Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
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O bairro do Bixiga, na região central de São Paulo, abriga um casarão centenário com fama de mal assombrado. O imóvel é um antigo chalé de chácara que foi adaptado para se transformar em uma residência aristocrática e, depois, tornou-se uma espécie “manicômio particular”.

Ali vivia Sebastiana de Melo Freire, a Dona Yayá. Uma mulher muito rica, com uma história muito trágica — uma herdeira que viveu até a sua morte como prisioneira de sua própria casa, subjugada pela cobiça em torno de sua fortuna.

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Dona Yayá

Sebastiana de Melo Freire, mais conhecida como Dona Yayá, nasceu em Mogi das Cruzes há exatos 139 anos, em 21 de janeiro de 1887. Ela pertencia a uma das famílias mais aristocráticas do interior paulista. Seu pai, Manuel de Almeida Melo Freire, era dono de fazendas e um político muito influente. Ele ocupou por três vezes o cargo de deputado na Assembleia Provincial de São Paulo e foi senador do Congresso Legislativo paulista.

Apesar da origem privilegiada, a vida de Yayá foi marcada desde a infância por uma série de tragédias e vicissitudes. Ainda pequena, ela perdeu as duas irmãs. A caçula morreu asfixiada quando tinha 3 anos. A mais velha faleceu em decorrência de uma infecção por tétano, aos 13 anos.

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Em 1899, Yayá, então com 12 anos, perdeu sua mãe. E apenas dois dias depois, o seu pai faleceu. De sua família, restava agora apenas o irmão mais velho, Manuel de Almeida Júnior. Órfãos, os dois passaram a ser tutelados por Albuquerque Lins — amigo da família e futuro governador de São Paulo.

Legalmente reconhecido como tutor, Lins passou a administrar os bens da família Melo Freire. Yayá foi enviada para o Colégio Sion, um internato católico da capital paulista, ao passo que Manuel se matriculou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Em 1905, mais uma tragédia. Durante uma viagem de navio a Buenos Aires, Manuel se suicidou, atirando-se ao mar. Yayá era agora a única sobrevivente — e herdeira — da família Melo Freire.

Apesar das tragédias, Yayá tentou recompor sua vida. Ela se mudou para um palacete na Rua 7 de Abril, onde recebia suas amigas e promovia saraus. Tocava piano, patrocinava jovens artistas e colaborava com campanhas filantrópicas, mas nunca conseguiu se integrar à alta sociedade paulistana.

Isso ocorria porque os comportamentos de Yayá causavam estranhamento. Ela era obcecada por fotografia — atividade que ainda era vista como “masculina” — e chegou a montar um estúdio fotográfico em sua casa. Yayá também costumava andar de bonde pela cidade, o que era muito malvisto pelas madames.

Mas o que mais escandalizava era o fato de que Yayá não queria namorar nem se casar com ninguém. Mesmo sob incessante cobrança, ela rejeitava todos os seus pretendentes — frequentemente acusando-os de estarem interessados apenas na sua herança. Uma amiga confidenciaria mais tarde que Yayá nutria grande afeição por um homem — o aviador Edu Chaves. Seu amor, entretanto, não era correspondido.

Crise mental e encarceramento

Esses comportamentos vistos como “desviantes” reforçariam os estigmas que Yayá teria de enfrentar a partir de 1918. Foi nesse ano que Yayá sofreu sua primeira crise mental. Após uma segunda crise, em que ocorreu uma tentativa de suicídio, Yayá foi diagnosticada como insana e internada em um manicômio.

Com a interdição, Albuquerque Lins voltou a administrar a herança de Yayá. Ele autorizou a compra do imóvel na Rua Major Diogo, no Bixiga, onde Yayá seria internada.

Datada do fim do século 19, a casa seria inteiramente reformada para se transformar em um manicômio particular. Os banheiros foram adaptados para evitar que Yayá se machucasse. As janelas eram inquebráveis e só podiam ser abertas pelo lado de fora. Nesse imóvel, Yayá viveria completamente isolada do mundo. Tinha contato apenas com seus médicos, enfermeiros e cuidadores.

Yayá foi diagnosticada como portadora de psicose esquizofrênica. Conforme seu prontuário, durante as crises, ela “batia-se contra as paredes, feria-se com objetos, proclamava-se partidária dos aliados na Primeira Guerra, repetia que era ‘católica, apostólica romana’, queixava-se de ser ameaçada de morte e de sofrer violações, pedia para que lhe devolvessem o filho que acreditava ter tido, imaginava amamentá-lo e embalá-lo”.

Yayá viveu encarcerada em sua casa no Bixiga por 41 anos. Ela nunca saiu do imóvel — no máximo, ia até o jardim. A vizinhança a chamava de “a louca do Bixiga” — mas muitos questionavam se todo esse confinamento era mesmo necessário. Ela estava mesmo tão doente? Ou era uma vítima de um conluio ganancioso entre médicos e tutores?

Havia, afinal, uma enorme cobiça pela herança dos Melo Freire. E a toda hora, surgiam mais parentes distantes, amigos e conhecidos — parte dos quais travando disputas na justiça pela curatela e pelo direito de administrar os bens de Yayá.

Os processos, acusações, especulações e disputas alimentavam a imprensa — em especial, o jornal O Parafuso, que lançou uma série de reportagens denunciando que Yayá estaria sendo vítima de um perverso complô de seus tutores. O fato do renomado psiquiatra Franco da Rocha ter se recusado a participar da junta que aprovou a internação de Yayá contribuiria para aumentar as especulações.

 Dona Yayá em 1910.
                                                  Wikimedia Commons                                                                        

Herança vacante

Dona Yayá faleceu em setembro de 1961, sem designar herdeiros. Ela deixou centenas de imóveis na cidade de São Paulo, incluindo prédios inteiros na Rua Doutor Melo Alves e na Rua Augusta, além de fazendas e sítios no interior — incluindo uma chácara de 36 alqueires em Mogi das Cruzes, onde hoje se encontra o Centro Cívico.

À época, o espólio de Yayá foi avaliado em US$ 31 milhões — ou US$ 1,6 bilhão, em valores atualizados. Considerada vacante, a fortuna de Yayá foi incorporada ao patrimônio da Universidade de São Paulo (USP).

Após sua morte, a casa de Yayá no Bixiga ficou abandonada. Foi nesse período que surgiu a lenda urbana de que o imóvel seria mal assombrado. Os vizinhos diziam que, à noite, era possível ouvir os gritos de agonia de Yayá ecoando pela casa. Outros afirmavam ver a figura de Yayá nas janelas, toda trajada de branco, por vezes embalando um bebê.

O imóvel permaneceu sem uso até o fim dos anos 90. Em 2004, após ser restaurada, a Casa de Dona Yayá se tornou sede do Centro de Preservação Cultural da USP. Desde então, a residência está aberta à visitação pública, oferecendo seminários, exposições, cursos e diversas atividades culturais.