileiros tinham três apresentações marcadas no Teatro Gran Rex, na Avenida Corrientes, o epicentro da vida boêmia de Buenos Aires.
Na madrugada de 18 de março de 1976, após o término de uma das apresentações, Tenorinho deixou o Hotel Normandie, no centro de Buenos Aires. O pianista deixou um bilhete no qual dizia “Vou sair para comprar cigarro e um remédio. Volto logo”. Ele nunca mais foi visto.
Desesperado com o desaparecimento do amigo, Vinícius de Moraes começou a procurar por Tenorinho nos hospitais, delegacias, necrotérios e prisões de Buenos Aires. O poeta pediu ajuda para a Embaixada do Brasil na Argentina, mas foi ignorado.
A única pista que os brasileiros conseguiram obter evidenciava o envolvimento das forças de segurança. Tenorinho havia desaparecido na mesma madrugada em que a polícia e o Exército Argentino realizavam uma grande blitz, com dezenas de pessoas detidas.
A ditadura argentina
O desaparecimento de Tenorinho ocorreu seis dias antes do golpe militar que derrubou a presidente Isabelita Perón. A quartelada, liderada pelo tenente general Jorge Rafael Videla, instaurou uma das ditaduras mais sangrentas do século 20.
Antes mesmo do golpe, as Forças Armadas da Argentina já tinham imposto sua tutela sobre o governo civil e dividido o país em regiões militarizadas. Iniciou-se uma violenta política de repressão contra a esquerda e os movimentos sociais, com prisões em massa, torturas e execuções sumárias.
Com a instituição da ditadura, esse processo se agravou, iniciando a chamada Guerra Suja. O governo argentino promoveu uma verdadeira política de terrorismo de Estado, cometendo o extermínio de civis em larga escala. Estima-se que mais de 30.000 pessoas foram assassinadas pelo regime.
A política de repressão argentina estava diretamente vinculada à Operação Condor — uma iniciativa secreta de cooperação entre as ditaduras sul-americanas. Financiada e coordenada pelos Estados Unidos, a operação visava exterminar opositores e desarticular os movimentos sociais, as organizações operárias e os partidos políticos de esquerda.
O assassinato de opositores foi tão generalizado que se converteu em um processo genocida. Os alvos eram estudantes, professores, ativistas, sindicalistas, militantes, artistas, etc. Mesmo pessoas que não tinham quaisquer vínculos com política foram executadas.
Esse foi o caso de Tenório Júnior. O pianista brasileiro não era ligado a partidos ou movimentos políticos. Sequer costumava conversar sobre política. O músico provavelmente foi confundido com um militante pela sua aparência — andava barbado, com cabelo grande, trajando roupas casuais.
Dois dias após o desaparecimento do brasileiro, a polícia argentina registrou ter encontrado o corpo de um homem morto a tiros em um terreno baldio na cidade de Tigre, nos subúrbios de Buenos Aires. O homem foi sepultado como indigente, sem identificação.
Tenorinho tinha 35 anos quando desapareceu. Ele deixou cinco filhos — Elisa, Francisco, Margarida, João Paulo e Leonardo. A esposa, Carmen Cerqueira Magalhães, estava grávida da quinta criança quando o músico desapareceu. Ela faleceu em 2019, após passar décadas tentando localizar os restos mortais do marido.
O relato de Vallejos e a identificação dos restos mortais
Dez anos após o desaparecimento, Cláudio Vallejos, um ex-agente do serviço secreto da Marinha Argentina, afirmou em uma entrevista que Tenorinho teria sido capturado por uma patrulha militar no centro de Buenos Aires e levado para a Escola Superior de Mecânica da Armada (ESMA).
A escola militar abrigava um centro de operações clandestino da ditadura, onde mais de 5.000 pessoas foram assassinadas. Conforme Vallejos, Tenório teria ficado preso nas instalações da ESMA por nove dias, sofrendo espancamentos e torturas. Em 27 de março de 1976, ele teria sido executado com um tiro na cabeça.
A alegação de Vallejos, entretanto, foi desmentida pela revelação posterior de que o cadáver encontrado na cidade de Tigre em 20 de março de 1976 era mesmo de Tenorinho. Hoje se sabe, portanto, que as datas informadas por Vallejos eram falsas — o que levanta a possibilidade de que todo o seu relato tenha sido fabricado.
Vallejos também afirmou que agentes brasileiros ligados ao Serviço Nacional de Informações (SNI) acompanharam as torturas e a execução de Tenório. Essa afirmação foi referendada pelo livro “Operación Condor: Pacto Criminal”, da jornalista argentina Stella Calloni.
Segundo Stella, o major Baptista Vieira estaria presente e teria concordado com o assassinato, dizendo que o músico era “amigo de comunistas”. O executor seria Alfredo Astiz, infame carrasco da ditadura argentina, condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade. Essa afirmação, no entanto, também é contestada em função das descobertas posteriores.
O caso permaneceu sem solução até 13 de setembro de 2025, quando a Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) informou que havia identificado os restos mortais do pianista brasileiro. A EAAF é uma organização independente que há décadas se dedica a procurar os restos mortais das vítimas da ditadura militar argentina.
Por ordem da Câmara Federal de Apelações Criminais e Correcionais de Buenos Aires, a EAAF comparou as impressões digitais do homem sepultado como indigente em 1976 com os registros de Tenório arquivados no Brasil, confirmando que se tratava da mesma pessoa.
O desaparecimento de Tenorinho foi abordado em livros e filmes. Rogério Lima produziu dois documentários sobre o tema: “Balada para Tenório”, lançado em 1983, e “Tenório Jr.?”, de 1986, exibido no Festival de Cinema e Vídeo do Rio de Janeiro. Em 1997, Frederico Mendonça de Oliveira lançou o livro “O Crime contra Tenório”, reconstituindo as últimas informações conhecidas sobre o músico.
O caso Tenorinho também foi retratado no documentário animado “Atiraram no Pianista”, dos espanhóis Fernando Trueba e Javier Mariscal. A obra foi indicada ao Prêmio Goya de melhor animação.























