Quarta-feira, 12 de agosto de 2026
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Há 101 anos, em 20 de julho de 1925, nascia o psiquiatra, intelectual marxista e revolucionário martinicano Frantz Fanon, um dos maiores expoentes da luta anticolonial do século 20.

Nascido em um território sob domínio colonial francês, Fanon se voluntariou a combater as forças nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, integrando as tropas da França Livre. Posteriormente, ele atuou na luta travada pela Frente de Libertação Nacional da Argélia contra o domínio colonial francês.

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A obra intelectual de Fanon é centrada na análise do fenômeno do racismo e da psicologia da colonização, abordando seus aspectos sociológicos, filosóficos e psiquiátricos. O autor se consagraria como uma das maiores referências do pensamento anticolonial e anti-imperialista, influenciando movimentos de libertação nacional e as ideias do pan-africanismo e do nacionalismo africano.

A juventude de Fanon

Frantz Omar Fanon nasceu em Forte da França, capital da colônia francesa de Martinica, uma das Pequenas Antilhas do Mar do Caribe. Ele era o terceiro dos oito filhos de Casimir Fanon e Eléanore Médélice. Seu pai trabalhava como despachante aduaneiro, ao passo que a mãe era proprietária de uma loja de ferragens.

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Como era comum entre as famílias de classe média, os pais de Fanon incentivavam os filhos a assimilarem a cultura francesa, buscando emular os padrões de comportamento metropolitanos e ignorando as heranças culturais africanas. Ainda na juventude, Fanon percebeu as contradições desse modelo e observou que a sociedade martinicana permanecia profundamente hierarquizada por critérios raciais.

Um dos principais responsáveis pela politização de Fanon foi o poeta e escritor martinicano Aimé Césaire, um dos formuladores e ideólogos do movimento cultural da “Negritude”. Professor de Fanon no Lycée Schoelcher, Césaire se dedicou a incentivar a valorização da identidade negra e buscou denunciar a violência cultural do colonialismo e do eurocentrismo — temas que se tornariam centrais na obra de Fanon.

A Segunda Guerra Mundial

Após a eclosão da Segunda Guerra Mundial e a queda da França diante das forças nazistas, Martinica foi ocupada pelas tropas navais do regime colaboracionista de Vichy, comandadas pelo almirante Georges Robert. A experiência deixou marcas profundas em Fanon, que testemunhou o assédio violento e o tratamento abusivo e racista direcionado à população negra da ilha.

Aos 17 anos, indignado com os abusos dos colaboracionistas em Martinica, Fanon fugiu da ilha rumo a Dominica, onde pretendia se juntar às tropas da França Livre — o governo comandado por Charles de Gaulle no exílio. Fanon somente conseguiu chegar ao destino quando o governo pró-Vichy de Martinica já havia sido derrubado por um levante popular. Ele decidiu então retornar para Forte da França, onde se alistou no 5º Batalhão de Infantaria das Antilhas.

Fanon partiu com o Exército francês para o norte da África, servindo em bases do Marrocos e da Argélia. Em seguida, foi transferido para a França, onde enfrentou as tropas nazistas nas batalhas da Alsácia. Ferido em combate em Colmar, foi condecorado com a “Croix de Guerre” pelos feitos no campo de batalha.

O heroísmo de Fanon e suas contribuições para a libertação da França, entretanto, não o mantiveram imune às manifestações de racismo oriundas do comando dos Aliados. Após a derrota dos nazistas, Fanon e os demais soldados negros foram todos dispensados do regimento onde serviam e realocados em Toulon para serem repatriados.

“Pele Negra, Máscaras Brancas”

De volta à Martinica, Fanon auxiliou na campanha eleitoral de Aimé Césaire, candidato do Partido Comunista Francês à representação parlamentar de Martinica na Assembleia Nacional. Posteriormente, ele se mudou para a França, onde estudou medicina e psiquiatria na Universidade de Lyon.

Paralelamente à graduação, Fanon se dedicou a estudar literatura, teatro e filosofia. Interessou-se pelos textos de Jean-Paul Sartre, Jacques Lacan, autores da corrente “Negritude” e teóricos marxistas. Habilitado como psiquiatra em 1951, fez residência em um hospital de Saint-Alban-sur-Limagnole, onde trabalhou com François Tosquelles, veterano da Guerra Civil Espanhola e pioneiro da psicoterapia institucional.

Franz Fanon

Obra de Frantz Fanon exerceu influência sobre teóricos, intelectuais, revolucionários e movimentos anticoloniais
Wikimedia Commons

Ao lado de Tosquelles, Fanon ajudou a estabelecer abordagens terapêuticas mais humanizadas, com base na psicologia comunitária, visando estimular a integração dos pacientes à vida em sociedade. Em sua prática clínica, ele percebeu que muitos sofrimentos psíquicos tratados como puramente individuais tinham origem em estruturas sociais de opressão. Dedicou-se então a compreender como o racismo e o colonialismo afetavam a estrutura psicológica dos indivíduos.

Em 1952, Fanon publicou seu primeiro livro, Pele Negra, Máscaras Brancas. A obra apresenta sua interpretação psicanalítica da questão negra, abordando os efeitos do racismo, da desumanização e da internalização do sentimento de inferioridade, associando-os às experiências pessoais do autor e à situação de subjugação colonial.

No livro, Fanon argumenta que o racismo produz uma profunda alienação psicológica e social, levando os indivíduos negros a buscarem reconhecimento por meio da assimilação dos valores, da cultura e dos padrões impostos pelos colonizadores brancos. É essa tentativa de adaptação que Fanon simboliza através da expressão “máscaras bancas”, que as pessoas negras são levadas a “vestir”, em detrimento de sua própria identidade.

Pele Negra, Máscaras Brancas foi originalmente concebido como uma dissertação de doutorado, mas foi publicado como livro após ser rejeitado pela academia. A obra se tornaria um dos textos mais influentes dos movimentos antirracistas desde sua publicação.

A luta anticolonial na Argélia

Em 1953, Fanon se mudou para Argélia, então colônia francesa, onde assumiu o posto de chefe de serviços médicos no Hospital Psiquiátrico Blida-Joinville. Em sua gestão, Fanon buscou implementar abordagens baseadas na socioterapia, visando a reintegração dos indivíduos em suas comunidades.

A eclosão da Revolução Argelina em 1954 tornou sua função inconciliável com seus valores. Em seu trabalho, Fanon se deparava com muitos militares franceses que buscavam tratamento psiquiátrico em função das torturas e massacres perpetrados contra os insurgentes argelinos. Ao mesmo tempo, o psiquiatra também observava os traumas derivados da violência colonial imposta ao povo argelino.

Reconhecendo que não poderia mais seguir colaborando com as instituições coloniais francesas, Fanon pediu demissão. O forte respaldo do psiquiatra à luta anticolonial resultaria em sua expulsão da Argélia. Fanon se exilou então na vizinha Tunísia, onde ingressou na Frente de Libertação Nacional da Argélia (FLN), a organização que liderava a luta armada contra a colonização francesa.

Na FLN, Fanon produziu textos para o jornal El Moudjahid. Ele atuou como embaixador do Governo Provisório da República Argelina em Gana e buscou apoio para o movimento independentista em uma série de conferências sediadas no continente africano. Também ajudou a elaborar estratégias de guerra e administrar as necessidades logísticas da organização.

Os textos de Fanon produzidos durante esse período seriam postumamente compilados e publicados no livro Em Defesa da Revolução Africana, abordando temas como racismo, descolonização, pan-africanismo e a Revolução Argelina.

Em 1959, Fanon publicou Um Colonialismo Moribundo, uma análise política e social sobre a luta anticolonial em curso na Argélia. Na obra, o autor aborda a mudança de padrões culturais do povo argelino durante a luta contra a opressão colonial.

No ano seguinte, Fanon iniciou um périplo pelas comunidades do Deserto do Saara, buscando apoio para a abertura de uma nova frente de combate. Não conseguiria, entretanto, concluir a missão. Ao retornar para a Tunísia, o martinicano recebeu o diagnóstico de leucemia em estágio avançado.

“Os Condenados da Terra”

Fanon passou por tratamento na União Soviética, o que lhe permitiu uma breve remissão da doença. Passou então a escrever uma das obras basilares do terceiro-mundismo e do anticolonialismo: Os Condenados da Terra, em que defende a legitimidade do uso da violência pelos povos colonizados e oprimidos na luta para obter sua independência.

O livro identifica o colonialismo como um sistema essencialmente baseado na violência, exploração econômica e desumanização dos povos colonizados. A colonização é, acima de tudo, um sistema que destrói a identidade, a cultura e a autonomia política das sociedades subjugadas. Assim, a reação dos povos submetidos ao domínio colonial não deve ser refreada pelo discurso de obediência aos princípios “humanizados”. Se o colonialismo se impõe pela violência, é legítimo que que os colonizados recorram à violência para se libertar do jugo estrangeiro.

Na obra, Fanon argumenta que a resistência armada dos oprimidos contra a ordem colonial dá aos colonizados a chance superar a alienação inerente ao racismo, rompendo com o sentimento de inferioridade produzido pelo sistema colonial e recuperando a condição de sujeitos históricos.

Fanon também faz uma crítica contundente às elites nacionais que assumem o poder após a independência sem transformar as estruturas herdadas do colonialismo. Segundo ele, uma burguesia preocupada apenas em ocupar o lugar dos antigos colonizadores tende a manter a dependência econômica e as desigualdades sociais, frustrando as expectativas de emancipação.

Os efeitos da colonização sobre a cultura nacional é outro tema abordado em Os Condenados da Terra. Fanon explica que a cultura nacional não é um conjunto fixo de tradições, mas algo que se transforma durante a própria luta pela libertação. Ele critica tanto a imitação da cultura dos colonizadores quanto as armadilhas da folclorização e da romantização do passado pré-colonial. Segundo Fanon, é no processo de resistência coletiva que o povo irá redescobrir sua capacidade de criar suas instituições, valores e formas de expressão próprias.

O livro foi censurado pelo governo francês e seus editores sofreram forte perseguição. Escrito por Jean-Paul Sartre, o prefácio original de Os Condenados da Terra foi removido de algumas edições posteriores a pedido da viúva de Fanon, Josie, incomodada com o apoio do filósofo francês ao governo de Israel durante a Guerra dos Seis Dias.

Em outubro de 1961, Fanon viajou para os Estados Unidos a fim de realizar seu tratamento oncológico nos Institutos Nacionais de Saúde. A viagem foi viabilizada por um agente da CIA. O intelectual martinicano faleceu dois meses depois, em 6 de dezembro de 1961, aos 36 anos de idade.

A obra de Frantz Fanon exerceu enorme influência sobre teóricos, intelectuais, revolucionários e movimentos autonomistas e anticoloniais ativos após a Segunda Guerra Mundial — de Steve Biko na África do Sul aos Panteras Negras nos Estados Unidos, passando por Che Guevara em Cuba e Paulo Freire no Brasil. Seus livros tornaram-se referências incontornáveis para os estudos sobre identidade, subjetividade, colonialidade, descolonização e racismo estrutural.