Sexta-feira, 9 de outubro de 2026
Compartilhe:

Na manhã de 30 de março de 2011, os sinos da Universidade de Coimbra tilintaram marcando o início de uma faustosa cerimônia. Sob os olhares de centenas de estudantes, acadêmicos e jornalistas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva atravessou os corredores da prestigiosa instituição portuguesa para receber seu primeiro título internacional de “doutor honoris causa”.

A solenidade, conduzida sob um rigoroso protocolo acadêmico, teve início na Biblioteca Joanina, de onde partiu um cortejo de professores e doutores, acompanhados por uma marcha instrumental, em direção à Sala dos Capelos. O brasileiro caminhou sobre as capas dos estudantes até a local onde ocorreu a homenagem. Lula dedicou o título ao povo brasileiro, por ter realizado, em suas palavras, “de modo pacífico e democrático, uma verdadeira revolução econômica e social”.

E-mail

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.

Canal do WhatsApp O mundo em movimento direto no seu celular.
Siga
TV Opera Mundi Opinião, contexto e coragem jornalística.
Sintonize

O título “honoris causa” é o grau honorário de doutor concedido por instituições de ensino superior a pessoas eminentes que se destacaram em uma determinada área por suas ações, virtude ou mérito. A homenagem da Universidade de Coimbra se tornou a primeira de várias. Lula é hoje brasileiro com mais títulos de doutor “honoris causa”. O presidente acumula 42 condecorações — uma a mais do que seu conterrâneo, o pedagogo pernambucano Paulo Freire.

A maioria dos títulos foram concedidos por universidades públicas do Brasil. Entre as instituições estrangeiras que lhe outorgaram a honraria estão, além da Universidade de Coimbra, a Universidade de Salamanca (Espanha), a Escola Politécnica de Lausanne (Suíça), o Instituto de Estudos Políticos de Paris (França), a Universidade Nacional de Rosário (Argentina), a Universidade de Aquino (Bolívia), a Universidade Andina Simón Bolívar (Equador), a Universidade de San Marcos (Peru) e a Universidade Pedagógica de Maputo (Moçambique), entre outras.

Cobertura especial Veja os resultados do 1° turno das Eleições Acompanhe

Primeiro mandatário brasileiro oriundo da classe operária, Lula não possui formação universitária. Retirante nordestino radicado em São Paulo, o presidente começou a trabalhar aos 7 anos de idade, engraxando sapatos e vendendo tapioca na estação de barcas de Santos, para ajudar a complementar a renda da família.

Aos 14 anos, teve seu primeiro emprego com carteira assinada em um entreposto de algodão. Após concluir o ensino básico, ingressou no curso de torneiro mecânico do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e começou a trabalhar como metalúrgico nas indústrias do ABC Paulista, envolvendo-se então com o movimento sindical e iniciando sua trajetória política como líder do movimento grevista no fim da década de setenta.

Ao contrário de tantas narrativas pretensamente meritocráticas de herdeiros que tentam justificar fortunas perfumando o passado, Lula tem uma trajetória verdadeiramente calcada na superação das vicissitudes e dificuldades.

A história de um retirante nordestino nascido na miséria, que vendia tapiocas e engraxava sapatos e ascendeu à condição de um dos homens mais poderosos do Brasil encantaria as plateias do empreendorismo de palco. No caso de Lula, entretanto, a sua própria biografia desmonta o cinismo de tais narrativas.

A veneração do establishment à origem humilde só é justificável enquanto ela serve para aplacar o incômodo com a injustiça social, reforçando o mito meritocrático de que o Sol nasce para todos e que basta esforço, trabalho e força de vontade para qualquer um “vencer na vida”.

Quando “vencer na vida” significa tornar-se presidente e empreender um mínimo de esforço para garantir algum grau de autonomia e dignidade à população mais necessitada, a origem humilde vira demérito e incita a plutocracia a lembrar aos pobres “qual é o seu lugar”.

Lula recebe o título de doutor honoris causa pela Universidade Paris 8. Fotografia de Ricardo Stuckert, 2025.
Via Wikimedia Commons

Não por acaso, é justamente a origem humilde de Lula que foi agressivamente atacada pela imprensa. Durante seu governo, o presidente recebeu os epítetos de “apedeuta”, “ignorante”, “analfabeto”. Criticaram sua falta de formação e o fato de não saber falar inglês. Acusaram-no de cultuar a ignorância e incentivar o povo a não ler. E atribuíram o apoio ao seu governo a uma suposta “parvoíce” de um “povo iletrado” que “vendia o voto” em troca de esmolas e assistencialismo barato.

Por ironia do destino, o presidente tão atacado por não ter graduação tornou-se o mandatário mais homenageado com títulos de doutor. Além dos 42 “honoris causa”, Lula acumula outras 300 condecorações — do Prêmio da Paz da Unesco ao título de Campeão Mundial da Luta Contra a Fome da ONU, passando pelo galardão de Cidadão Honorário de Paris.

E enquanto era apontado como fomentador da ignorância, tornou-se o presidente que mais investiu em educação, fundando 19 novas universidades públicas, construindo mais de 120 novos campi, inaugurando mais de 200 escolas técnicas e quintuplicando o número de estudantes no ensino superior.

Lula foi igualmente responsável por iniciar o processo de democratização do acesso ao ensino superior público, transformando os egressos das escolas públicas e estudantes de baixa renda em maioria do corpo discente das instituições federais, ajudando a mudar o perfil tradicionalmente elitizado do ensino superior público.

Mais lidas