Da revolução às reformas: 96 anos do Partido Comunista do Vietnã
Sigla fundada em 1930 atraiu camponeses frustrados com endividamento e crise financeira
Há 96 anos, em 3 de fevereiro de 1930, era fundado o Partido Comunista do Vietnã (PCV). A agremiação foi criada durante a Conferência da Unificação, organizada pelo revolucionário Ho Chi Minh.
Surgido em um contexto de dominação colonial francesa, o PCV nasceu com o objetivo de conduzir a luta pela independência nacional, articulando a mobilização de camponeses, operários e intelectuais.
O PCV protagonizou os principais momentos da história vietnamita no século 20. O partido liderou a Revolução de Agosto de 1945, conduziu a resistência contra a França e o Japão, derrotou os Estados Unidos e logrou a reunificação do país em 1975, assumindo a gestão centralizada do Estado.
A fundação e os primeiros anos
O Partido Comunista do Vietnã foi o sucessor da Liga da Juventude Revolucionária Vietnamita, fundada por Ho Chi Minh em Cantão, China, em 1925. A Liga da Juventude buscava preparar a luta armada contra o domínio colonial francês sobre o Vietnã (à época chamado de Indochina), mas foi dissolvida em 1928 por pressão do Kuomintang, o Partido Nacionalista Chinês.
A liga se subdividiu em duas organizações — o Partido Comunista da Indochina e o Partido Comunista de Aname —, que passaram a disputar a hegemonia sobre o movimento anticolonial vietnamita. Uma terceira agremiação, denominada Liga Comunista da Indochina, se juntou à disputa.
Em 3 de fevereiro de 1930, Ho Chi Minh, já reconhecido como um dos principais líderes do movimento independentista, organizou a “Conferência da Unificação” em Hong Kong, reunindo os dirigentes dos três partidos, que se fundiram para criar o Partido Comunista do Vietnã.
Inicialmente pequena, a organização começou a atrair apoio popular dos camponeses frustrados com o endividamento e a crise financeira provocadas pela quebra das safras de 1929 e 1930. O partido começou a organizar os camponeses em conselhos autogeridos, ao mesmo tempo em que arrastava multidões em suas manifestações de 1º de maio, que se converteram em verdadeiros comícios de massa.
Alarmadas, as autoridades coloniais francesas passaram a reprimir violentamente os comunistas. Os comícios foram criminalizados e as manifestações eram dispersadas a tiros. Vários membros do Comitê Central do PCV foram presos e assassinados, levando o partido à desarticulação. Em 1935, a Internacional Comunista incumbiu Le Hong Phong de reorganizar o partido e, no ano seguinte, Ha Huy Tap assumiu o cargo de secretário-geral.
A Segunda Guerra e a Independência
A derrota da França diante da Alemanha Nazista na Segunda Guerra Mundial e a subsequente colaboração do regime de Vichy com as potências do Eixo enfraqueceram o domínio colonial francês sobre a Indochina, que foi então ocupada pelo Japão.
A exemplo dos franceses, os japoneses também reprimiram severamente o Partido Comunista, executando mais de 2.000 membros da agremiação, incluindo quase toda sua cúpula. Em 1941, Ho Chi Minh retornou ao Vietnã e restaurou o partido ao lado de Vo Nguyen Giap, Truong Chinh e Pham Van Dong. Eles estabeleceriam uma liderança forte e unificada ao longo das quatro décadas seguintes.
Logo após seu retorno, Ho Chi Minh fundou a Liga Revolucionária para a Independência do Vietnã (Viet Minh), abrangendo partidos políticos, militares, organizações religiosas e outros setores da sociedade favoráveis à independência vietnamita.
O Viet Minh logo se tornaria a mais importante força de combate contra a ocupação japonesa, amealhando apoio popular e ampla legitimidade. Malgrado o respaldo das massas à luta contra os invasores, Ho Chi Minh teve de enfrentar forte oposição interna dos grupos trotskistas — sobretudo a Oposição Esquerda de Outubro, liderada por Ho Huu Tuong e Phan Van Hum.
Filiado à Oposição de Esquerda Internacional, a Esquerda de Outubro rejeitava a Internacional Comunista e defendia a estratégia da “revolução permanente” de Leon Trotsky, conclamando a população vietnamita a rejeitar a liderança de Ho Chi Minh, a quem chamava de “estagiário de Moscou”. Alegando que a “independência é inseparável da revolução proletária”, a agremiação também se negou a apoiar o Viet Minh.
Mobilizando fortemente o povo vietnamita, o Viet Minh expulsou os invasores japoneses após a Revolução de Agosto de 1945. Em seguida, Ho Chi Minh forçou o imperador Bao Dai a abdicar do trono e proclamou a independência do Vietnã.
A divisão e a Guerra do Vietnã
A comunidade internacional não reconheceu a independência do Vietnã. Tropas chinesas ocuparam o norte do país, ao passo que as forças franco-britânicas tomaram o sul. Ho Chi Minh foi forçado a aceitar a incorporação do Vietnã como território francês e a decretar a dissolução do Partido Comunista.
A luta anticolonial foi retomada tão logo as tropas chinesas se retiraram. O PCV foi restabelecido sob a denominação de Partido dos Trabalhadores do Vietnã. A Guerra da Indochina contra as forças francesas continuaria até 1954, sendo encerrada com a vitória decisiva dos vietnamitas na Batalha de Dien Bien Phu.
Os subsequentes Acordos de Genebra dividiriam o Vietnã ao meio, concedendo ao Viet Minh o controle dos territórios ao norte e autorizando os grupos anticomunistas a se instalarem ao Sul.
Após neutralizar os focos internos de oposição e desestabilização, o Viet Minh instituiu, com apoio da União Soviética e da China, um governo socialista na República Democrática do Vietnã (ou Vietnã do Norte), ao passo que os Estados Unidos respaldavam o regime repressivo de Ngo Dinh Diem na República do Vietnã (ou Vietnã do Sul).
Em 1955, após sucessivas tentativas unilaterais de reunificação, os dois países entraram em conflito, dando início à Guerra do Vietnã. No congresso sediado em Hanói em 1960, o Partido dos Trabalhadores do Vietnã reafirmou seu compromisso com a missão do socialismo e com a libertação do Vietnã do Sul e coordenou a criação da Frente de Libertação Nacional da Vietnã. O partido também ajudou a estabelecer uma organização clandestina no país vizinho — o Partido Revolucionário do Povo do Vietnã do Sul.
A Guerra do Vietnã se estendeu por 20 anos, sendo marcada por atrocidades, crimes de guerra e um custo humano dos mais elevados. Mais de 3,5 milhões de pessoas morreram durante o conflito. Os vietnamitas resistiram a todas as ofensivas norte-americanas e conseguiram eventualmente enfraquecer a base de sustentação do regime do Vietnã do Sul.
Em abril de 1975, após a assinatura do armistício e a retirada das tropas norte-americanas, a guerra foi encerrada e o Vietnã foi unificado sob a liderança dos socialistas.

Bandeiras do Partido Comunista do Vietnã em Hanói. Fotografia de Vuong Tri Binh.
Wikimedia Commons
O partido após a reunificação
Em 1976, o Partido dos Trabalhadores do Vietnã se fundiu com o Partido Revolucionário do Povo do Vietnã do Sul e retomou sua denominação original — Partido Comunista do Vietnã. O quarto congresso do partido, realizado nesse mesmo ano, reuniu 1.088 delegados, representando 1,5 milhão de filiados — quase 3% da população vietnamita.
Durante o congresso, aprovou-se o Segundo Plano Quinquenal (1976-1980) e várias emendas à constituição do partido, apesar dos acalorados debates sobre a necessidade de reformas econômicas. O Terceiro Plano Quinquenal (1981-1985) teve como enfoque a necessidade de investir na melhoria das condições de vida da população, investimentos na industrialização, normalização das relações comerciais internacionais e a correção dos gargalos do planejamento estatal.
Em 1986, pouco tempo após a morte do secretário-geral Le Duan, ocorreu o sexto congresso do partido e a reunião do Politburo, onde Truong Chinh defendeu a necessidade de reformas radicais. A eleição de Nguyen Van Linh para o cargo de secretário-geral do PCV reforçou o domínio da ala reformista da velha guarda da agremiação.
A crise dos países socialistas no fim dos anos 80 e a subsequente dissolução da União Soviética forçaram o PCV e o governo vietnamita a conduzirem mais reformas. O sucessor de Nguyen Van Linh, Vo Van Kiet, articulou o apoio do partido ao processo de implementação do “socialismo de mercado”, inspirando-se no modelo chinês — e criando as bases para o acelerado crescimento econômico que marcou as décadas seguintes.
O ímpeto reformista arrefeceu em meados dos anos 90 com a reconstituição do Politburo. Ao mesmo tempo, a suspensão do embargo econômico mantido pelos Estados Unidos permitiu que o Vietnã ampliasse suas relações comerciais e recebesse investimentos e empréstimos para financiar obras de modernização da infraestrutura. O atual secretário do partido, To Lam, assumiu o cargo interinamente em agosto de 2024, após a morte de Nguyen Phu Trong.
Acumulando duas décadas de crescimento robusto e a acelerada expansão de seu parque industrial, o Vietnã assistiu ao crescimento exponencial de seu PIB per capita, que saltou de menos de US$ 100,00 nos anos 80 para cerca de US$ 4.700,00 em meados da década de 2020. A pobreza segue em queda. O índice de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, que abarcava 58% da população em 1993, despencou para 5,7% em 2020.























