Há 48 anos, em 27 de agosto de 1978, donas de casa e trabalhadores da periferia de São Paulo eram brutalmente atacados pela Polícia Militar durante uma manifestação contra a fome e o alto custo dos alimentos.
O ato foi convocado pelo Movimento do Custo de Vida (MCV), uma iniciativa organizada por mulheres da periferia e apoiada pelas Comunidades Eclesiais de Base. O movimento criticava o aumento da inflação (que chegou a 40% em 1978) e a política de arrocho salarial da ditadura.
As mulheres do MCV foram responsáveis por organizar os primeiros atos de rua contra o regime militar desde a promulgação do AI-5. Durante o ato na Praça da Sé, o movimento divulgou um abaixo-assinado com 1,3 milhão de assinaturas contra a política econômica do governo e denunciou a manipulação dos índices inflacionários.
A Polícia Militar lançou bombas e cães contra a multidão, obrigando os manifestantes a buscar abrigo no interior da Catedral da Sé. Centenas de pessoas ficaram feridas, incluindo crianças.
Entre 1968 e 1973, o Brasil experimentou uma fase marcada por altas taxas de expansão do PIB, intitulada como “milagre econômico”. A propaganda da ditadura militar vendia a imagem de um país que avançava rumo à condição de potência, construindo obras faraônicas, estimulando o progresso e o crescimento industrial.
Por trás da narrativa do regime, escondia-se uma realidade bem distinta para a maior parte da classe trabalhadora. A política econômica da ditadura se apoiava fortemente na imposição do arrocho salarial, — o controle artificial dos salários, mantidos abaixo do acumulado da inflação — o que resultava em perda contínua do poder de compra dos trabalhadores.
A situação se agravou a partir de 1973, no contexto do choque do petróleo. O encarecimento das importações, o aumento dos custos de produção e os desequilíbrios da economia brasileira contribuíram para acelerar a inflação, sobretudo dos gêneros básicos. Para os trabalhadores da periferia, a alta dos preços dos alimentos tinha impacto particularmente brutal, pois parte substancial de sua renda era destinada à alimentação.
Uma pesquisa realizada em 1973 apontou um aumento médio de 120% no preço dos gêneros alimentícios em apenas um ano, contra um reajuste de 16% no salário mínimo. Os custos exorbitantes levaram a uma crise social, jogando milhões de famílias na miséria. Na periferia de São Paulo, bairros como Jardim Ângela, M’Boi Mirim e Jardim Nakamura atravessavam uma grave crise famélica.
Diante da crescente dificuldade para sustentar suas famílias, um grupo de donas de casa da periferia de São Paulo passou a se organizar politicamente. Elas formariam os chamados “Clubes de Mães”, agremiações que serviam como redes de assistência e apoio mútuo e como núcleos de atividades comunitárias.
A iniciativa contou com apoio institucional das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), organizações ligadas à Igreja Católica. Inspiradas pela Teologia da Libertação e pela “opção preferencial pelos pobres”, recomendada aos fiéis desde a Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, as CEBs se tornaram espaços relativamente seguros para as mobilizações populares, contornando a vigilância e a repressão da ditadura.
Nos Clubes de Mães, as donas de casa se mobilizavam para reivindicar ações sociais junto ao poder público. Falta de creche, saneamento básico, transporte coletivo e o preço dos alimentos eram os temas tratados nas reuniões de grupo. Ainda em 1973, as integrantes dos clubes publicaram a “Carta das Mães da Periferia de São Paulo”, denunciando a necessidade urgente de reduzir o custo de vida.
Nos anos seguintes, as ações se multiplicaram. Os Clubes de Mães passaram a realizar pesquisas de preço de porta em porta, mutirões de compras no atacado, confecção de panfletos e materiais de apoio, ajuda a famílias carentes, articulação política junto aos vereadores e deputados e, sobretudo, a organização de abaixo-assinados. As principais reivindicações do movimento eram o congelamento dos preços dos alimentos e a concessão de abono salarial para compensar as perdas inflacionárias.
A campanha rapidamente ultrapassou os limites dos bairros onde havia surgido. Associações de moradores, organizações sindicais, militantes de partidos de esquerda (sobretudo PCB e PCdoB), movimentos sociais e setores da igreja se somaram à mobilização. Para impulsionar as ações de forma coordenada, os grupos se unificaram, dando origem ao Movimento do Custo de Vida (MCV).
Entre as principais fundadoras e líderes do movimento estava Ana Dias, viúva do metalúrgico Santo Dias, assassinado pela polícia em 1979. Destacaram-se também a religiosa Irma Passoni e o metalúrgico Aurélio Peres, ambos posteriormente eleitos como deputados.
Além das ações políticas, o movimento também se engajava com a cultura popular. Produzia cartilhas e organizava teatros de rua, festas comunitárias e assembleias. Em 1976, a Assembleia do Povo no Colégio Santa Maria, na Zona Sul de São Paulo, reuniu cerca de 5 mil pessoas.

Manifestação do Movimento do Custo de Vida na Praça da Sé. Fotografia de W. Santos. CDocJB
via Memorial da Democracia
As ações de maior destaque do MCV ocorreram em 1978, quando o movimento lançou uma campanha nacional de abaixo-assinado criticando a política econômica do governo e denunciando a manipulação dos índices inflacionários. A campanha conseguiu angariar 1,3 milhão de assinaturas, coletadas em feiras, igrejas, sindicatos e mutirões nos bairros populares.
A fim de divulgar o documento e pressionar a ditadura, as lideranças do MCV convocaram uma manifestação a ser realizada em 27 de agosto de 1978, na Praça da Sé, centro de São Paulo. Mais de 20.000 pessoas compareceram ao ato, que se converteu em um dos maiores protestos organizados no Brasil desde o recrudescimento da repressão do regime nos “anos de chumbo”.
Operários, donas de casa, estudantes e religiosos se concentraram em frente às escadarias da Catedral da Sé, exigindo o controle dos preços dos alimentos e a concessão de abono para os trabalhadores. A dimensão da mobilização alarmou o governo e evidenciou o crescimento da insatisfação popular.
A polícia foi enviada para tentar impedir o ato. Os agentes montaram barreiras, bloquearam o acesso dos ônibus e tentaram intimidar o público, que foi cercado por cães e homens armados. Como os organizadores insistiam em levar o protesto adiante, os policiais resolveram dissolvê-lo à força.
Os manifestantes foram espancados com cassetetes e atacados pelos cães e por bombas de gás lacrimogêneo. Centenas de pessoas ficaram feridas, incluindo mulheres e crianças, e dezenas foram presas. Populares lotaram o interior da Catedral da Sé na tentativa de fugir das agressões. Apesar da repressão policial, o ato ajudou a consolidar o MCV como um dos mais importantes instrumentos da mobilização popular contra a ditadura.
Algumas semanas depois, em 12 de setembro de 1978, uma comissão de 21 pessoas do movimento viajou a Brasília para entregar o abaixo-assinado às autoridades do regime. O general Ernesto Geisel recusou-se a recebê-los e ordenou a presença de um forte aparato de segurança no Palácio do Planalto. A comissão protocolou a entrega do abaixo-assinado, se recusou a remarcar o encontro com um assessor no dia seguinte e estendeu uma faixa do movimento na rampa do palácio.
O regime militar ignorou as demandas, mas sofreu evidente desgaste político. O movimento das “mães da periferia” evidenciou o caráter autoritário e repressivo do regime e a farsa embutida no discurso da “distensão”. Contribuiu também para a formação de uma geração de militantes que posteriormente participariam das ações organizadas por sindicatos, partidos políticos e movimentos sociais, ajudando a impulsionar a luta pela redemocratização.