Domingo Sangrento: o massacre de trabalhadores que convulsionou a Rússia
Em 1905, empregados marcharam até Palácio de Inverno reivindicando melhores condições de trabalho, redução da jornada e reformas políticas
Há 121 anos, em 22 de janeiro de 1905, a cidade de São Petersburgo, antiga capital do Império Russo, servia de palco a um massacre que mudou o curso da história no século 20.
Naquele dia, milhares de trabalhadores, acompanhados de suas famílias e filhos, marchavam até o Palácio de Inverno, a fim de entregar uma petição ao czar Nicolau II, reivindicando melhores condições de trabalho, redução da jornada e reformas políticas.
Embora a manifestação fosse pacífica, a reação do regime foi brutal. As tropas do Exército Imperial abriram fogo contra a multidão, matando centenas de pessoas.
Alcunhado “Domingo Sangrento”, o massacre enfureceu a população, que se insurgiu contra o governo, convocando greves, protestos e levantes, desencadeando a chamada Revolução de 1905.
A luta operária no Império Russo
Na Rússia, a segunda metade do século 19 foi caracterizada por profundas transformações econômicas e sociais. A emancipação dos servos pelo czar Alexandre II em 1861 e a rápida expansão da industrialização haviam favorecido o surgimento de uma nova classe operária urbana.
O incômodo dessa classe operária com as péssimas condições de vida nas cidades e com a angustiante rotina de disciplina fabril se converteria em forte pressão por modificações das relações trabalhistas. Baixos salários, ambientes insalubres, trabalho infantil, jornadas extenuantes de até 15 horas por dia e autoritarismo patronal eram a realidade da maioria dos trabalhadores russos.
A insatisfação popular se agravou na primeira década do século 20, quando o país foi atingido por uma grave recessão econômica, que causou demissões em massa e aumento de até 50% no preço dos alimentos, ao passo que os salários permaneciam estagnados. O ingresso do país na Guerra Russo-Japonesa também causou descontentamento, resultando na criação de novos impostos e causando escassez de comida.
Reagindo à crise social, os operários russos começaram a se organizar politicamente, criando associações, convocando protestos e coordenando uma série de greves em todo o país. Em São Petersburgo, as paralisações forçaram o governo a realizar algumas concessões aos trabalhadores, incluindo a inspeção periódica das instalações fabris e limitações à carga horária.
Não obstante, o movimento sindical prosseguiu sendo criminalizado e perseguido. As greves quase sempre eram reprimidas e rotuladas como atividades subversivas e seus líderes frequentemente eram presos.
Padre Gapon e a greve na Fábrica Putilov
Um dos líderes do movimento operário russo era um padre ortodoxo chamado Georgy Gapon, um orador carismático com destacada atuação junto aos trabalhadores e às classes menos abastadas.
Desde 1903, o padre Gapon presidia uma espécie de associação sindical chamada “Assembleia dos Operários das Fábricas e Moinhos da Cidade de São Petersburgo”. A assembleia era secretamente financiada pelo governo russo, que a enxergava como uma organização útil à estratégia de contenção das influências revolucionárias.
Ao contrário de outros líderes operários radicais, Gapon mantinha um discurso condescendente, isentando o czar da responsabilidade pelos problemas da classe trabalhadora.
O sacerdote argumentava que as dificuldades eram criadas por empresários e funcionários corruptos, reafirmando a sujeição ao mito do “czar-pai” e defendendo que as reivindicações trabalhistas deveriam ocorrer dentro dos limites legais e sem perturbações à ordem.
A extrema moderação de Gapon não bastaria para neutralizar a má vontade do empresariado com a mobilização operária. Assim, em dezembro de 1904, seis trabalhadores da Fábrica de Ferro Putilov foram demitidos por serem filiados à assembleia do padre Gapon.
Em solidariedade, os demais trabalhadores da fábrica cruzaram os braços e se recusaram a retomar a produção enquanto os operários não fossem readmitidos. A greve não ficou restrita à Fábrica Putilov. Como reflexo do ambiente de insatisfação generalizada entre os trabalhadores, um movimento paredista rapidamente se espalhou por São Petersburgo.
Em pouco tempo, quase 150.000 operários haviam aderido à paralisação, interrompendo a produção em quase 400 fábricas da cidade. Em janeiro de 1905, São Petersburgo estava completamente paralisada. Não tinha eletricidade, não havia jornais circulando e quase todos os serviços públicos estavam suspensos.
A marcha ao Palácio de Inverno e o massacre
Diante da proporção que o movimento grevista tomara, o padre Gapon decidiu organizar uma marcha pacífica de trabalhadores para entregar diretamente uma petição ao czar Nicolau II.
Redigido em uma linguagem moderada e expressando absoluta fidelidade ao monarca, o documento implorava pela intervenção do czar em prol dos trabalhadores. Reivindicava melhores condições nas fábricas, salários dignos, redução da jornada de trabalho para oito horas diárias e a adoção de reformas políticas, tais como a introdução do sufrágio universal.
Assim, em 22 de janeiro de 1905, uma manhã de domingo, dezenas de milhares de trabalhadores em greve e suas famílias se reuniram nos portões das fábricas de São Petersburgo. Eles seguiram em marcha para o Palácio de Inverno, segurando ícones religiosos e cantando hinos e canções patrióticas. Estima-se que até 50.000 pessoas participaram da manifestação.
A maior parte do povo, entretanto, não sabia que o czar não estava no palácio: na véspera da marcha, ele havia se retirado para Tsarskoye Selo, uma residência imperial nos arredores de São Petersburgo. A viagem foi justificada como uma “reunião de gabinete”. Na realidade, o czar acreditava que sua ausência bastaria para desmobilizar a manifestação dos grevistas.
Os acessos ao Palácio de Inverno estavam todos bloqueados pelos cossacos e soldados da Guarda Imperial. Tropas de 10.000 guardas impediam a população de se aproximar do palácio e ordenavam a dispersão da marcha, que seguia pacífica. Diante da recusa dos manifestantes em encerrar o protesto, os soldados da Guarda Imperial abriram fogo contra a multidão.
Os primeiros ataques ocorreram por volta das 10h da manhã, mas vários enfrentamentos se seguiram, em diferentes pontos da cidade. A coluna de manifestantes liderada pelo padre Gapon foi atacada quando ainda estava nos arredores do Arco do Triunfo de Narva, em uma ofensiva que deixou mais de 40 mortos.
Centenas de trabalhadores foram assassinados com tiros ou mortos com baionetas e golpes de sabre pela cavalaria. Não se sabe o número exato de vítimas. Os oficiais do czar relataram 96 mortes, ao passo que os manifestantes disseram que o massacre ceifou mais de 4.000 vidas. Diversas fontes posteriores indicaram cifras de mais de 1.000 mortos.
De toda forma, a carnificina visível em São Petersburgo impedia qualquer tentativa retórica de minimizar a barbárie. Cadáveres ficaram empilhados nas ruas da cidade e o sangue tingiu de vermelho a neve acumulada nos passeios dos arredores do Palácio de Inverno.

“A Revolução Russa”, pintura de Ivan Alekseevich Vladimirov. Wikimedia Commons.
A Revolução de 1905
O massacre abalou profundamente a imagem do czar Nicolau II, até então visto de forma quase sagrada pela população, alimentando forte ressentimento contra a aristocracia russa.
O episódio desencadeou uma onda de greves, protestos urbanos e revoltas camponesas. Na ilha de Vassiliev, os trabalhadores distribuíram folhetos conclamando o povo a iniciar uma luta armada contra a autocracia czarista. Lojas e depósitos de armas foram tomados pela população que, por conta própria, passou a desarmar as forças policiais.
Quase 500.000 operários cruzaram os braços em cidades como Moscou, Riga, Vilna e Baku. Pela primeira vez, surgiram os sovietes, conselhos de operários que passaram a coordenar greves e a articular reivindicações políticas, representando uma nova forma de organização popular.
O clima de insurgência também estimulou motins militares, em sintonia com o clamor das massas. Foi o que ocorreu em junho de 1905, quando a tripulação do encouraçado Potemkin matou oito oficiais e tomou o controle da embarcação.
Diante da pressão crescente, o czar foi obrigado a fazer concessões. Em outubro de 1905, Nicolau II promulgou o Manifesto de Outubro, prometendo a instituição de liberdades civis, e criou a Duma, o Parlamento do Império Russo. As medidas cooptaram a oposição liberal, fragmentando o movimento revolucionário, e a forte repressão acabou por debelar a mobilização nas ruas.
A Revolução de 1905 foi derrotada, mas, para o czar, era o início do fim. O Domingo Sangrento havia criado uma situação de rompimento irremediável com as estruturas políticas vigentes e plantado a semente da convulsão social que, anos depois, germinaria na Revolução Russa de 1917.























