Da luta operária ao Palácio da Alvorada: a trajetória de Marisa Letícia
Ex-primeira-dama foi uma das fundadoras do PT, organizou a Passeata das Mulheres pela libertação de presos políticos e combateu linchamento moral durante ofensiva golpista
Há 76 anos, em 7 de abril de 1950, nascia Marisa Letícia. Ela foi a segunda esposa de Luiz Inácio Lula da Silva e ocupou o posto de primeira-dama do Brasil entre 2003 e 2010.
Marisa Letícia foi uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores. Foi ela quem conduziu a coleta de assinaturas para a criação da legenda e quem costurou a primeira bandeira do partido.
Ela foi também a organizadora da Passeata das Mulheres, mobilização que reivindicava a libertação dos sindicalistas presos pela ditadura, e ajudou a coordenar um importante trabalho de base junto às mulheres do ABC Paulista.
Como primeira-dama, Marisa manteve um perfil reservado, atuando em iniciativas culturais e projetos sociais. A discrição, no entanto, não impediu que ela se tornasse um alvo constante do assédio e da perseguição da imprensa.
A juventude no ABC
Marisa Letícia Casa nasceu em São Bernardo do Campo, na Região Metropolitana de São Paulo, filha do agricultor Antônio João Casa e da benzedeira Regina Rocco. A menina vivia com seus 10 irmãos em uma casa de taipa com dois quartos, sem energia elétrica nem água encanada, localizada em um sítio na zona rural do município.
Marisa começou a trabalhar desde muito cedo, ajudando a família na lavoura e na criação de animais. Aos nove anos de idade, arrumou um emprego de babá. Ela dormia na casa dos patrões de segunda a sexta e só deixava a residência pela manhã, a fim de frequentar a escola. Com 13 anos, Marisa abandonou os estudos e foi trabalhar como operária em uma fábrica de bombons.
Foi nesse emprego que a jovem conheceu seu futuro marido, o motorista Marcos Cláudio dos Santos, com quem se casou em 1970. Marcos morreria assassinado em um assalto apenas seis meses depois do casamento, deixando Marisa viúva e grávida de seu primeiro filho.
O menino seria batizado Marcos Cláudio, em homenagem ao falecido pai. Para sustentar a casa, Marisa teve uma série de ocupações. Trabalhou em um açougue, foi atendente em um bar e arrumou emprego como auxiliar de serviços gerais em uma escola pública.

Marisa Letícia na Passeata das Mulheres, exigindo a libertação dos sindicalistas presos
Fotografia de Hélio Campos Mello
Lula e o PT
Em 1973, Marisa conheceu Luiz Inácio Lula da Silva no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista. Lula, também viúvo, ocupava o cargo de secretário-geral do sindicato, onde Marisa Letícia compareceu para buscar um documento para o seu irmão.
Os dois começaram a se relacionar e se casaram depois de sete meses. Do relacionamento de mais de quatro décadas nasceriam outros três filhos – Fábio, Sandro e Luís Cláudio. Marisa também tinha uma enteada — Lurian, filha de Lula e sua ex-namorada, Miriam Cordeiro.
O envolvimento de Marisa com o movimento sindical teve início em 1975, após Lula vencer a eleição para a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista — cargo para o qual seria reeleito três anos depois. Lula logo se tornaria o principal expoente do chamado “novo sindicalismo”, a rearticulação política da classe operária que se converteu na principal força de oposição ao regime militar entre o fim dos anos 70 e o início dos anos 80.
Inicialmente avessa ao debate político, Marisa dedicaria cada vez mais tempo à militância. Ela ajudou a popularizar o movimento entre as mulheres, incentivando a sindicalização e a adesão às greves. Também passou a frequentar as reuniões da Associação de Mulheres de São Bernardo e divulgar as convocatórias das organizações sindicais.
Marisa foi uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores (PT), tendo ajudado a recolher as assinaturas necessárias para a criação da legenda em 1980. Foi Marisa que costurou a primeira bandeira do PT e que estampou as primeiras camisetas com a identidade visual do partido. Ela também organizava bingos, bazares e vendia camisetas, adesivos e bottons para levantar fundos para o movimento operário.
Mobilização e trabalho de base
Em 1980, após dois anos seguidos de agitação social, greves e grandes manifestações lideradas pelo Sindicato dos Metalúrgicos, Lula e outros sindicalistas foram presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional pela ditadura militar. Lula passaria 31 dias encarcerado na sede do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) — o órgão de repressão do regime, então chefiado pelo delegado Romeu Tuma.
Para pressionar pela libertação dos presos políticos, Marisa organizou a Passeata das Mulheres ao lado das esposas dos sindicalistas presos. Centenas de mulheres e crianças marcharam da Praça da Matriz até o Paço Municipal de São Bernardo do Campo, sendo intimidadas ao longo do percurso por um batalhão de policiais, veículos blindados e cavalaria. Marisa Letícia também ajudou a organizar as reuniões clandestinas do movimento operário em sua casa, em função da intervenção federal que havia fechado os sindicatos.
Após a libertação de Lula, Marisa se envolveu num projeto de politização das trabalhadoras e esposas dos operários do ABC Paulista. Ao lado de Frei Betto, passou a organizar aulas abordando temas como ditadura militar, economia, direitos trabalhistas, direitos humanos, reforma agrária e sindicalismo, ministradas semanalmente no salão paroquial da Igreja Matriz de São Bernardo do Campo.
Paralelamente, Marisa seguia apoiando a carreira política do marido: organizou a entrega de materiais de divulgação e estampou as camisetas durante a campanha de Lula ao governo paulista em 1982 e teve papel fundamental no pleito de 1986, quando Lula foi eleito deputado federal, entrevistando eleitores nas ruas para descobrir as demandas mais importantes para inclusão na campanha.
À medida que o PT se consolidava como principal legenda de esquerda no país no período pós-redemocratização, aumentava a virulência dos ataques dos adversários políticos. Na disputa entre Lula e Fernando Collor pela Presidência da República em 1989, circularam boatos de que Lula e Marisa moravam numa mansão no Morumbi e de que o metalúrgico teria decepado o próprio dedo para se aposentar por invalidez.
Outros boatos diziam que Lula confiscaria as poupanças da população — algo que, ironicamente, o próprio Collor fez — e que fecharia as igrejas. A equipe de Collor pagou uma ex-namorada de Lula para acusá-lo falsamente em rede nacional de lhe oferecer dinheiro para que fizesse um aborto.
Na campanha de 1994, dessa vez contra Fernando Henrique Cardoso (FHC), pulularam denúncias de enriquecimento ilícito e uso irregular de verbas, todas não comprovadas. A popularidade advinda da estabilização financeira obtida pelo Plano Real garantiu a FHC a reeleição em primeiro turno em 1998.
Primeira-dama
Com os filhos já crescidos, Marisa pôde se dedicar integralmente à campanha de Lula durante a eleição presidencial de 2002. Optando por uma estratégia de moderação do discurso, Lula venceu o pleito, derrotando José Serra no segundo turno. Marisa tornou-se a 35ª primeira-dama do Brasil — a primeira oriunda da classe operária.
Marisa Letícia foi uma primeira-dama discreta, mas muito ativa. Ela era a principal conselheira do presidente e o auxiliava constantemente na tomada de decisões. Prestou forte apoio ao programa Fome Zero, comandou a restauração do Palácio da Alvorada e promoveu iniciativas de apoio ao artesanato, à culinária e à arte popular. Também cumpriu extensa agenda de viagens e atos protocolares e ajudou a impulsionar ações sociais e culturais.
Marisa recebeu diversas honrarias internacionais e nacionais, incluindo a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (Portugal, 2003), Grã-Cruz da Ordem de Isabel a Católica (Espanha, 2003), Grã-Cruz da Ordem Real do Mérito (Noruega, 2003) e a Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco (Brasil, 2010).
O perfil discreto de Marisa não a manteve imune da perseguição midiática. A imprensa não poupou esforços em desqualificá-la, caçoando de seus trejeitos, hábitos e roupas, submetendo-a constantemente a comparações depreciativas com suas antecessoras — contrapondo, por exemplo, seu nível básico de instrução à titulação da antropóloga Ruth Cardoso.
A Lava Jato
Em 2016, no auge da Operação Lava Jato e da ofensiva golpista contra o PT e o governo de Dilma Rousseff, Marisa Letícia tornou-se ré em duas ações penais movidas pela força-tarefa de Curitiba, acusada de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Os promotores da Lava Jato acusaram Marisa de receber vantagens ilícitas, relacionadas à reforma e à suposta posse não declarada de um triplex no Guarujá. Argumentava-se que o imóvel fora ofertado por empreiteiras em troca de favorecimentos de contratos com a Petrobrás.
O período foi marcado por intensa exposição midiática, vazamentos seletivos e um clima permanente de criminalização. Boatos acusando Marisa de enriquecimento ilícito tomaram as redes sociais. As acusações viraram até mesmo mote de uma campanha publicitária das Lojas Marisa. A ex-primeira-dama passou a ser hostilizada pelos seus vizinhos e insultada quando aparecia em público.
Submetida a intensa perseguição e a um severo linchamento moral, Marisa manteve-se reclusa e passou a ter de lidar com um estado permanente de estresse e ansiedade.
Em 24 de janeiro de 2017, Marisa foi internada após sofrer um acidente vascular cerebral hemorrágico (AVC). Seu prontuário vazou para a imprensa, servindo de base para uma onda de comentários de ódio nas redes sociais, incluindo os de um neurocirurgião que aconselhou a equipe médica a assassiná-la: “Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila. E o capeta abraça ela”, escreveu o indivíduo em uma mensagem.
A morte de Marisa Letícia foi anunciada uma semana depois de sua internação, no dia 3 de fevereiro de 2017. A imprensa foi alertada da morte antes mesmo da família. O corpo de Marisa foi velado no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Mais de 20.000 pessoas compareceram para prestar suas homenagens. Lula discursou emocionado, lamentando a “canalhice” sofrida pela esposa nos últimos anos.
O anúncio do falecimento de Marisa foi seguido por celebrações enfáticas dos antipetistas nas redes sociais. Mesmo após sua morte e malgrado a extinção da punibilidade, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região negou o pedido de absolvição sumária da ex-primeira-dama nos processos em que era ré.
A desinformação seguiu motivando ataques à honra de Marisa após sua morte. Em abril de 2020, Carlos Henrique André Lisboa, o juiz de São Bernardo do Campo responsável pelo processo de inventário e partilha, afirmou que Marisa Letícia tinha 256 milhões de reais em investimentos em certificados de depósito bancários (CDBs).
No mês seguinte, o magistrado corrigiu a informação. Ele afirmou ter se confundido e multiplicado acidentalmente o valor em 10 mil vezes. Os investimentos de Marisa Letícia eram, na verdade, de 26 mil reais.
Em 2021, o julgamento relacionado ao Triplex em que Sergio Moro havia condenado Lula foi anulado por irregularidades processuais e parcialidade. O Ministério Público posteriormente arquivou as denúncias.























