Foro de São Paulo: integração latino-americana e a 'Onda Rosa'
Criado em 1990 por iniciativa de lideranças como Lula e Fidel Castro, espaço reuniu partidos de esquerda e marcou articulação política regional
Há 36 anos, em 1º de julho de 1990, começava em São Paulo o primeiro Encontro de Partidos e Organizações de Esquerda da América Latina e do Caribe. O seminário internacional, organizado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e outras organizações de esquerda, daria origem ao Foro de São Paulo.
Idealizado por Luiz Inácio Lula da Silva e Fidel Castro, o Foro surgiu com a missão de debater os rumos da esquerda em meio à crise do bloco socialista e construir alternativas regionais contra o avanço do neoliberalismo.
Ao longo das décadas, a organização se converteu em um importante espaço de articulação política e de fomento à integração regional. O Foro de São Paulo ganhou projeção com as sucessivas vitórias de partidos de esquerda latino-americanos durante a chamada “Onda Rosa”. Tornou-se também um dos principais alvos dos ataques e teorias conspiratórias ventiladas por ideólogos da extrema direita.
Os desafios da esquerda latino-americana
A década de 1980 foi um período marcado por desafios profundos para a esquerda latino-americana. As intervenções e disputas derivadas da Guerra Fria e a imposição de ditaduras militares subservientes a Washington resultaram na aniquilação dos movimentos revolucionários e na desarticulação das organizações progressistas e das lutas populares.
Relegada à clandestinidade e sofrendo com o exílio, prisão ou extermínio de suas lideranças, a esquerda teve enorme dificuldade para reconstruir partidos, sindicatos e movimentos sociais. A esquerda participou da transição democrática após o desmantelamento dos regimes de exceção, mas esses processos quase sempre foram conduzidos a partir dos termos definidos pelas elites conservadoras e pelas Forças Armadas, limitando enormemente o alcance das reformas.
O cenário se agravou ainda mais com a crise do bloco socialista no fim dos anos 80. A queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética tiveram enorme impacto simbólico e político. O desaparecimento da maior potência socialista representou a perda de um importante referencial ideológico e, em muitos casos, o fim do apoio diplomático, financeiro e militar para os movimentos revolucionários latino-americanos.
Países como Cuba e Nicarágua foram muito afetados por essa conjuntura, mergulhando em crises econômicas e sofrendo isolamento diplomático e comercial. A crise ideológica afetou gravemente os partidos comunistas da região, resultando na extinção ou refundação das agremiações e na moderação de seus programas.
Em paralelo com a crise do socialismo, o neoliberalismo se consolidava como paradigma dominante. Influenciados pelas políticas implementadas por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, diversos governos latino-americanos passaram a defender privatizações, abertura comercial, desregulamentação econômica, austeridade fiscal e redução da participação do Estado na economia.
Essas ideias ganharam força especialmente após a formulação do chamado Consenso de Washington, em 1989, tornando-se predominantes na região durante a década seguinte. Os resultados para a população foram desastrosos: aumento do desemprego, precarização do trabalho, enfraquecimento das indústrias nacionais, redução de investimentos em serviços públicos e o agravamento das desigualdades sociais.
Fundação e estrutura do Foro de São Paulo
Reagindo a esses desafios, líderes e agremiações da região identificaram a necessidade de construir uma ação coordenada da esquerda latino-americana. Entre as mais importantes iniciativas nascidas nesse contexto está o Foro de São Paulo, fundado por convocatória de Lula e Fidel Castro.
O Foro surgiu como um órgão de concertação política, voltado à promoção da integração latino-americana, à reafirmação da soberania e da autodeterminação dos países da região e ao combate às políticas econômicas neoliberais instituídas desde meados dos anos 80.
O primeiro encontro da organização foi sediado no extinto Hotel Danúbio, em São Paulo, em 1º de julho de 1990. O encontro reuniu 48 partidos políticos e organizações de 14 países e teve como enfoque o debate sobre a nova conjuntura internacional após a queda do Muro de Berlim e a discussão de novas estratégias de enfrentamento ao embargo econômico imposto a Cuba pelos Estados Unidos.
A conferência foi marcada pela presença de organizações de diversas matrizes político-ideológicas, abrangendo desde organizações marxistas-leninistas e grupos guerrilheiros até partidos sociais-democratas e agremiações da democracia cristã.
Durante o encontro, os participantes aprovaram a chamada “Declaração de São Paulo”, que definiu como objetivos do Foro a articulação da luta popular e anti-imperialista, a construção da ação política consensual e o fomento à integração latino-americana. O documento também condenou o intervencionismo norte-americano, as ações contra Cuba e a Revolução Sandinista e o processo de militarização das zonas andinas, executado sob o pretexto de “combater o narcoterrorismo”.
A secretaria executiva do Foro foi instalada em São Paulo. Foram criadas três secretarias regionais — Cone Sul, sediada no Uruguai, Andino-Amazônica, estabelecida na Colômbia, e Mesoamericana e Caribenha, com sede em El Salvador. A instituição também possui um grupo de trabalho com representantes de 16 países, que se reúne periodicamente.
O Foro de São Paulo congrega hoje 123 organizações, incluindo partidos políticos, movimentos sociais e organizações sindicais provenientes de 27 países da América Latina e do Caribe. Quatro agremiações brasileiras integram o Foro de São Paulo: PT, PCB, PCdoB e PDT. O Cidadania, sucessor do PPS, deixou a entidade em 2004.

Lula discursa no encontro de fundação do Foro de São Paulo
Via Instituto Lula
Atuação
Desde 1990, o Foro de São Paulo já organizou 27 encontros — quatro sediados no Brasil e os demais na Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador, Venezuela, Cuba, El Salvador, Nicarágua, Honduras, Antígua e Barbuda e México. Além dos encontros do Foro, a organização promove diversas reuniões setoriais dos grupos temáticos, como os encontros de povos indígenas, mulheres, afrodescendentes e órgãos sindicais.
A instituição teve intensa atuação na América Latina ao longo dos anos 90, conduzindo importantes iniciativas intersetoriais. Diversos partidos políticos vinculados ao Foro alcançaram destaque na região, organizando a oposição a projetos neoliberais como a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e ajudando a fomentar iniciativas como o Fórum Social Mundial.
Ao longo dos anos, o Foro também passou a incorporar temas como sustentabilidade ambiental, o combate às discriminações, a luta pela igualdade de gênero, os direitos dos povos indígenas, a integração cultural e o enfrentamento às mudanças climáticas, refletindo as grandes transformações ocorridas no debate político internacional.
O Foro de São Paulo ganhou projeção entre o fim da década de 1990 e o início dos anos 2000, quando diversos partidos vinculados à instituição obtiveram vitórias eleitorais históricas, no fenômeno conhecido como “Onda Rosa” — a guinada à esquerda que predominaria na América Latina até meados da década de 2010, impulsionada pelo desgaste dos partidos de direita e pelos efeitos nocivos das políticas neoliberais.
Entre os presidentes de agremiações ligadas ao Foro que assumiram o poder no período estão Hugo Chávez na Venezuela (1999), Lula no Brasil (2002), Néstor Kirchner na Argentina (2003), Tabaré Vásquez no Uruguai e Martín Torrijos no Panamá (2004), Evo Morales na Bolívia (2005), Michelle Bachelet no Chile, Rafael Correa no Equador, Daniel Ortega na Nicarágua e Manuel Zelaya em Honduras (2006), Fernando Lugo no Paraguai (2008) e Mauricio Funes em El Salvador (2009).
O sucesso eleitoral dos partidos do Foro, no entanto, não ajudou a consolidar o seu papel como órgão de concertação. Em vários casos, os objetivos elencados na “Declaração de São Paulo” foram preteridos ou neutralizados em função dos processos históricos e das particularidades sociais, econômicas e políticas dos novos governos e suas alianças em prol da governabilidade. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, por exemplo, foram excluídas da organização após o abandono das negociações de paz e tiveram sua presença nas atividades do foro barradas pelo PT de forma contínua desde 2002.
A despeito dessas limitações, o foro ajudou a impulsionar a integração regional, servindo de base para a constituição de novas organizações latino-americanas como a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL), a Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe (CELAC) e a Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA).
Ascensão da extrema-direita
A moderação da linha política do Foro de São Paulo não bastou para preservar a organização dos ataques da mídia e dos setores reacionários. O Foro foi alvo de diversos boatos e teorias da conspiração promovidos por ideólogos de extrema-direita. A entidade era acusada de intencionar a criação de um regime comunista supranacional, de manipular eleições e de possuir vínculos com o narcotráfico e grupos terroristas.
A ascensão dos governos de direita na América Latina na última década reduziu significativamente o papel articulador do Foro de São Paulo na região. No Brasil, o golpe parlamentar de 2016 e a prisão política de Lula em 2018 pavimentaram o caminho para a vitória de Jair Bolsonaro, dando início a um período de graves retrocessos. Na Argentina, a eleição de Mauricio Macri encerrou 12 anos de governos kirchneristas. No Equador, Lenín Moreno traiu a base herdada de Rafael Correa e conduziu um giro político à direita. Crises graves também abalaram países como Venezuela, Cuba e Nicarágua, desmontando as iniciativas de integração gestadas desde a primeira década do século 21.
A esquerda ensaiou uma recuperação entre 2018 e 2022, elegendo novos governos em países como Brasil, México, Bolívia, Chile e Colômbia. Desde o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, no entanto, a extrema-direita voltou a ganhar espaço e os governos de esquerda passaram a sofrer intervenções, sanções e ataques.
O Foro de São Paulo enfrenta hoje um cenário ainda mais complexo do que aquele que existia na época de sua fundação. Sua sobrevivência dependerá da capacidade de se adaptar a esse novo contexto, buscando meios de preservar a unidade entre forças políticas heterogêneas, organizar a luta pela soberania e responder ao avanço de uma direita cada vez mais radicalizada e articulada internacionalmente.
























