Fabricando chips no Brasil: o CEITEC e o sonho da soberania tecnológica
Inaugurada por Lula em 2010, estatal chegou a produzir 100 milhões de unidades, foi extinta por Bolsonaro e agora se reestrutura em aposta estratégica na indústria de alta tecnologia
Há 16 anos, em 5 de fevereiro de 2010, o presidente Lula inaugurava a primeira fábrica de chips da América Latina — o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada, ou CEITEC.
A empresa surgiu como parte de um projeto que visava desenvolver uma indústria microeletrônica nacional, garantindo ao Brasil o domínio de toda a tecnologia necessária à fabricação de semicondutores.
Detentor da única planta “front-end” existente na América do Sul, o CEITEC tem o potencial de viabilizar a fabricação de produtos nacionais de altíssimo valor agregado, inserindo o Brasil na cadeia global de alta tecnologia.
Apesar de sua enorme importância estratégica, o CEITEC quase foi liquidado e privatizado durante o governo Bolsonaro. A medida foi revertida por Lula em 2023, mas a empresa ainda precisa concluir seu processo de reestruturação.
A busca por uma indústria nacional
As primeiras tentativas de fomentar o setor de microeletrônica no Brasil remontam às décadas de 1960 e 1970, quando universidades públicas como USP, Unicamp e UFRGS começaram a estruturar cursos e laboratórios voltados à engenharia eletrônica e semicondutores. Instituições como o Centro Técnico Aeroespacial também financiaram pesquisas na área de microeletrônica, visando aplicação no setor militar.
Nos anos 80, o governo brasileiro criou a Política Nacional de Informática, que restringia a importação de equipamentos eletrônicos e estimulava a produção nacional, oferecendo linhas de crédito, prioridade em contratos e benefícios fiscais. Embora tenha impulsionado a formação de mão de obra e o surgimento de fabricantes locais de hardware, a política enfrentou severas limitações relacionadas à defasagem tecnológica e dificuldade de inserção nas cadeias globais.
Os avanços acumulados pelo país até os anos 80 seriam desfeitos na década seguinte. Aderindo ao receituário neoliberal e às diretrizes do Consenso de Washington, o Brasil promoveu uma abertura comercial indiscriminada e eliminou quase todas as barreiras às importações.
As poucas empresas nacionais ativas no setor de informática logo sucumbiram à concorrência estrangeira. O país perdeu a chance de aproveitar a capacidade técnica adquirida nas décadas anteriores para alavancar o desenvolvimento de um setor estratégico justamente em um momento em que a indústria microeletrônica avançava e gerava ótimas oportunidades de negócios.
O CEITEC
O projeto que deu origem ao CEITEC começou a tomar forma no ano 2000, quando a Motorola (atual NXP Semiconductors) doou ao governo do Rio Grande do Sul os equipamentos que pertenciam a uma fábrica de semicondutores de tecnologia CMOS que havia sido fechada nos Estados Unidos.
Esses equipamentos foram posteriormente repassados para o Centro de Excelência em Tecnologia Eletrônica Avançada, uma associação civil criada em 2002, congregando pesquisadores do Instituto de Informática da UFRGS e do Parque Científico e Tecnológico da PUCRS (Tecnopuc). A falta de recursos, no entanto, impediu que o projeto avançasse.
Em 2008, já no governo Lula, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) se propôs a encampar o projeto, utilizando os equipamentos para desenvolver a primeira fábrica nacional de microchips. Surgiu assim o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada, ou CEITEC.

Fachada do CEITEC
Via Wikimedia Commons
A estatal foi oficialmente instituída em 10 de novembro de 2008, mas a inauguração somente ocorreu em 5 de fevereiro de 2010, com a presença de Lula. Foram investidos mais de R$ 400 milhões no CEITEC, que se tornou um marco histórico ao incluir o Brasil no seleto grupo de países providos de indústria de microeletrônica avançada — uma conquista de enorme importância para a soberania tecnológica e o desenvolvimento científico nacional.
Mais de 100 profissionais brasileiros de alta especialização foram trazidos de outros países para trabalhar na que era então a única fábrica de chips da América Latina. Cylon Gonçalves, ex-coordenador do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, foi nomeado como primeiro presidente da empresa.
Contribuições e produtos do CEITEC
Instalado em um complexo fabril de 14 mil metros quadrados na região da Lomba do Pinheiro, na Zona Leste de Porto Alegre, o CEITEC se dedica a projetar, fabricar e comercializar sensores, etiquetas eletrônicas e circuitos integrados para aplicações diversas.
Seus produtos são utilizados em áreas como identificação de animais, rastreamento de medicamentos e hemoderivados, sistemas de autenticação, gestão de inventário, controle de ativos, etc.
O CEITEC foi dotado de toda a infraestrutura e recursos necessários para o processo integral de fabricação de chips de alta tecnologia, abrangendo mais de 200 etapas — desde a fabricação e preparo das lâminas de silício até a aplicação de íons para aumentar a condutibilidade.
A estatal tem como enfoque os segmentos de identificação por radiofrequência (RFID), comunicação sem fio e mídias digitais. Apenas um ano após sua inauguração, o CEITEC já havia iniciado a produção de chips para rastreamento animal em escala comercial.
O CEITEC também desenvolveu chips para moduladores de TV digital, transmissão de banda larga via WiMAX, controle e automação industrial, rastreabilidade de automóveis e medicamentos.
Além de incentivar o desenvolvimento da indústria microeletrônica nacional e diminuir a demanda por importações de chips, o CEITEC cumpre o importante papel de estimular a permanência da propriedade intelectual de produtos nacionais no Brasil.
Após sua fundação, o CEITEC fechou acordos de transferência de tecnologia para produção de circuitos integrados com a empresa alemã X-FAB. Em 2012, a estatal começou a fornecer chips de rastreamento para o Grupo Fockink e estabeleceu convênio com a Casa da Moeda para produzir os chips utilizados nos passaportes brasileiros.
Em 2014, o chip CTC13001 alcançou a marca histórica de 10 milhões de unidades vendidas. No ano seguinte, o CEITEC lançou o CTC13002, que se tornou o primeiro chip do Hemisfério Sul a receber a certificação EPCglobal Class 1 Gen 2, a mais importante no segmento de identificação eletrônica.
Em janeiro de 2017, o chip de passaportes do CEITEC obteve a certificação internacional de segurança Common Criteria. E em 2019, a empresa chegou à impressionante marca de mais de 100 milhões de unidades de chip produzidas no Brasil.
Liquidação
A criação do CEITEC posicionou o Brasil como uma referência no segmento de semicondutores e prototipagem na América Latina. Mas, apesar de sua enorme importância estratégica e do significativo avanço tecnológico concretizado em apenas uma década, a empresa foi submetida a um processo gradual de sucateamento desde o impeachment de Dilma Rousseff em 2016.
O processo se agravou após a eleição de Jair Bolsonaro, que já no início de seu mandato afirmou ter a intenção de privatizar a estatal. Em dezembro de 2020, o governo Bolsonaro promulgou o Decreto Nº. 10.578, determinando a dissolução societária do CEITEC e extinguindo oficialmente a empresa.
Paradoxalmente, a liquidação do CEITEC ocorreu justamente em um momento de escassez de chips nos mercados da Europa e dos Estados Unidos. No Brasil, montadoras tiveram de interromper a produção de automóveis e decretar férias coletivas em função da falta de chips.
O leilão da infraestrutura física da CEITEC foi suspenso por ordem judicial, após o Tribunal de Contas da União (TCU) solicitar esclarecimentos sobre o fechamento da estatal e os potenciais prejuízos ao país.
O Supremo Tribunal Federal, entretanto, posteriormente autorizou a liquidação e privatização do patrimônio da empresa. Em 2021, começaram as demissões em massa. Mais de 100 dos 170 funcionários da empresa foram desligados.
Logo após determinar a liquidação do CEITEC, Fábio Faria, então Ministro das Comunicações do governo Bolsonaro, anunciou que havia convidado o bilionário Elon Musk a inaugurar uma fábrica de semicondutores no Brasil, com subvenção do governo federal.
Ressurgimento
Por sorte, Bolsonaro não teve tempo hábil para concluir a liquidação do CEITEC em seu mandato. Um dia após sua posse, em 2 de janeiro de 2023, o presidente Lula determinou a suspensão da liquidação da empresa. Um decreto emitido em fevereiro de 2023 orientou a criação de um grupo de trabalho incumbido de planejar a reestruturação da estatal.
O CEITEC retomou suas atividades em novembro de 2023, após a eleição de uma nova gestão. Os desafios, no entanto, são grandes. Durante o período em que ficou inativa, a empresa perdeu clientes, fornecedores e a maior parte de sua equipe técnica.
Um novo plano de negócios foi elaborado. A estratégia de reinserção da empresa se baseia na priorização de nichos menos concorridos, evitando a competição com as corporações gigantes do setor. O CEITEC também pretende priorizar a produção de semicondutores de potência em carbeto de silício, com aplicação em nichos como veículos elétricos, sistemas fotovoltaicos e infraestrutura de data centers.
Em agosto de 2025, o CEITEC recebeu do governo federal um repasse de R$ 220 milhões, que será empregado na modernização e expansão de sua linha de produção. O maquinário especializado já foi encomendado e deve ser instalado até o fim de 2026.
A retomada do CEITEC é uma oportunidade para conduzir o país a uma posição de fornecedor de produtos de alto valor agregado, justamente em um momento em que a demanda por semicondutores está em alta — e em meio a um processo de transição energética que exigirá, cada vez mais, investimentos no setor de microeletrônica. Basta saber se, dessa vez, o Brasil tentará aproveitar a chance.























