Ella Fitzgerald: 30 anos sem a rainha do jazz
Cantora estadunidense que abrangeu em repertório gêneros do gospel ao country, tornou-se primeira mulher negra a receber um Grammy
Há 30 anos, em 15 de junho de 1996, falecia a cantora norte-americana Ella Fitzgerald, uma das vozes mais influentes e admiradas do século 20. Alcunhada como “a rainha do jazz”, Ella se destacou por sua impressionante extensão vocal, pelo timbre cristalino e pelo talento para a improvisação.
Nascida na Virgínia em um contexto fortemente marcado pela segregação racial, Ella teve uma infância muito difícil. Sofreu agressões e abuso sexual nas mãos do padrasto, enfrentou a miséria e maus-tratos em reformatórios e chegou a morar nas ruas de Nova York.
Sua carreira artística decolou nos anos 30, quando a cantora brilhou como vocalista das “big bands”. Ligada às renovações estéticas do jazz dos anos 40, Ella ajudou a popularizar o “scat singing” e se consagrou por sua contribuição magistral para o cancioneiro popular norte-americano, através da célebre série dos “songbooks”. Ao longo de sua carreira, gravou mais de 200 álbuns, conquistou 14 prêmios Grammy e vendeu 40 milhões de cópias.
Adversidades na juventude
Ella Jane Fitzgerald nasceu em 25 de abril de 1917, na cidade de Newport News, na Virgínia. Os pais, Temperance e William Fitzgerald, viviam um relacionamento conturbado e acabaram por se separar pouco tempo depois do seu nascimento.
Temperance se casou pela segunda vez com o imigrante português Joseph da Silva. Buscando melhores oportunidades profissionais, a família se mudou para Yonkers, no estado de Nova York. Joseph era motorista e Temperance trabalhava em uma lavanderia. Em 1923, ela deu à luz sua segunda filha, Frances.
Ella era uma criança bastante ativa, apaixonada por esportes, música e dança. Frequentava a Igreja Metodista Episcopal Africana, onde teve seus primeiros contatos com a música gospel e cantou no coro. Tornou-se admiradora de Bing Crosby, de Louis Armstrong e, sobretudo, das Boswell Sisters.
A morte prematura da mãe, em 1932, representou uma ruptura traumática em sua vida. Aos 15 anos, Ella passou a ser agredida e sexualmente abusada pelo seu padrasto. Antes uma aluna excepcional, a menina perdeu o interesse pelos estudos e logo abandonou a escola.
Ella deixou a casa do padrasto e foi morar com uma tia no Harlem. Para sobreviver em meio às dificuldades da Grande Depressão, a jovem teve de se submeter a uma série de ocupações precárias. Trabalhou como vigia em um bordel e como olheira de um cassino clandestino dirigido pela máfia.
Quando o cassino foi descoberto e fechado por uma operação policial, Ella foi presa e enviada para um reformatório. Lá, a jovem voltou a sofrer com maus-tratos e abusos. Farta das humilhações, a adolescente fugiu e passou a viver nas ruas. Para conseguir dinheiro e se alimentar, Ella apresentava passos de sapateado nas calçadas de Nova York.
Cantando em big bands
O ponto de inflexão na vida de Ella ocorreu em novembro de 1934, quando seus amigos a convenceram a participar do concurso de artistas amadores promovido pelo Teatro Apollo do Harlem.
O Apollo era uma das mais importantes instituições culturais da comunidade afro-americana em Nova York. Seu palco havia revelado diversos talentos e funcionava como espaço de afirmação artística em uma sociedade segregada, onde as oportunidades para artistas negros eram extremamente limitadas.
Inicialmente, Ella pretendia se apresentar com um número de dança. Sentindo-se intimidada pelo alto nível técnico das dançarinas presentes na competição, a jovem resolveu cantar.
A mudança provou-se acertada: o público ficou encantado com sua potência vocal, com sua voz aveludada e com a pureza do seu timbre. Ella não apenas conquistou o primeiro lugar na competição como recebeu o convite para se apresentar regularmente no teatro.
O triunfo de Ella no concurso abriu as portas para sua profissionalização. A cantora recebeu o convite para se apresentar com a banda de Tiny Bradshaw no Harlem Opera House. Em seguida, foi convidada para fazer um teste com a orquestra de Chick Webb — um dos nomes mais influentes da era das big bands.
Inicialmente, Webb demonstrou preocupação com a aparência “desleixada” e a pouca experiência da cantora. Bastaram algumas apresentações para perceber que estava diante de um talento extraordinário. Ella tornou-se então a vocalista da banda, gravando sucessos como “Love and Kisses” e “If You Can’t Sing It, You’ll Have to Swing It”.
O grande impulso para a sua carreira veio em 1938, com a canção “A-Tisket, A-Tasket”, uma adaptação brincalhona de uma cantiga infantil. A música fez um enorme sucesso nas rádios, ficando por 17 semanas seguidas no topo das paradas. O single foi um dos discos mais rentáveis da década, vendendo mais de um milhão de cópias.
Em 1939, Chick Webb faleceu vitimado pela tuberculose. Ella, então com 22 anos, assumiu a liderança da banda, que foi renomeada como “Ella Fitzgerald and Her Famous Orchestra”. O grupo realizaria uma série de turnês e gravaria mais de 150 canções nos anos seguintes.

Ella Fitzgerald em 1940. Fotografia de Carl Van Vechten.
Via Wikimedia Commons
Bebop e scat
As desavenças internas levaram ao desgaste e a banda optou por encerrar suas atividades em 1942. Contratada pela Decca Records e agenciada pelo produtor Norman Granz, Ella seguiu em carreira solo e fez parcerias com grandes artistas, incluindo Bill Kenny, Louis Jordan e os Delta Rhythm Boys.
O início da carreira solo de Ella coincidiu com um momento em que o jazz passava por uma mudança estilística. Músicos como Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Thelonious Monk popularizaram o “bebop”, um estilo caracterizado por harmonias complexas, improvisações rápidas e sofisticação técnica.
Muitos intérpretes tiveram dificuldades para se adaptar a essa nova corrente do jazz. Ella, ao contrário, tornou-se uma de suas principais intérpretes. A compreensão das estruturas harmônicas do bebop permitia que a cantora improvisasse com uma naturalidade impressionante.
Assimilando o bebop, Ella aperfeiçoou a técnica pela qual se tornaria muito admirada: o “scat singing” — o ato de cantar vocalizando sons, palavras e sílabas sem sentido. A artista elevou a improvisação a um alto nível artístico, com notável precisão rítmica e inventividade melódica.
As interpretações em estilo “scat” de Ella em canções como “Flying Home” (1945), “How High the Moon” e “Oh, Lady Be Good!” (1947) tornaram-se marcos do jazz vocal, demonstrando virtuosismo e evidenciando o quanto a voz humana podia desempenhar as mesmas funções atribuídas aos instrumentos, dialogando harmonicamente com trompetes, saxofones e pianos.
Ella desenvolveu diversos projetos nesse período, incluindo sua participação na série de concertos “Jazz at the Philharmonic”, a colaboração com grupos como The Ink Spots e os duetos com o pianista Ellis Larkins. A cantora também atuou em alguns filmes dos anos 40 e 50 — com destaque para “A Taverna Maldita”, de Jack Webb.
Durante as apresentações com a banda de Dizzy Gillespie, Ella iniciou um relacionamento amoroso com o baixista Ray Brown. Os dois se casaram e adotaram um menino batizado como Ray Brown Junior, que também se tornaria um cantor de jazz. O casamento chegou ao fim em 1953, mas Ella e Ray mantiveram a amizade e a parceria profissional.
Enfrentando o ódio racial
O sucesso de Ella Fitzgerald se manifestou durante um período bastante conturbado da história dos Estados Unidos, ainda marcado pela vigência do regime segregacionista e das Leis de Jim Crow, que respaldavam o racismo e incitavam o ódio e a violência racial.
Mesmo sendo uma artista reconhecida internacionalmente, Ella enfrentou formas agressivas de discriminação e preconceito racial. Hotéis recusavam hospedagem, restaurantes impediam a entrada e muitos teatros e casas de espetáculo impunham restrições a artistas negros.
Em 1954, durante uma apresentação no Texas, um esquadrão da polícia invadiu o recinto do show em Dallas e prendeu a cantora e vários membros da banda. A justificativa apresentada foi a de que os músicos estavam jogando dados no camarim. Na verdade, as autoridades estavam irritadas com o fato de que a plateia do show era integrada — isto é, reunia espectadores brancos e negros.
Outro famoso episódio de discriminação ocorreu em 1955, quando Ella iniciaria sua turnê na Austrália. A cantora e sua equipe foram forçados a desembarcar de um avião da Pan Am e ficaram retidos por três dias em Honolulu aguardando autorização para seguir viagem. Ella processou a companhia por discriminação racial e conquistou uma indenização na justiça.
O empresário de Ella, Norman Granz, recusava categoricamente todas as propostas para shows e turnês em ambientes segregados. Ele inseria cláusulas antidiscriminação nos contratos e exigia tratamento igualitário para os músicos negros e brancos da banda. Todos andavam nos mesmos ônibus, dormiam nos mesmos hotéis e recebiam cachês equivalentes.
A atriz Marilyn Monroe, amiga de Ella, também deu sua contribuição para superar as barreiras raciais na indústria do entretenimento. Em 1955, Marilyn ligou para o proprietário da boate Mocambo e prometeu que frequentaria o estabelecimento todas as noites, desde que Ella Fitzgerald estivesse se apresentando no palco. O dono concordou e Ella finalmente pôde fazer sua estreia na casa de espetáculos mais prestigiada de Hollywood.
Os songbooks e os últimos anos
Em meados dos anos 50, Ella Fitzgerald passou a lançar seus álbuns pela Verve Records, uma gravadora criada por Norman Granz para servir como uma plataforma artística dos grandes nomes do jazz. Entre 1956 e 1964, a gravadora lançaria a série dos “songbooks”, um dos projetos mais importantes da carreira de Ella.
Os “songbooks” eram álbuns dedicados integralmente à obra de compositores fundamentais da música norte-americana, incluindo nomes como Cole Porter, George e Ira Gershwin, Irving Berlin, Jerome Kern, Richard Rodgers e Johnny Mercer.
Os álbuns gravados por Ella tornaram-se referências permanentes da chamada “Great American Songbook” — um repertório canônico abrangendo os maiores clássicos da música norte-americana produzidos entre as décadas de 1920 e 1950.
Além do projeto dos “songbooks”, a carreira de Ella nos anos 50 e 60 foi marcada por parcerias e colaborações lendárias ao lado de artistas como Louis Armstrong, Frank Sinatra, Count Basie e Duke Ellington. Datam desse contexto alguns de seus maiores sucessos, incluindo as canções “Cheek to Cheek”, “Summertime”, “I’ve Got You Under My Skin” e “Dream a Little Dream of Me”. Em 1981, Ella lançaria um álbum com interpretações de obras do brasileiro Tom Jobim.
Em maio de 1959, Ella Fitzgerald se tornaria a primeira mulher negra a ser agraciada com o Grammy. Ela obteve a vitória nas categorias de Melhor Performance Vocal Feminina (com o álbum “The Irving Berlin Songbook”) e de Melhor Performance Individual de Jazz (pelo álbum “The Duke Ellington Songbook”). Ao longo de sua carreira, a cantora acumularia 14 prêmios Grammy — 13 nas categorias competitivas e um prêmio especial pelo conjunto da obra.
A Verve Records foi vendida para a MGM em 1960 e os novos proprietários decidiram não renovar o contrato com Ella. Nos anos seguintes, a cantora trabalharia com gravadoras como Atlantic, Capitol e Reprise. Seu repertório foi significativamente ampliado nessa época, passando a abranger desde hinos gospel até a música country.
O foco no jazz retornou nos anos 70, quando Norman Granz criou uma nova gravadora chamada Pablo Records. Ella Fitzgerald gravaria mais de 20 álbuns para o novo selo e faria novas parcerias com músicos como Tommy Flanagan, Oscar Peterson e Joe Pass. Sua saúde, no entanto, começou a entrar em declínio, afetando gradativamente sua emissão vocal.
Ella permaneceria cantando até o fim da vida, mas sofreu complicações graves da diabetes nos anos 80, que comprometeram sua visão e a circulação sanguínea. Em 1986, a cantora teve de se submeter a uma cirurgia de ponte de safena quíntupla. Nos anos 90, Ella sofreu a amputação das duas pernas.
Ella Fitzgerald faleceu em sua casa em Beverly Hills em 15 de junho de 1996, aos 79 anos. Seu legado inclui mais de 200 álbuns e 2.000 canções gravadas. Ao longo de seis décadas de carreira, Ella vendeu mais de 40 milhões de álbuns, tornando-se uma das artistas de maior sucesso do século 20. Sua arte inspirou gerações de artistas e segue até hoje como a grande referência do jazz vocal moderno.
























