Há 108 anos, em 3 de setembro de 1918, Fanny Kaplan era executada nos pátios do Kremlin. Quatro dias antes, em 30 de agosto, ela havia tentado assassinar Lenin, o líder do governo bolchevique.
Fanny disparou três tiros contra o comandante da Revolução de Outubro. As balas perfuraram o pulmão e o ombro de Lenin e contribuíram para o progressivo declínio de sua saúde nos anos seguintes.
Militante do Partido Socialista Revolucionário, Fanny havia passado dez anos encarcerada após tentar matar um dirigente czarista. Anistiada depois da queda do regime em 1917, ela se tornou uma opositora ferrenha dos bolcheviques e passou a considerar Lenin como um “traidor da Revolução” após a dissolução da Assembleia Constituinte.
Fanny Yefimovna Kaplan nasceu em 10 de fevereiro de 1890 na região da Volínia, no oeste da Ucrânia, então parte integrante do Império Russo. Filha de Efim Roidman, um professor de origem judaica, ela se envolveu desde a juventude nos movimentos revolucionários e na oposição ao regime czarista.
Após a Revolução de 1905, Fanny passou a militar em grupos anarquistas. Em 1906, então com 16 anos, a jovem e seu namorado, Viktor Garsky, se envolveram em um plano para assassinar Vladimir Sukhomlinov, o governador-geral de Kiev. A conspiração teve de ser abortada após a bomba detonar acidentalmente em um quarto de hotel. Fanny se feriu gravemente na explosão, ficando com a visão e a audição bastante comprometidas.
Capturada pela polícia czarista enquanto tentava deixar o local, Fanny foi condenada à pena de morte. Em função de sua menoridade, a pena foi comutada para prisão perpétua. A jovem foi então enviada para o Complexo de Nerchinsk, um enorme campo de trabalhos forçados localizado na região da Sibéria.
Na prisão, influenciada pelas ideias de Maria Spiridonova, Fanny abandonaria o anarquismo e se tornaria simpatizante do Partido Socialista Revolucionário (PSR). A agremiação era fortemente inspirada pelo pensamento dos “narodniks” — intelectuais burgueses seguidores do socialismo agrário, que defendiam a criação de comunidades rurais administradas pelo princípio da democracia direta.
Fanny permaneceu encarcerada por dez anos, até março de 1917, quando eclodiu a Revolução Russa. Com a queda do czar Nicolau II, o governo provisório concedeu anistia aos presos políticos, beneficiando dezenas de milhares de pessoas. Em liberdade, Fanny buscou ajuda médica em um sanatório da Crimeia, conseguindo recuperar parcialmente sua visão.
Com a queda da monarquia russa, diversas correntes políticas passaram a disputar os rumos do processo revolucionário. Embora compartilhassem a oposição ao czarismo, bolcheviques, mencheviques, socialistas revolucionários e anarquistas divergiam profundamente sobre o modelo de organização política, econômica e social que deveria ser implementado.
Em novembro de 1917, comandados por Lenin e respaldados pelo apoio de parte substancial da classe operária, os bolcheviques conseguiram tomar o poder e instituíram um novo governo de inspiração socialista. O triunfo dos revolucionários, no entanto, não arrefeceu a intensidade das disputas políticas.
A Rússia logo mergulharia em uma guerra civil brutal opondo os bolcheviques ao “Movimento Branco” — uma coalizão heterogênea de monarquistas, liberais e grupos antibolcheviques vinculados à burguesia e aos latifundiários. Simultaneamente, o país teve de lidar com as intervenções estrangeiras de potências como Reino Unido, França, Estados Unidos e Japão, que se aliaram ao Exército Branco na tentativa de neutralizar o que chamavam de “perigo vermelho”.
As disputas também se acentuaram no âmbito interno após a vitória dos bolcheviques na Revolução de Outubro. Enquanto a ala esquerda dos socialistas revolucionários se aliou aos bolcheviques e chegou a integrar o governo soviético, a ala direita passou a exercer forte oposição ao novo governo.
A dissolução da Assembleia Constituinte foi um dos principais motivos da ruptura. Nas eleições realizadas no fim de 1917, os socialistas revolucionários obtiveram a maior votação, angariando 37,6% dos votos. Os bolcheviques ficaram em segundo lugar, com 24% da preferência dos eleitores. Vislumbrando o risco de inviabilização do processo revolucionário, os bolcheviques determinaram a dissolução da Assembleia depois de uma única sessão.
As divergências se aprofundaram com a assinatura do Tratado de Brest-Litovsk, em março de 1918. O acordo firmado com as Potências Centrais previa que a Rússia se retirasse da Primeira Guerra Mundial e cedesse enormes extensões territoriais, abrindo mão da Finlândia, da Polônia, da Bielorrússia, da Ucrânia e dos países bálticos.
O tratado provocou a indignação dos socialistas revolucionários, que o rotularam como uma capitulação diante do imperialismo alemão. Em julho de 1918, integrantes do partido assassinaram o embaixador alemão Wilhelm von Mirbach e tentaram desencadear uma revolta contra o governo bolchevique. Em retaliação, a agremiação foi banida dos Sovietes.

Fanny Kaplan estava entre os militantes do PSR que enxergavam nas ações de Lenin uma traição aos ideais revolucionários. Inconformada com a dissolução da Assembleia Constituinte e com a proscrição do seu partido, ela decidiu assassinar Lenin.
O atentado ocorreu na tarde de 30 de agosto de 1918. Lenin estava discursando para os operários metalúrgicos da Fábrica Michelson, no distrito de Zamoskvorechye, em Moscou. Ele buscava convencer os trabalhadores a apoiarem os esforços do governo durante a Guerra Civil. “Temos uma só saída: a vitória ou a morte”, frisou o líder bolchevique.
Após o término do comício, Lenin se dirigiu ao automóvel estacionado no pátio da fábrica. Enquanto conversava com algumas pessoas, Fanny se aproximou e o chamou pelo nome. Quando Lenin se virou para fitá-la, a mulher sacou uma pistola Browning FN M1900 e disparou três vezes contra o bolchevique.
Uma bala atravessou o casaco de Lenin e atingiu uma mulher que o acompanhava. Os outros dois projéteis o feriram. A primeira bala perfurou seu pulmão e parou perto da clavícula, provocando hemorragia interna. A segunda bala atingiu seu ombro esquerdo, fraturando o úmero.
Gravemente ferido, Lenin foi levado às pressas ao Kremlin, onde foi socorrido. Os médicos decidiram não remover imediatamente as balas, avaliando que a cirurgia seria mais arriscada do que deixá-las temporariamente alojadas.
Lenin sobreviveu à tentativa de assassinato, mas os ferimentos deixaram sequelas graves. Alguns autores associam os danos ocorridos no atentado de 1918 à piora progressiva de sua condição neurológica, culminando nos derrames que o incapacitaram a partir de 1922 e que o levaram à morte em 1924.
A autora dos disparos foi detida a poucos metros da fábrica e levada sob custódia pela Tcheka, a polícia política do governo bolchevique. Durante os interrogatórios, Fanny admitiu sua responsabilidade: “Meu nome é Fanny Kaplan. Hoje atirei em Lenin. Fiz isso sozinha. Não direi quem me deu a arma. Não darei detalhes. Eu havia decidido matar Lenin há muito tempo. Considero-o um traidor da Revolução”, afirmou.
Em 3 de setembro de 1918, apenas quatro dias após o atentado, Fanny Kaplan foi executada nos pátios do Kremlin. A ação foi supervisionada por Pavel Malkov. O corpo foi incinerado.
No mesmo dia em que Lenin sofreu o atentado, Moisei Uritsky, chefe regional da Tcheka, foi assassinado por Leonid Kannegisser, um militar ligado aos círculos monarquistas e antibolcheviques. Os episódios convenceram a cúpula do governo russo da necessidade de intensificar a repressão às forças contrarrevolucionárias.
A pena de morte, abolida logo após a Revolução de Outubro, foi reinstituída ainda em 1918 e uma onda de prisões e condenações à pena capital atingiu membros da nobreza e da burguesia, oficiais czaristas, líderes mencheviques e socialistas revolucionários.