Farabundo Martí e a luta camponesa em El Salvador
Líder salvadorenho do Levante Camponês de 1932 defendeu resistência dos trabalhadores rurais e das populações indígenas após golpe de Estado
Em 5 de maio de 1893, nascia o revolucionário salvadorenho Farabundo Martí, fundador do Partido Comunista Salvadorenho e líder do Levante Camponês de 1932.
Ativo na luta anti-imperialista desde a juventude, Martí foi forçado a se exilar após organizar protestos contra a dinastia Meléndez-Quiñónez. Ele integrou os Batalhões Vermelhos no México e ajudou Augusto César Sandino a organizar a resistência contra a ocupação norte-americana na Nicarágua.
Após o golpe de Estado que alçou Maximiliano Hernández Martínez ao poder, Martí ajudou a articular a resistência dos trabalhadores rurais e indígenas, liderando uma revolta popular camponesa que mobilizou dezenas de milhares de pessoas.
O regime salvadorenho esmagou violentamente o levante, dando início à “Matanza”, uma campanha genocida que ceifou cerca de 30.000 vidas. Capturado pelos militares, Farabundo Martí foi executado por um pelotão de fuzilamento aos 38 anos.
Juventude e formação
Agustín Farabundo Martí Rodríguez nasceu em Teotepeque, uma pequena comunidade agrícola localizada no departamento de La Libertad, em El Salvador. Era o sexto dos 14 filhos de Pedro Martí e Socorro Rodríguez. Seu pai era bastante influente na região, tendo servido como prefeito de Teotepeque e possuindo amplas extensões de terra.
Desde pequeno, Martí aprendeu a observar as desigualdades sociais. Questionava os seus pais sobre o motivo pelo qual as crianças camponesas andavam descalças e maltrapilhas, enquanto ele e seus irmãos tinham calçados e roupas novas. Cresceu convivendo com os empregados da fazenda da família, desenvolvendo uma sensibilidade social aguçada e identificação com as demandas populares.
Martí se formou no Colégio Salesiano Santa Cecília, em Santa Tecla, obtendo diploma de Bacharel em Artes e Ciências. Em seguida, ingressou no curso de Direito da Universidade de El Salvador. Durante a graduação, teve seus primeiros contatos com a obra de Karl Marx e com os principais expoentes do anarquismo e do socialismo, consolidando sua percepção crítica sobre a exploração imposta à classe trabalhadora salvadorenha e os privilégios da burguesia.
Frustrado ao perceber que a universidade não buscava fomentar o debate intelectual aberto, e cada vez mais inclinado ao pensamento revolucionário, Martí decidiu abandonar o seu curso e se dedicar integralmente à militância política e à luta camponesa.
O exílio
Em 1920, Martí tomou parte dos protestos organizados contra os governos autoritários de Alfonso Quiñónez Molina e Jorge Meléndez — ambos membros da chamada dinastia Meléndez-Quiñónez, a poderosa oligarquia que detinha a hegemonia política em El Salvador. Ele também esteve presente nos atos denunciando a tirania do presidente guatemalteco Manuel Estrada Cabrera.
A participação de Martí nos protestos lhe custou a perseguição das autoridades salvadorenhas. Após ser preso por “subversão” junto com um grupo de estudantes, Martí foi forçado a se exilar do país, partindo para a Guatemala.
Durante o exílio, o jovem salvadorenho se envolveu com organizações sindicais, círculos políticos de esquerda e lideranças revolucionárias da região. Ele viveu por um período entre os povos maias-quiché e apoiou a luta dos trabalhadores rurais contra a exploração da United Fruit Company.
Em seguida, mudou-se para o México, onde se tornou integrante dos Batalhões Vermelhos — milícias criadas para apoiar o governo de Venustiano Carranza durante a Revolução Mexicana. Em 1925, Martí ajudou a fundar o Partido Comunista Centro-Americano e defendeu a unidade das nações da América Central na resistência às ofensivas imperialistas.
Retorno a El Salvador
Farabundo Martí retornou a El Salvador em 1925. Ele seria responsável por fundar a seção local do Socorro Vermelho Internacional — organização de serviço social ligada à Internacional Comunista, incumbida de fornecer ajuda material aos trabalhadores e apoio aos prisioneiros políticos. Também desenvolveu ativa participação na articulação sindical e ajudou a criar a Federação Regional dos Trabalhadores Salvadorenhos.
Em 1928, Martí assumiu o cargo de representante local da Liga Anti-Imperialista das Américas. Ele foi novamente preso após comparecer à conferência da organização sediada em Nova York.
No mesmo período, Martí se aproximou do líder revolucionário nicaraguense Augusto César Sandino. Conhecido como o “General dos Homens Livres”, Sandino se consagrou como um símbolo da resistência anti-imperialista na América Latina, lutando até a morte pela soberania de seu país.
Martí auxiliou na organização do movimento de resistência contra a ocupação militar dos Estados Unidos na Nicarágua. Ele trabalhou como secretário de Sandino, auxiliou na formulação de estratégias e chegou a atingir a patente de coronel.
Sandino e Martí terminaram por se afastar em função das divergências ideológicas. Embora o pensamento do líder nicaraguense combinasse bandeiras tradicionais da esquerda e do nacionalismo, Sandino não se alinhava estritamente aos princípios marxistas.
Martí retornou para El Salvador em 1929, mas manteve uma admiração inabalável por Sandino pelo resto da vida, classificando-o como “o primeiro grande patriota do mundo”.
O Partido Comunista e o Levante Camponês
Em 1930, Farabundo Martí ajudou a fundar o Partido Comunista Salvadorenho (PCS), ao lado de Miguel Mármol, Abel Cuenca e Modesto Ramírez, entre outros. Ele logo se converteu na liderança mais destacada do partido e foi nomeado como delegado da Internacional Comunista.
O PCS teria papel central na mobilização da classe trabalhadora salvadorenha durante a crise da década de 1930. A quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929 e a Grande Depressão derrubaram os preços do café no mercado internacional. Fortemente dependente da exportação da commodity, El Salvador mergulhou em uma profunda recessão, levando ao aumento exponencial do desemprego e da miséria.
O governo respondeu à crise fiscal aplicando medidas que puniam os trabalhadores e incentivavam a concentração fundiária, passando a confiscar as terras de pequenos produtores a fim de transferi-las para os grandes latifundiários.
Martí se dedicou a denunciar as ações abusivas do governo salvadorenho, ao mesmo tempo em que fornecia importante ajuda aos camponeses depauperados, por intermédio das ações do Socorro Vermelho. O trabalho de base de Martí lhe garantiu amplo apoio entre operários e camponeses e contribuiu para o fortalecimento das ideias revolucionárias.
Incomodado com a crescente popularidade de Martí e com os rumores de que o dirigente comunista pretendia se candidatar à presidência nas eleições seguintes, o governo de El Salvador o forçou novamente ao exílio em dezembro de 1930.
Logo após o pleito de 1931, Farabundo Martí retornou a El Salvador, reassumindo suas funções como secretário-geral do PCS. Poucos meses depois, Maximiliano Hernández Martínez, líder do partido fascista Legião Nacional Pró-Pátria, assumiu a presidência de El Salvador por meio de um golpe militar.
Martí e o PCS responderam ao golpe organizando uma guerrilha de camponeses indígenas e pequenos agricultores, contrariados com as ações governamentais de favorecimento aos grandes proprietários de terra.
Em 1932, teve início o Levante Camponês, com protestos e revoltas em todo o país. Trabalhadores rurais e indígenas atacaram instalações militares e tomaram quartéis e edifícios governamentais, enquanto os dirigentes do PCS conclamavam as massas à sublevação.
O movimento insurgente obteve sucesso momentâneo, conseguindo controlar alguns municípios. O governo salvadorenho, no entanto, recebeu armas e apoio financeiro e logístico dos Estados Unidos para esmagar a revolta popular.

Farabundo Martí em 1929. Via Granma
“La Matanza”
A repressão do governo de El Salvador ao levante logo evoluiu para uma campanha genocida, denominada “La Matanza”, resultando no assassinato de aproximadamente 30.000 pessoas, a grande maioria indígenas. O massacre quase exterminou toda a nação indígena Pipil.
Os militares salvadorenhos adotaram uma política de execução sumária de todas as pessoas com traços indígenas que encontravam pelo caminho, deixando pilhas de cadáveres pelas ruas dos vilarejos sublevados. As forças de repressão abusavam da crueldade, cometendo torturas, estupros e executando idosos, mulheres e crianças com golpes de facão.
Em paralelo, o regime salvadorenho instituiu uma legislação que institucionalizava a repressão contra as culturas indígenas, proibindo a comunicação em línguas nativas e banindo os costumes e hábitos dos povos tradicionais.
Farabundo Martí foi capturado pelos militares e condenado à morte após um julgamento farsesco. Foi fuzilado pelo exército salvadorenho no dia 1º de fevereiro de 1932. Os demais líderes da revolta também foram executados — incluindo o indígena Feliciano Ama, o dirigente Francisco Sánchez e os estudantes universitários Mario Zapata e Alfonso Luna.
Mesmo após a execução das lideranças, a revolta popular e o massacre levado a cabo pelas forças armadas se estenderam por mais algumas semanas, até o término do conflito em julho de 1932.
Apesar da derrota militar, a figura de Farabundo Martí transcendeu sua morte. Ele segue como um dos maiores expoentes da esquerda salvadorenha e inspiração para organizações revolucionárias e anti-imperialistas latino-americanas. Também é o patrono da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), grupo guerrilheiro convertido em partido político em 1992, e das Forças Populares de Libertação Farabundo Martí.
























