Sexta-feira, 14 de agosto de 2026
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Há 10 anos, em 3 de agosto de 2016, tinham início as primeiras competições dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Pela primeira vez na história, a América do Sul sediava uma Olimpíada de Verão. Os jogos se estenderam até o dia 21 de agosto, reunindo cerca de 11.000 atletas oriundos de 207 países e territórios.

Concebida durante o período de maior projeção internacional do Brasil, a Rio 2016 simbolizava a ambição de um país que buscava se consolidar como uma potência emergente. Entre a vitória da candidatura e o início dos jogos, no entanto, o cenário político se alterou drasticamente.

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Os jogos ocorreram em meio a uma grave crise política, em paralelo ao processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. A cobertura midiática internacional se caracterizou pela histeria e pelo alarmismo, difundindo previsões catastróficas sobre violência, epidemia do vírus Zika e colapso do sistema de transporte — nenhuma das quais se concretizou.

A candidatura

A candidatura do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos foi construída durante um período bastante favorável da história recente do Brasil. Ao término do segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o país experimentava crescimento econômico relativamente robusto, ampliação do mercado consumidor, fortalecimento das reservas internacionais e uma redução sem precedentes dos índices de pobreza.

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No campo das relações internacionais, o governo Lula se caracterizou pela tentativa de ampliar a influência do Brasil em organismos internacionais, fortalecer a cooperação com os países do Sul Global e ajudar a construir uma ordem internacional multipolar. Assim, os grandes eventos esportivos foram vistos como uma vitrine, apta a projetar a imagem do Brasil como uma potência regional em ascensão.

A candidatura do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos foi postulada em 2007, mesmo ano em que a cidade sediou os Jogos Pan-Americanos e em que a FIFA confirmou que o Brasil abrigaria a Copa do Mundo de 2014. Após uma campanha de dois anos, a metrópole brasileira angariou a maioria dos votos dos membros do Comitê Olímpico Internacional, derrotando três finalistas de peso: Madri, Tóquio e Chicago.

A vitória foi celebrada como uma conquista histórica para o Brasil e para toda a região. Era a primeira vez que os Jogos Olímpicos seriam realizados na América do Sul. O governo enfatizou a importância do evento para fomentar o desenvolvimento social e impulsionar melhorias urbanas.

As obras e as remoções

A Zona Oeste da cidade foi escolhida para sediar a maioria dos eventos, concentrados no Parque Olímpico do Rio de Janeiro. Diversas instalações foram construídas ou reformadas para abrigar as disputas, incluindo o Parque Aquático Maria Lenk, o Velódromo Olímpico e a Arena Olímpica.

Foram realizadas obras de revitalização na região central do Rio de Janeiro, como parte do projeto denominado “Porto Maravilha”. Obras de melhoria da infraestrutura urbana contemplaram a construção de 700 quilômetros de redes públicas de abastecimento de água, saneamento, eletricidade e telecomunicações, além de 70 quilômetros de estradas, 17 quilômetros de ciclovias e três novas estações de tratamento de esgoto. O custo das obras chegou a mais de 40 bilhões de reais.

A obra mais cara e aguardada dos Jogos Olímpicos foi a construção da Linha 4 do Metrô do Rio de Janeiro, uma linha de 16 quilômetros ligando Ipanema à Barra da Tijuca. A região central da cidade e a Zona Portuária passaram a ser servidas pelo VLT Carioca, um moderno sistema de bondes com 28 quilômetros de extensão, integrando metrôs, trens, ônibus e barcas. Também foi inaugurada uma rede de ônibus de trânsito rápido (BRTs) integrando a Zona Oeste à Zona Norte e reduzindo significativamente o tempo de deslocamento.

Embora tenham garantido importantes investimentos em infraestrutura e mobilidade urbana, os jogos também tiveram um custo social significativo, ensejando um ciclo de remoções forçadas e denúncias de violência e abuso policial. Mais de 22.000 famílias (ou 77.000 pessoas) foram desalojadas durante os preparativos para o evento.

A prefeitura do Rio de Janeiro alegou que 72% das remoções eram justificadas pela existência de riscos de desabamento, alagamento ou condições insalubres. Em contrapartida, movimentos sociais, pesquisadores e moradores denunciaram a existência de um processo de gentrificação, com intervenções concentradas em áreas de elevado interesse imobiliário. A falta de transparência, os valores das indenizações e a exclusão das comunidades afetadas nas discussões sobre a realocação também geraram críticas.

O caso mais emblemático foi o da Vila Autódromo, comunidade localizada ao lado do Parque Olímpico da Barra da Tijuca, que há décadas sofria com as pressões derivadas da especulação imobiliária. As autoridades do Rio de Janeiro empregaram estratégias agressivas para forçar a saída dos moradores, incluindo o corte de serviços essenciais. A Guarda Municipal e a Tropa de Choque da Polícia Militar foram enviadas para reprimir e despejar os moradores.

A cobertura midiática

Os Jogos do Rio também foram alvo de uma cobertura jornalística bastante negativa, marcada por um tom pessimista e pelo ceticismo em relação à capacidade brasileira de organizar o evento. Reportagens de grandes veículos estrangeiros tinham como enfoque a falta de segurança, os problemas ambientais, a crise fiscal do Rio de Janeiro e os riscos relacionados ao surto do vírus Zika.

A comparação com a cobertura midiática de outras edições dos Jogos Olímpicos deixa clara a discrepância dos enquadramentos editoriais. Cidades como Londres, Atenas e Barcelona também enfrentaram problemas ambientais, custos elevados e atrasos em obras, mas receberam um tratamento bem mais equilibrado e até celebratório, tendo como foco as atrações turísticas e as manifestações culturais.

No caso do Rio de Janeiro, a exemplo do que já ocorrera com os Jogos de Pequim, não faltaram matérias exagerando a real dimensão dos problemas e reforçando estigmas e estereótipos ofensivos acerca do “Terceiro Mundo”. Mais ocupada em insuflar o ambiente de instabilidade política no país e alimentar o discurso anticorrupção, a imprensa brasileira se limitou a copiar o tom alarmista das agências internacionais.

As reportagens eram sempre recheadas de termos como “desastre”, “fracasso”, “vexame”, abordando desde as “péssimas condições sanitárias” e a “corrupção desenfreada” até a “infraestrutura precária de telecomunicações” e a “violência fora de controle”. Em um artigo publicado pelo jornal New York Times, o geógrafo norte-americano Christopher Gaffney, um “especialista” em megaeventos esportivos, chegou a sugerir que os Jogos Olímpicos deveriam ser cancelados.

Diversos atletas estrangeiros manifestaram preocupação com os problemas e alguns optaram por não participar das competições. Atletas como Jason Day, Rory McIlroy, Jordan Spieth e Dustin Johnson desistiram de viajar ao Rio de Janeiro, citando medo da “epidemia de Zika”. Diversos patrocinadores e empresas de mídia também cancelaram a participação no evento.

Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.
Wikimedia Commons

Os jogos e a crise política

Se o cenário era de euforia e otimismo quando o Rio de Janeiro foi escolhido como sede dos jogos, a realidade era bastante distinta em 2016. Os jogos transcorreram em um ambiente político tumultuado, marcado pela destituição de Dilma Rousseff da Presidência da República, em um processo de impeachment sem base legal.

O golpe parlamentar decorria da decomposição das bases de sustentação do governo petista, insuflada por manifestações antigovernistas, crise econômica, uma intensa campanha midiática calcada no reforço do antipetismo e nos desdobramentos da Operação Lava Jato. Os Jogos Olímpicos se converteram em um vetor adicional de críticas ao governo Dilma, bombardeado por acusações de suposta malversação de recursos e inépcia na condução das obras.

As competições esportivas tiveram início no dia 3 de agosto de 2016. A abertura dos jogos foi realizada dois dias depois, em 5 de agosto. A cerimônia teve início com a projeção de imagens aéreas do Rio de Janeiro, enfocando a combinação de áreas verdes e urbanas, embaladas pela canção “Aquele Abraço”, cantada por Luiz Melodia.

Em um palco inspirado pelas formas do arquiteto Oscar Niemeyer, Paulinho da Viola cantou o Hino Nacional. Seguiu-se uma série de apresentações com elementos referentes à arte e à história do Brasil do Período Colonial à República Velha, incluindo os povos indígenas, os afro-brasileiros e os imigrantes europeus e asiáticos.

Ao som de “Construção” de Chico Buarque, iniciou-se a representação do Brasil moderno, tendo como marco a representação de Santos Dumont voando no 14-Bis ao som do Samba do Avião. Um desfile de Giselle Bündchen evocou “Garota de Ipanema”, cantada por Daniel Jobim.

Um show eclético com samba, funk, rap e pagode, com a participação de Elza Soares, Ludmilla, Marcelo D2, Zeca Pagodinho e Karol Conka, finalizou o espetáculo, aludindo à diversidade musical brasileira. O clima festivo só foi quebrado quando Michel Temer, presidente em exercício, anunciou a abertura dos Jogos, recebendo uma estrondosa vaia do público.

Ao longo das duas semanas seguintes, as previsões histéricas de caos generalizado se desfizeram uma a uma. A operação logística funcionou de maneira eficaz e os sistemas de transporte conseguiram absorver o fluxo de visitantes. Nenhum dos grandes desastres que tinham sido previstos se concretizou. A violência não arruinou o evento. Não houve sequer notificações de turistas infectados com o vírus Zika.

Mais de 11.000 atletas de 207 comitês olímpicos disputaram em 39 modalidades. Pela primeira vez, os jogos contaram com a participação de times dos Atletas Olímpicos Refugiados. O Rio de Janeiro recebeu quase 1,2 milhão de turistas e registrou crescimento de quase 30% da renda per capita no período.

Os Jogos do Rio reuniram alguns dos maiores ícones da história do esporte mundial. O jamaicano Usain Bolt encerrou sua trajetória olímpica em grande estilo, conquistando três medalhas de ouro e reafirmando seu status de maior velocista de todos os tempos. O nadador norte-americano Michael Phelps também brilhou no evento, obtendo cinco medalhas de ouro e uma de prata.

O Brasil conseguiu 19 medalhas ao todo (sete de ouro, seis de prata e seis de bronze), terminando em 13º lugar no ranking geral — o melhor resultado do país até então. Um momento particularmente marcante ocorreu no futebol masculino, com a Seleção Brasileira conquistando a inédita medalha de ouro ao derrotar a Alemanha na decisão por pênaltis, diante de um Maracanã completamente lotado.