Terça-feira, 6 de outubro de 2026
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No dia 5 de abril de 2009, os leitores da Folha de S. Paulo foram surpreendidos com uma revelação impactante. O periódico estampou em sua primeira página uma ficha policial atribuída a Dilma Rousseff, então ministra-chefe da Casa Civil do governo Lula e já apontada como favorita para ser a candidata do PT à sucessão presidencial de 2010.

Segunda a Folha, a ficha seria proveniente do arquivo histórico do DOPS. O documento foi publicado na íntegra na página A10 do jornal, ilustrando uma longa matéria que implicava Dilma Rousseff em um suposto plano para sequestrar Delfim Netto, o ministro da fazenda da ditadura militar.

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A reportagem parecia feita sob medida para conferir legitimidade aos ataques da direita contra Dilma Rousseff, reforçando a pecha de “terrorista” e “assaltante de bancos”. Relatava expropriações contra o Banespa e o Banco Mercantil, o ataque o 4º Regimento de Infantaria de Quitaúna e o roubo ao cofre do ex-governador Adhemar de Barros. Requentava também o repertório clássico da propaganda da repressão, tratando os membros da resistência ao regime como criminosos comuns.

Segunda a Folha, a reportagem teria sido baseada em um depoimento de Antonio Roberto Espinosa, ex-comandante da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) — grupo da esquerda radical que participou da luta armada contra a ditadura militar.

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Espinosa teria dito ao jornal que o plano de sequestrar Delfim Netto, um dos mais destacados burocratas do regime, era conhecido por todos os membros da cúpula da organização, incluindo Dilma Rousseff. O grupo, entretanto, teria desistido do sequestro após ser parcialmente desarticulado pelas operações dos órgãos de repressão. Ao ser questionada pelo jornal, Dilma negou veementemente ter conhecimento sobre tal ação. Não obstante, a matéria foi publicada como relato factual.

O próprio Espinosa desmentiu a reportagem, negando ter dito que Dilma conhecia o plano e acusando o jornal de distorcer seu relato. “Dilma sequer teria como conhecer a ideia da ação, a menos que fosse informada por mim (…). O que disse à repórter é que informei politicamente ao [Comando] Nacional, que ficava no Rio de Janeiro, que o Regional de São Paulo estava fazendo um levantamento de um quadro importante do governo, talvez para sequestro e resgate de companheiros então em precárias condições de saúde e em risco de morte pelas torturas sofridas”, afirmou o ex-guerrilheiro.

Embora fosse integrante da VAR-Palmares, Dilma pertencia ao grupo dos “basistas”, que fornecia apoio logístico e desenvolvia ações voltadas à conscientização política, e sempre sustentou não ter participado de ações armadas — uma afirmação que foi endossada por outros membros da organização.

Foi a própria Dilma quem denunciou o factoide da Folha, endereçando uma carta ao ombudsman do jornal. A ministra esclareceu que havia solicitado o suposto documento junto ao Arquivo Público do Estado de São Paulo, o órgão responsável pela guarda dos papéis do DOPS. A instituição, no entanto, respondeu que o documento não existia em seu acervo. Dilma também corrigiu diversas falhas da reportagem. Explicou que os assaltos listados foram realizados por organizações em que ela não militava e que ocorreram em cidades onde ela não estava residindo.

Fotografia de Dilma em dossiê do DOPS. Via Wikimedia Commons
Fotografia de Dilma em dossiê do DOPS.
Via Wikimedia Commons

O próprio coordenador do Arquivo Público de São Paulo, Carlos de Almeida Prado Bacellar, desmentiu a matéria da Folha, afirmando taxativamente que a ficha não provinha do acervo. “Nem essa ficha nem nenhuma outra ficha de outra pessoa com esse modelo. Esse modelo de ficha a gente não conhece”, esclareceu. Em uma matéria publicada posteriormente, a agência Reuters esclareceu que a ficha também não existia nos acervos do Arquivo Nacional e do projeto Memórias Reveladas.

O jornal foi forçado a admitir que a ficha policial não era proveniente do DOPS, atribuindo sua desinformação a um “erro de catalogação”. Ao contrário do que fora publicado, a ficha foi recebida por e-mail. Uma pesquisa realizada por jornalistas independentes confirmou que a ficha já circulava na internet desde 2008 e que aparentemente fora retirada de um site de extrema direita chamado “Ternuma” (acrônimo de “Terrorismo Nunca Mais”), uma organização de apologistas da ditadura e admiradores do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra.

O documento forjado atribuía ainda a Dilma outras práticas como assalto a residências e instalações militares e conspiração para a prática de homicídio. Dilma, entretanto, jamais foi indiciada ou processada por tais atos durante a ditadura — nem mesmo durante os três anos em que ficou presa por “subversão”, sendo submetida a constantes interrogatórios e sessões de tortura. Não há quaisquer documentos nos arquivos militares e acervos documentais que a vinculem às práticas descritas na ficha falsa.

Em junho de 2009, a ficha policial foi analisada por especialistas do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O laudo produzido confirmou que a ficha era falsa e fora fabricada digitalmente, possuindo indícios de manipulações tipográficas grosseiras.

Apesar disso, a Folha seguiu se negando a admitir que utilizou um documento falso para atacar a ministra. Em uma publicação que misturava um mea culpa envergonhado e arrogância injustificada, o jornal afirmou que a autenticidade da ficha “não pode ser assegurada, mas também não pode ser descartada”.

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