Frank País: o mártir da Revolução Cubana
Fundador da Ação Nacional Revolucionária e dirigente do Movimento 26 de Julho, líder estudatil foi executado pela ditadura de Fulgencio Batista
Há 69 anos, em 30 de julho de 1957, o revolucionário cubano Frank País era assassinado pelas tropas do ditador Fulgencio Batista. Ele tinha 22 anos.
Fundador da Ação Nacional Revolucionária, Frank ajudou a articular a resistência armada na província cubana de Oriente. A agremiação posteriormente se fundiu com o Movimento 26 de Julho, unificando a luta contra o regime de Batista.
Estrategista hábil, dotado de grande capacidade organizacional, Frank País liderou a resistência clandestina nas cidades e ajudou a coordenar as operações logísticas da revolução. Ele teve papel central para a continuidade da guerrilha, recrutando combatentes, levantando recursos e transportando armas e insumos.
Frank País também comandou a Revolta de Santiago de Cuba, um levante armado criado para dar apoio ao desembarque dos guerrilheiros vindos do México. Em Cuba, a data da sua morte é rememorada anualmente como o “Dia dos Mártires da Revolução”.
Juventude e formação
Frank Isaac País García nasceu em 7 de dezembro de 1934, em Santiago de Cuba, na província de Oriente. Era o mais velho dos três filhos de um casal de imigrantes galegos. O pai, Francisco País Pesqueira, era um pastor originário de Marín e ajudou a fundar a Primeira Igreja Batista de Santiago de Cuba. A mãe, Rosario García Calviño, cuidava da casa, atuava como auxiliar de culto e dava aulas de piano e órgão.
Francisco faleceu quando seu filho tinha cinco anos de idade. A família enfrentou dificuldades, mas Rosario conseguiu sustentar a casa com seu trabalho e apoio da congregação. Frank aprendeu a tocar piano com a mãe e participava regularmente das atividades da igreja. Mostrou desde cedo uma forte inclinação pelas artes e se dedicou a compor poemas.
O jovem cursou as primeiras letras no Instituto Martí, um colégio batista, e concluiu o ensino básico no Instituto de Estudos Secundários de Santiago de Cuba. Aluno dedicado, recebeu diversas medalhas e prêmios por seu desempenho escolar. Frank queria ser arquiteto, mas, diante da necessidade de trabalhar e ajudar a família, optou pelo magistério. Foi aprovado em primeiro lugar no concurso da Escola Normal do Oriente, onde se formou como professor em 1953, aos 18 anos.
Frank começou a lecionar no Colégio El Salvador, anexo à Segunda Igreja Batista, onde também dava aulas de religião aos domingos. Como educador, buscava difundir o pensamento de José Martí, os valores patrióticos, democráticos e cristãos. Mais tarde, matriculou-se na Faculdade de Pedagogia da Universidade de Oriente, onde deu continuidade à sua formação e intensificou sua militância.
Atividades políticas
A atuação de Frank no movimento estudantil começou ainda em seu período como estudante normalista. Em 1952, então com 17 anos, ele foi eleito presidente da Associação de Estudantes da Escola Normal. Participou dos debates sobre a reforma universitária e das ações da Federação Local de Escolas Secundárias.
Frank também criou experiências pedagógicas inovadoras, como a “República Escolar Democrática”, em que os alunos simulavam um governo dentro da sala de aula, e o Centro La Flor Martiana. Já graduado como professor, ajudou a fundar uma escola para a formação profissional de operários.
O Golpe de Estado de 1952 levou Frank a intensificar sua atuação política. Militares liderados pelo general Fulgencio Batista tinham derrubado o governo constitucional de Carlos Prío Socarrás. Apoiado pelos Estados Unidos, o novo regime cancelou as eleições presidenciais, dissolveu o Congresso e suspendeu a Constituição de 1940, transformando Cuba em uma ditadura.
O líder estudantil escreveu artigos, distribuiu panfletos antigovernamentais e organizou marchas exigindo a restauração das garantias constitucionais. À medida em que o regime ampliava a censura e a repressão, realizando prisões em massa, torturando e assassinando milhares de pessoas, Frank se aproximou dos grupos revolucionários e passou a apoiar a luta armada.
Ao lado do amigo Pepito Tey, o líder estudantil fundou o Bloco Revolucionário de Estudantes de Escolas Normais (BREN). Posteriormente, Frank ingressou no Movimento Nacional Revolucionário (MNR), uma agremiação liderada pelo professor Rafael García Bárcenas, da Universidade de Havana.
O MNR foi uma das primeiras organizações a tentar iniciar a luta armada contra o regime de Batista, idealizando ações como a Conspiração do Domingo de Páscoa e a invasão ao Campo Militar Colúmbia. Com a prisão de Bárcenas, o grupo foi temporariamente desarticulado.
Ainda em 1953, Fidel e Raúl Castro organizaram outra insurreição contra Batista. Liderando um grupo de 165 revolucionários, os irmãos atacaram o Quartel-General de Moncada a fim de tomar as armas e iniciar a guerrilha. A ação fracassou, resultando na prisão dos rebeldes e ensejando uma violenta reação do governo. A coragem dos insurgentes, no entanto, inspirou muitos cubanos e inflamou a resistência ao regime.
Frank apoiou o movimento pela libertação dos presos políticos do Quartel de Moncada e se aproximou dos sobreviventes. Ele chegou a idealizar um plano para libertar os insurgentes da Prisão de Boniato, mas não obteve apoio para concretizar a ação.

Frank País. Via Partido Comunista de Cuba
A ANR e o Movimento 26 de Julho
Elencando a derrubada de Batista como sua prioridade absoluta, Frank passaria a se dedicar exclusivamente à luta revolucionária. Organizador habilidoso, influente no movimento estudantil, com boa comunicação junto ao campesinato e trânsito nos meios religiosos, ele conseguiu formar uma rede de grupos de oposição a Batista em Santiago de Cuba.
Em 1954, a rede fundada por Frank daria origem à Ação Revolucionária Oriental (ARO). A organização reunia estudantes, trabalhadores urbanos e camponeses. O grupo mobilizava a população em manifestações contra o regime, distribuía propaganda revolucionária e reivindicava a luta armada como meio para derrubar a ditadura.
De Oriente, a ARO logo se expandiu para as outras províncias, sendo então renomeada como Ação Nacional Revolucionária (ANR). A organização conseguiu adquirir um arsenal de armas e explosivos através de coletas organizadas junto às comunidades rurais e operárias.
Uma nova frente de combate ao regime de Batista foi aberta em 1955. Libertados após um decreto de anistia, os irmãos Castro se exilaram no México, onde fundaram o Movimento 26 de Julho (M-26-7). Nesse mesmo ano, por sugestão do próprio Fidel Castro, Frank País solicitou a fusão da ANR com o M-26-7, unificando a luta contra a ditadura.
O líder estudantil abandonou o magistério para atuar na clandestinidade e assumiu a alcunha de “David”. Ainda em 1955, Frank se reuniu por duas vezes com Fidel Castro no México e foi incumbido de liderar o Movimento 26 de Julho na província de Oriente.
Frank coordenava o recrutamento de novos militantes, levantava fundos para o movimento, gerenciava as comunicações, estabelecia contato com estudantes, sindicatos e setores religiosos simpáticos à luta popular e se ocupava de incitar a agitação da classe trabalhadora contra o regime.
Sua disciplina impressionava os companheiros. Era conhecido pelo extremo cuidado com a segurança dos militantes, pela capacidade de tomar decisões rápidas e pela serenidade diante de situações desafiadoras. Apesar da pouca idade, Frank País se consagraria como um dos principais dirigentes do Movimento 26 de Julho.
A Revolta de Santiago e a Revolução Cubana
A guerrilha contra Batista foi lançada em novembro de 1956, quando um grupo de 82 combatentes do Movimento 26 de Julho embarcou no iate Granma e zarpou do México em direção a Cuba.
Visando dar apoio ao desembarque dos insurgentes, Frank País comandou uma insurreição armada em Santiago. A revolta tinha o objetivo de criar uma distração no leste de Cuba, mobilizando os efetivos policiais e dificultando a reação das tropas de Batista enquanto os revolucionários chegavam à ilha.
Assim, em 30 de novembro de 1956, centenas de revolucionários trajando uniformes camuflados e braçadeiras vermelhas e pretas atacaram instalações militares, delegacias e postos policiais em Santiago de Cuba. Os rebeldes conseguiram forçar as tropas do governo ao recuo, obtendo o controle temporário de alguns pontos da cidade.
O Granma, entretanto, não conseguiu aportar na data prevista em função de problemas na travessia. Sem a esperada coordenação com a frente guerrilheira, a insurreição de Santiago de Cuba foi derrotada pelo regime.
Os guerrilheiros somente desembarcaram na província de Oriente no dia 2 de dezembro de 1956. Avisadas sobre a chegada do iate, as tropas de Batista surpreenderam os rebeldes com uma emboscada, assassinando dezenas de pessoas. Um pequeno grupo conseguiu se refugiar na Serra Maestra. Com apoio da população campesina, os rebeldes começaram a reorganizar a guerrilha.
Frank País teve papel fundamental para a sobrevivência do movimento revolucionário, coordenando as operações logísticas e chefiando a rede clandestina organizada nas cidades. Ele se tornou um elo vital entre a luta urbana e a guerrilha de Serra Maestra.
Além de recrutar combatentes, Frank era responsável por enviar armas, munições, medicamentos, alimentos, roupas e dinheiro para os guerrilheiros escondidos nas montanhas. Também organizava as estratégias de inteligência e comunicação, alertando os rebeldes sobre deslocamentos do Exército e as ações repressivas do regime.
Frank foi responsável por levar o jornalista norte-americano Herbert Matthews, do New York Times, até Fidel Castro. A entrevista publicada por Matthews desmentiu a propaganda do regime de que Fidel estaria morto e deu projeção internacional à guerrilha.
O assassinato
Alarmado diante da expansão do movimento revolucionário, o governo de Batista ampliou suas ofensivas na região de Santiago de Cuba e Frank País se tornou um alvo das forças repressivas.
Em 9 de março de 1957, o líder estudantil foi preso e processado juntamente com sobreviventes do Granma e participantes do levante de novembro. A despeito de sua participação na revolta, Frank acabou sendo absolvido por ausência de provas.
Em 30 de junho de 1957, o irmão mais novo de Frank, Josué País, também integrante do Movimento 26 de Julho, foi assassinado pela polícia durante uma operação repressiva. A perda o abalou profundamente, mas Frank seguiu ativo na resistência.
Exatamente um mês depois, em 30 de julho de 1957, a trajetória revolucionária de Frank seria abruptamente interrompida. O guerrilheiro estava refugiado na casa de Raúl Pujol Arencibia, um membro da Resistência Cívica de Santiago, quando percebeu a aproximação dos soldados de Batista. Os rebeldes tinham sido traídos por um delator.
Frank e Raúl tentaram fugir pela Rua San Germán, mas foram interceptados pelos homens do tenente José María Salas Cañizares. Os insurgentes foram espancados e levados até o Callejón del Muro, onde foram fuzilados. Frank tinha 22 anos. Raúl tinha 38.
O assassinato de Frank País provocou revolta e comoção em Santiago de Cuba. Milhares de pessoas acompanharam o cortejo fúnebre até o Cemitério Santa Ifigênia, transformando a procissão em um vigoroso protesto contra a ditadura. O revolucionário foi sepultado trajando seu uniforme verde-oliva e a braçadeira do Movimento 26 de Julho.
Uma greve geral espontânea eclodiu em Santiago de Cuba e se estendeu para outras cidades, tornando-se uma das maiores mobilizações populares contra o regime de Batista.
Fidel Castro lamentou profundamente a morte de Frank País. “Eles não sabem a inteligência, o caráter e a integridade que assassinaram”, afirmou o comandante. O jovem foi postumamente homenageado emprestando seu nome à Segunda Frente Oriental Frank País, o agrupamento guerrilheiro comandado por Raúl Castro.
Frank País permanece até hoje como uma das figuras mais reverenciadas da Revolução Cubana. Após o triunfo dos insurgentes, sua casa natal em Santiago de Cuba foi transformada em um museu e declarada monumento nacional. A data de seu assassinato, 30 de julho, é anualmente rememorada em Cuba como o Dia dos Mártires da Revolução.























