Segunda-feira, 1 de junho de 2026
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Há 126 anos, em 25 de maio de 1900, era criada no Rio de Janeiro a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Surgida com a missão de produzir medicamentos para combater as epidemias que assolavam o Brasil, a instituição se consolidou como um dos sustentáculos do sistema público de saúde.

A Fiocruz é um dos mais destacados centros de pesquisa em ciência e tecnologia da América Latina e uma referência mundial para a formulação de políticas públicas na área da saúde. É também uma das maiores produtoras de soros e vacinas do continente, respondendo por parte substancial dos imunizantes utilizados no SUS.

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A fundação

A criação da Fiocruz está diretamente ligada à epidemia de peste bubônica que atingiu o Brasil no fim do século 19. A doença chegou ao país por meio do porto de Santos, trazida por navios oriundos da Europa.

Após o surgimento dos primeiros casos no litoral paulista, a peste se espalhou pelos estados do Sudeste. Em 1900, o bacteriologista Oswaldo Cruz confirmou que a doença havia atingido o Rio de Janeiro, antiga capital federal.

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Diante da dificuldade para importar o soro antipestoso produzido por laboratórios europeus, as autoridades decidiram iniciar a produção do imunizante no Brasil. Em São Paulo, o governo estadual criou um laboratório para a produção do soro antipestoso, dando origem ao atual Instituto Butantan.

No Rio de Janeiro, o prefeito Cesário Alvim incumbiu o Instituto Vacínico Municipal de iniciar a produção do imunizante. Assim, em 25 de maio de 1900, foi inaugurado o Instituto Soroterápico. O laboratório foi instalado na Fazenda Manguinhos, na região de Inhaúma, Zona Norte do Rio de Janeiro.

O médico Pedro Afonso Franco assumiu a direção geral do Instituto Soroterápico, ao passo que Oswaldo Cruz foi nomeado como diretor técnico. Em 1908, o nome do órgão seria alterado para Instituto Oswaldo Cruz. Em 1972, tornou-se Fundação Oswaldo Cruz.

Reforma urbana e combate às epidemias

O instituto foi encampado pelo governo federal em 1901. No ano seguinte, Oswaldo Cruz assumiu sua direção. Durante a gestão do sanitarista, a Fiocruz expandiu enormemente sua atuação, convertendo-se em um centro de pesquisa médica e uma plataforma de apoio às reformas sanitárias que estavam sendo conduzidas na antiga capital.

Nomeado diretor-geral de Saúde Pública pelo presidente Rodrigues Alves, Oswaldo Cruz organizou campanhas de combate aos mosquitos transmissores da febre amarela, ações de extermínio de ratos para conter a peste bubônica e medidas rigorosas de higiene urbana.

Agentes sanitários passaram a vistoriar casas, eliminar focos de doenças e desinfetar áreas consideradas insalubres, enquanto a prefeitura promovia reformas urbanas e demolia cortiços do centro da cidade.

Embora apresentadas como medidas de importância sanitária, as reformas foram utilizadas como pretexto para expulsar a população pobre das regiões centrais do Rio de Janeiro. A realocação forçada e o autoritarismo dos agentes públicos causaram enorme descontentamento.

Em novembro de 1904, cansada das invasões domiciliares conduzidas por policiais e fiscais e desconfiada da obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, a população do Rio de Janeiro se rebelou, dando início à Revolta da Vacina. Os conflitos se agravaram rapidamente, resultando em 30 mortes, milhares de prisões e até uma tentativa de golpe de Estado.

Pesquisas pioneiras e organização da saúde pública

Apesar da resistência inicial e da repressão do governo, as reformas obtiveram resultados importantes, reduzindo drasticamente as epidemias e consolidando as bases para as futuras reformas sanitárias implementadas no país.

Em 1907, a peste bubônica e a varíola já estavam sob controle e a febre amarela havia sido erradicada no Rio de Janeiro. Por esse feito, Oswaldo Cruz e os demais pesquisadores da Fiocruz foram laureados com a medalha de ouro no 14º Congresso Internacional de Higiene e Demografia, sediado em Berlim em 1908.

Após a conclusão das reformas sanitárias no Rio de Janeiro, a Fiocruz ainda coordenaria uma série de expedições científicas pelos rincões do Brasil, ampliando as campanhas sanitárias e os esforços de imunização.

A Fiocruz também se destacaria por suas pesquisas pioneiras, que tiveram enorme importância para o avanço da medicina. A primeira patente pertencente à fundação foi obtida em 1908, quando Alcides Godoy desenvolveu a vacina contra o carbúnculo do gado.

Nesse mesmo ano, Adolfo Lutz, pesquisador da fundação, realizou a descrição completa do fungo responsável pela doença conhecida como “Mal de Lutz”. Em 1909, Carlos Chagas descreveu o ciclo completo da tripanossomíase americana — a doença de Chagas — permanecendo até hoje como o único cientista na história da medicina a identificar e descrever o ciclo completo de uma doença infecciosa.

Em 1916, Henrique da Rocha Lima descobriu a bactéria “Rickettsia prowazekii”, causadora do tifo. Pesquisadores da Fiocruz também foram os primeiros a descrever o ciclo da esquistossomose e a realizar pesquisas sistemáticas sobre a helmintíase.

Em 1920, a Fiocruz articulou a criação do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), um marco do desenvolvimento da estrutura de atendimento à saúde no país. Carlos Chagas, que substituiu Oswaldo Cruz como diretor da Fiocruz, assumiu também a gestão do DNSP.

Chagas foi responsável por reorganizar os serviços sanitários no Brasil, ocasião em que atribuiu à União a responsabilidade pela promoção e fiscalização dos serviços de saúde em todo o território nacional.

A partir da década de 1930, a Fiocruz ampliaria significativamente a produção de medicamentos imunizantes. Em 1937, a instituição inaugurou seu Serviço Especial de Profilaxia e iniciou a vacinação contra a febre amarela no Brasil. A Fiocruz se consolidaria como maior referência no combate à febre amarela, respondendo por 80% da produção mundial de imunizantes contra a doença.

Em 1954, foi fundada a Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), posteriormente vinculada à Fiocruz, que se tornaria referência em políticas públicas e conduziria o desenho de alguns dos projetos que mais tarde culminariam na implementação do Sistema Único de Saúde (SUS).

Da ditadura militar aos anos 90

Após o golpe de 1964 e a instalação da ditadura militar, a Fiocruz foi submetida a uma severa campanha persecutória, por abrigar em seus quadros vários cientistas críticos ao regime. As verbas da instituição passaram a ser contingenciadas, resultando na queda da produção de soros e vacinas.

Em 1970, o regime militar cassou, por dez anos, os direitos políticos de dez renomados cientistas que trabalhavam há décadas na Fiocruz. Os decretos de suspensão dos direitos civis (AI-5 e AI-10) também forçaram vários cientistas da Fiocruz à aposentadoria compulsória.

Os pesquisadores foram proibidos de prestar serviços aos órgãos públicos ou organizações subvencionadas com verbas do erário. O episódio, conhecido como “Massacre de Manguinhos”, resultou em um grande retrocesso para o desenvolvimento das políticas de saúde pública e para a pesquisa científica nacional.

Após a redemocratização, a Fiocruz conseguiu acesso a mais verbas para ampliar sua produção científica. Em 1987, uma equipe de pesquisadores liderados por Bernardo Galvão isolou pela primeira vez na América Latina o vírus HIV.

Em 1994, a Fiocruz criou o Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD), unidade técnico-científica especializada na saúde das populações amazônicas. Em 1999, a instituição inaugurou seu Museu da Vida, importante centro educacional na área de ciências. O instituto, entretanto, voltou a sofrer com o corte de verbas ao longo da década de 1990.

Palácio de Manguinhos, sede da Fiocruz no Rio de Janeiro. Fotografia de Karla Tauil
Wikimedia Commons

Últimas décadas

A partir de 2003, dotada de verbas adicionais, a Fiocruz conseguiu ampliar seu escopo de ação. Em 2006, a instituição anunciou o sequenciamento do genoma da vacina BCG e recebeu o Prêmio Mundial de Excelência em Saúde Pública.

Dois anos depois, a vacina contra a meningite meningocócica A e C produzida pela Fiocruz foi qualificada pela OMS para fornecimento às agências das Nações Unidas. Em 2009, a Fiocruz recebeu novo prêmio da OMS pelos trabalhos desenvolvidos no âmbito do Centro de Referência em Bancos de Leite.

Em 2013, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) autorizou a aquisição do medicamento antimalárico produzido pela Fiocruz para uso nos países latino-americanos. No ano seguinte, o antimalárico da Fiocruz tornou-se referência mundial após receber a certificação da OMS.

A Fiocruz está hoje entre as mais importantes instituições científicas do mundo. A instituição possui 16 unidades técnico-científicas voltadas ao ensino, à pesquisa e ao desenvolvimento científico e tecnológico no âmbito da saúde e responde por boa parte da produção nacional de soros e vacinas contra difteria, tétano, coqueluche, Hepatite B, Haemophilus influenza tipo B, meningite C e poliomielite.

A fundação mantém os laboratórios Bio-Manguinhos (maior centro produtor de vacinas, kits e reagentes para diagnóstico laboratorial de doenças infecto-parasitárias da América Latina) e Far-Manguinhos (responsável por produzir 1,6 bilhão de unidades de medicamentos por ano). Além de sua sede no bairro de Manguinhos, na Zona Norte do Rio de Janeiro, a Fiocruz mantém unidades em outros dez estados brasileiros além de um escritório internacional em Maputo, capital de Moçambique.

A partir de 2016, a Fiocruz sofreu sucessivos cortes orçamentários que afetaram sua produção científica. Em 2017, a instituição teve um corte de 30% em seu orçamento e em 2019 sofreu um contingenciamento adicional de mais de 40% dos recursos.

Pesquisadores da Fiocruz também sofreram um corte de 45% nas bolsas de pesquisa de mestrado e doutorado, o que forçou a instituição a paralisar as pesquisas de medicamentos contra febre amarela, zika, chikungunya e dengue.

A despeito dos retrocessos durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, a instituição teve uma contribuição fundamental na luta contra a pandemia de covid-19, produzindo testes moleculares em larga escala para uso no SUS e desenvolvendo uma vacina em parceria com a Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca. Em 2021, a Fiocruz produziu e entregou para o Ministério da Saúde mais de 150 milhões de doses da vacina contra a covid-19.

Em 2023, o governo Lula recompôs o orçamento da fundação e anunciou investimentos de R$ 2 bilhões na construção de uma nova planta industrial voltada à fabricação de produtos biológicos.