Quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
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Há cinco anos, em meados de janeiro de 2021, a cidade de Manaus, capital do Amazonas, enfrentava uma das piores crises sanitárias da história do Brasil. No auge da pandemia de COVID-19, o sistema de saúde local colapsou devido à falta de oxigênio hospitalar, levando a dezenas de mortes por asfixia e resultando em caos generalizado nos hospitais.

O colapso expôs a negligência governamental na gestão da pandemia. Uma série de erros sucessivos e falhas logísticas agravaram enormemente o quadro. A tragédia só não foi maior graças à solidariedade da Venezuela. Ignorando as tensões políticas com o governo brasileiro, o presidente Nicolás Maduro enviou 136 mil metros cúbicos de oxigênio para Manaus, garantindo alívio temporário para o sistema de saúde amazonense.

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A pandemia no Amazonas

O Amazonas foi um dos estados brasileiros mais afetados pela pandemia de COVID-19, desde que a doença começou a se espalhar pelo país em fevereiro de 2020. Ao longo do ano, as taxas de letalidade e de infecção no estado ficaram bem acima das respectivas médias nacionais.

Entre março e junho de 2020, Manaus chegou a ficar sem leitos hospitalares e enfrentou sobrecarga em seu sistema funerário, tendo de enterrar pessoas em covas coletivas. A taxa de infecção somente começou a ceder em julho, mas voltou a aumentar já no fim do ano.

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A crise nas redes hospitalares do Amazonas resultou da negligência dos governos local e federal, aliados à precariedade das condições socioeconômicas e sanitárias. O Amazonas tem a maior quantidade de trabalhadores informais do país (71,7% da força de trabalho) e em sua capital 53% da população vive em moradias precárias.

Dessa forma, as autoridades governamentais não conseguiram oferecer alternativas reais para que a população seguisse os protocolos sanitários de isolamento e distanciamento social, ao mesmo tempo em que negligenciaram a oferta de leitos, insumos e recursos humanos para uma possível segunda onda da COVID-19.

O governador amazonense, Wilson Lima, então filiado ao Partido Social Cristão (PSC), cedeu às pressões de parlamentares e ideólogos bolsonaristas e retrocedeu em sua decisão de fechar o comércio em dezembro de 2020, após a alta galopante nas internações indicar a possibilidade de colapso iminente do sistema de saúde.

O governo Bolsonaro, por sua vez, mesmo sendo informado com dez dias de antecedência sobre a possível crise no abastecimento de oxigênio hospitalar em Manaus, não tomou nenhuma medida para evitar o colapso. Ao contrário: aumentou os impostos sobre a importação de cilindros de oxigênio e interrompeu o transporte dos cilindros realizados pela Força Aérea Brasileira no dia 13 de janeiro.

O governo federal alegou que a aeronave que faria o transporte dos cilindros estava em manutenção, ao mesmo tempo em que despachava um cargueiro KC-390 para um treinamento nos Estados Unidos.

Chegada de oxigênio em Parintins, Amazonas
wikimedia/ Liam Cavalcante/Amazônia Real

O colapso

Em dezembro de 2020, Manaus testemunhou mais uma explosão de casos de COVID-19. Uma nova variante do vírus, ainda mais transmissível, passou a circular pela cidade, acelerando exponencialmente o contágio. O descompasso entre o aumento da demanda e a capacidade de atendimento da rede assistencial levou a um novo colapso do sistema de saúde local.

Em pouco tempo, o consumo diário de oxigênio hospitalar saltou de 15 mil metros cúbicos para 76 mil metros cúbicos, superando em larga escala a capacidade de produção dos fornecedores no estado. Em 11 de janeiro, a White Martins alertou o governo sobre a crise sanitária iminente, mas nenhuma providência foi tomada.

Três dias depois, em 14 de janeiro de 2021, o estoque de oxigênio de Manaus chegou ao fim. Nos hospitais, o cenário era de horror. Enfermeiros tiveram que ventilar pacientes manualmente com ambus, enquanto familiares desesperados partiam em busca de cilindros. Em uma triagem cruel, os médicos eram forçados a decidir quais pacientes precisavam mais de oxigênio.

Os pacientes internados com problemas respiratórios começaram a morrer asfixiados. Nas maternidades, os bebês prematuros também entraram em risco de morte. Centenas de pacientes tiveram de ser transferidos para hospitais do Nordeste e do Centro-Oeste e o sistema funerário manauara novamente entrou em colapso, sendo necessário utilizar câmaras frigoríficas para conservar os corpos.

O Serviço de Pronto Atendimento (SPA) do Alvorada fechou as portas após esgotar sua capacidade de atendimento. Cirurgias foram canceladas e o atendimento a pacientes de doenças crônicas foi bastante afetado. Estima-se que mais de 60 pessoas morreram devido à falta de oxigênio durante a crise em Manaus. Até o início de março, a capital amazonense registraria mais de 4.400 óbitos por COVID.

O governador do Amazonas decretou o fechamento do comércio e toque de recolher. Personalidades como o humorista Whindersson Nunes e o cantor Gusttavo Lima lançaram campanhas de doação de cilindros de oxigênio para o estado.

A ajuda venezuelana

Em meio ao caos, o governo venezuelano, então sob a presidência de Nicolás Maduro, anunciou a oferta de ajuda humanitária. No dia 14 de janeiro, o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, comunicou publicamente que o estoque de oxigênio do país vizinho estaria à disposição para socorrer os pacientes de Manaus.

A oferta foi feita diretamente ao governo do Amazonas, contornando o governo federal brasileiro, que não reconhecia Maduro como presidente legítimo. O líder venezuelano enfatizou a necessidade de humanismo e cooperação regional, independentemente de diferenças ideológicas: “Se algo deve vir em primeiro lugar entre nós, cristãos, neste momento, é a solidariedade”, afirmou.

A entrega envolveu uma operação logística desafiadora. Seis caminhões venezuelanos transportaram 136 mil metros cúbicos de oxigênio hospitalar doados pela Siderúrgica del Orinoco Alfredo Maneiro (Sidor), estatal venezuelana localizada em Puerto Ordaz.

O comboio percorreu mais de 1.500 quilômetros por estradas terrestres e chegou a Manaus no dia 19 de janeiro. A doação venezuelana ajudou a estabilizar unidades críticas e a salvar centenas de pacientes. Nicolás Maduro também disponibilizou 107 médicos vinculados à Escola Latino-Americana de Medicina, em Caracas, para auxiliar nos atendimentos em Manaus.

Wilson Lima agradeceu a ajuda venezuelana nas redes sociais e declarou em entrevista à imprensa que “nenhum outro país ofereceu qualquer ajuda além da Venezuela”, mas não se atreveu a criticar a falta de resposta dos seus aliados no governo Bolsonaro.