Fascismo à brasileira: como Mussolini tentou conquistar São Paulo
Monumento na Represa Guarapiranga, com símbolos do regime fascista, é vestígio material de intenso projeto de influência política nos anos 30
Quem visita o Parque da Barragem da Guarapiranga, na Zona Sul de São Paulo, dificilmente deixa de notar um monumento suntuoso, situado ao lado da Avenida João de Barros. Trata-se do Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico, obra erguida em homenagem a um conjunto de pioneiros da aviação italiana.
Em uma análise mais detida do monumento, o visitante certamente observará os “fasci” — símbolos do regime fascista italiano — que decoram as laterais da obra. Não é uma coincidência. A coluna engastada no monumento foi doada à cidade de São Paulo pelo próprio Benito Mussolini.
O monumento foi inaugurado como parte de uma estratégia de cooptação de apoio da comunidade ítalo-paulista ao projeto político fascista. Entre os anos 20 e 30, o governo de Mussolini inaugurou uma série de equipamentos e organizações no estado de São Paulo visando popularizar o fascismo e expandir a influência de seu governo no mundo.
A comunidade italiana em São Paulo
“No bonde, no teatro, na rua, na igreja, fala-se mais o idioma de Dante que o de Camões”. A frase do historiador Ernani Bruno atesta a proeminência da comunidade italiana em São Paulo no início do século 20. Em 1916, mais de um terço da população da capital paulista era oriunda da Itália.
O enorme fluxo de imigrantes italianos deixou marcas profundas na cultura, nas estruturas sociais, no imaginário popular e até no sotaque dos paulistanos. Influenciou também a política local, transpondo para o Brasil o quadro de agitação social e os referenciais políticos e ideológicos da população italiana no período.
As primeiras organizações anarquistas e socialistas e a articulação do movimento sindical revolucionário em São Paulo devem muito à influência da comunidade italiana. Politizados e já familiarizados como as lutas dos trabalhadores organizados, os imigrantes italianos ajudaram a fundar ligas operárias, centros de estudos sociais, associais fraternais e jornais libertários. Também lideraram greves e difundiram ideias de ação direta e solidariedade de classe.
Não obstante, a ascensão do fascismo na Itália também teve fortes reflexos do outro lado do Atlântico. Desde os anos 20, uma parte dos imigrantes italianos em São Paulo aderiu com convicção à idolatria e mitificação em torno de Benito Mussolini, o líder do movimento fascista que ascendera ao posto de primeiro-ministro da Itália em 1922.
Alguma associações de imigrantes chegaram até mesmo a tentar, por duas vezes, erguer um monumento em homenagem ao líder fascista nas ruas de São Paulo. A veemente oposição de setores da sociedade barrou essas iniciativas em 1924 e 1926. Mas, em 1927, uma façanha histórica de três aviadores italianos daria ao próprio Mussolini a oportunidade de erguer na cidade um totem de exaltação ao fascismo.

Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico
Wikimedia Commons
O Monumento à Travessia do Atlântico
Em fevereiro de 1927, Francesco de Pinedo, Carlo del Prete e Vitale Zacchetti realizaram uma das primeiras travessias aéreas sobre o Atlântico Sul, cruzando o oceano a bordo do hidroavião Savoia 55 “Santa Maria”.
A travessia fazia parte do chamado “Reide das Duas Américas”. O plano era prosseguir pela costa brasileira até a Argentina, depois voar pelo interior da América do Sul rumo ao Caribe, alcançar a América do Norte e cruzar novamente o Atlântico, indo de Terra Nova, no Canadá, até o arquipélago dos Açores.
Foi o próprio Mussolini quem sugeriu a aventura a Pinedo. O líder fascista queria inspirar orgulho e cooptar apoio dos italianos que haviam imigrado para as Américas, ao mesmo tempo em que avançava seu interesse estratégico no estabelecimento de pontos de apoio para a frota de aeronaves italianas.
Assim, cientes do tamanho da comunidade ítalo-paulista, os aviadores italianos fizeram uma parada estratégica em São Paulo antes de prosseguir viagem até a Argentina, amerissando na Represa de Guarapiranga no dia 28 de fevereiro de 1927.
Os pilotos foram recebidos pelo governador e exaltados como heróis por uma multidão eufórica que os aguardava nas margens da represa. Para comemorar o feito, a Sociedade Dante Alighieri — uma associação internacional ligada à promoção da cultura italiana — propôs a construção de um “Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico”, a ser erguido nas margens da represa, próximo ao local da amerissagem.
O escultor italiano Ottone Zorlini foi contratado para produzir a obra. Com nove metros de altura, o monumento foi concebido em completa adesão aos padrões estéticos cultuados pelo regime fascista, marcados pela referência aos cânones da arte antiga e à história do Império Romano.
Encimando o pedestal em granito, uma escultura em bronze denominada “Vitória Alada” reproduz a figura mitológica de Ícaro. Nas laterais do pedestal, encontram-se dois “fasci” — representações de feixes de varas de bétula branca amarrados e ligados a um machado de bronze. Os “fasci” eram representações de autoridade e poder do Império Romano que foram incorporados como símbolos por Mussolini, dando origem ao termo “fascismo”.
Fixada no pedestal do monumento, encontra-se uma coluna com capitel em estilo coríntio, esculpida em mármore, que supostamente teria sido retirada de uma construção milenar de Roma. A coluna foi enviada a São Paulo como um presente do próprio Benito Mussolini para comemorar o feito de seus compatriotas. Em 21 de agosto de 1929, após a incorporação da coluna, o monumento foi inaugurado.
Trabalho de base
Ao longo dos anos trinta, o ditador fascista trataria de estreitar ainda mais os laços com a comunidade ítalo-paulista. Contando com o apoio da burguesia de ascendência italiana (famílias Matarazzo, Crespi, Scarpa, entre outras) e de empresários e profissionais liberais agrupados em associações de auxílio mútuo, o governo italiano estabeleceu uma ampla rede local de órgãos de socialização fascista, composta pelos “fasci all’estero”, pelos Dopolavoro e pelas Case d’Italia.
Os “fasci all’estero” eram células internacionais do Partido Fascista italiano, responsáveis pelo trabalho de formação política e difusão dos valores fascistas. Na década de trinta, o estado de São Paulo chegou a reunir 54 “fasci”, congregando 300.000 militantes.
Os Dopolavoro (conhecidos pela sigla OND, de “Opera Nazionale Dopolavoro”) eram organizações recreativas, que buscavam introjetar o ideário do fascismo por intermédio do esporte, do lazer e da cultura. Organizavam bailes, atividades esportivas, exibiam filmes e cinejornais, sediavam almoços de confraternização, peças de teatro, recitais e diversas outras atividades aparentemente inocentes, mas quase sempre imbuídas de referências ao pensamento fascista.
Durante as datas comemorativas do calendário fascista, os Dopolavoro organizavam celebrações efusivas, com desfiles de camisas-negras, saudações ao “Duce” e cantos de guerra. Já as Case d’Italia ofereciam serviços gratuitos ou subsidiados como ambulatórios médicos, creches, cozinhas populares e grupos de ginástica.
Complementando o movimento de base, o governo italiano mantinha em São Paulo uma forte representação diplomática. Além do consulado da capital paulista, o estado de São Paulo abrigava quatro vice-consulados (Bauru, Campinas, Ribeirão Preto e Santos), 17 agências consulares e 170 correspondentes consulares.
O tamanho da rede consular, absolutamente incomum para os padrões normais da diplomacia, só poderia ser compreendido como parte de uma estratégia de controle, tutela e cooptação da comunidade ítalo-paulista ao projeto de poder do Partido Fascista italiano.
A presença expressiva dos aparelhos ideológicos fascistas em São Paulo transformou a cidade em sede de manifestações diretamente ligadas ao movimento fascista italiano.
Em 1935, por exemplo, São Paulo sediou a 14ª edição da “Leva Fascista” — uma celebração da juventude fascista italiana. No ano seguinte, o Parque Antárctica abrigou uma festa em homenagem ao 15º aniversário do regime fascista na Itália.
Em 1937, por ocasião da visita do senador Luigi Federzoni ao Brasil, o estádio organizou uma impressionante recepção, com direito a quatro gigantescos “fasci littorio”, um retrato do rosto de Mussolini, desfiles de camisas-negras e apresentações de estudantes e atletas.
A arquitetura paulistana também foi influenciada pela exportação do ideário fascista. Marcello Piacentini, o arquiteto oficial de Mussolini, foi responsável por projetar o Palácio dos Bandeirantes e o Palácio do Anhangabaú — as respectivas sedes do governo estadual e da prefeitura de São Paulo.
Piacentini foi o arquiteto responsável por projetar o complexo da Exposição Universal Romana, um bairro construído por Mussolini para celebrar os 20 anos da Marcha Sobre Roma e a ascensão do fascismo na Itália.























