Quinta-feira, 5 de março de 2026
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Há 166 anos, em 26 de fevereiro de 1860, ocorria na Califórnia o massacre do povo Wiyot, um dos episódios mais brutais da violência contra os povos indígenas dos Estados Unidos.

Visando tomar a Ilha Tuluwat, o centro espiritual do povo Wiyot, uma milícia de colonizadores norte-americanos invadiu o povoado indígena durante a madrugada e atacou seus moradores enquanto eles ainda dormiam, desferindo golpes de machado, porrete e facão.

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O ataque ocorreu durante os preparativos para uma cerimônia religiosa, quando quase todos os homens do povo Wiyot estavam ausentes, transportando comida e suprimentos. Estima-se que até 250 pessoas foram assassinadas no massacre — quase todos mulheres, crianças e idosos.

O povo Wiyot

Os Wiyot são um povo indígena algonquino que habita a Costa Oeste dos Estados Unidos desde a era pré-colombiana. Seu território ancestral se localiza no litoral norte do estado da Califórnia, estendendo-se da região do Rio Mad até a bacia inferior do Rio Eel — uma área rica em recursos naturais, marcada pelas belas paisagens das florestas de sequoia.

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A sociedade Wiyot congregava cerca de 2.000 indivíduos antes da chegada dos colonizadores. Eles se organizavam em aldeias permanentes construídas junto às margens dos rios e dos pântanos salobros. Moravam em casas de madeira e viviam da caça, da pesca e da coleta de alimentos.

A organização social dos Wiyot estava profundamente ligada à religião. Eles possuíam um sistema de crenças fortemente vinculado aos elementos e fenômenos naturais. As mulheres tinham papel central na vida religiosa, quase sempre exercendo o posto de xamãs. A elas se atribuía o poder de cura e a capacidade de intercessão junto aos espíritos das montanhas.

Localizada junto à Baía de Humboldt, a Ilha Tuluwat era o centro espiritual do povo Wiyot. Os nativos a chamavam de “o coração do mundo”. A ilha servia de sede à tradicional Cerimônia de Renovação do Mundo, um ritual anual de equilíbrio cósmico que se estendia por até 10 dias, envolvendo danças, cantos, orações e oferendas para restaurar a harmonia entre os humanos, a natureza e os espíritos.

A corrida do ouro e os conflitos com os colonizadores

Os Wiyot foram um dos últimos povos nativos da Califórnia a ter contato com os colonizadores. Embora a região da Baía de Humboldt pertencesse formalmente aos domínios da Espanha (e depois do México), a construção de postos coloniais não avançou além da Baía de São Francisco e as terras ao norte permaneceram quase inexploradas.

A primeira incursão documentada ao território dos Wiyot ocorreu em 1806, quando o capitão Jonathan Winship, a serviço da Companhia Russo-Americana, aportou na Baía de Humboldt. Os exploradores foram expulsos pelos nativos, mas as incursões se tornaram cada vez mais frequentes nas décadas seguintes.

Em 1848, após a assinatura do Tratado de Guadalupe Hidalgo, a Califórnia foi incorporada ao território dos Estados Unidos, a nação triunfante da Guerra Mexicano-Americana. Nesse mesmo ano, os colonizadores anunciaram a descoberta de ouro na região de Serra Nevada.

A corrida pelo ouro teve um impacto devastador para as nações indígenas da Califórnia. Mais de 300.000 pessoas imigraram para o estado nos anos seguintes, resultando em conflitos fundiários, expulsões, destruição do modo de vida dos povos nativos e institucionalização de políticas de extermínio e trabalho forçado.

Milícias de colonos e expedições armadas atacavam sistematicamente as aldeias indígenas, resultando em uma sequência interminável de chacinas e massacres. Enquanto latifundiários, pecuaristas, madeireiros e mineiros se apoderavam das terras, a população nativa era drasticamente reduzida. Estima-se que mais de 16.000 indígenas foram mortos na Califórnia entre os anos de 1846 e 1873.

Os primeiros contatos entre os Wiyot e os imigrantes atraídos pela corrida do ouro foram relativamente pacíficos. Em 1849, o explorador Josiah Gregg liderou uma expedição até a Baía de Humboldt. Os colonizadores foram bem recebidos por Ki-we-lat-tah, o chefe dos Wiyot, que ofereceu abrigo e um banquete de mariscos aos forasteiros.

O aumento do fluxo migratório e o avanço dos euramericanos sobre as terras indígenas, no entanto, logo levaram ao agravamento das tensões. De olho nas terras pertencentes aos Wiyot, os colonizadores passaram a descrever os indígenas como “selvagens perigosos” e “obstáculos para o progresso”.

Os Wiyot eram conhecidos por sua natureza pacífica. Viviam em paz com as outras nações indígenas e nunca iniciaram um enfrentamento contra os colonizadores. Mesmo assim, os nativos foram acusados de cometer crimes como roubo de gado e passaram a ser rotulados como “hostis” à presença dos brancos. Grupos armados começaram a patrulhar o território e a promover expedições punitivas contra comunidades indígenas.

Os abusos contra os nativos se intensificaram na década de 1850. A promulgação do “Ato para a Proteção e Governo dos Índios” deu respaldo legal à escravização da mão de obra indígena, além de facilitar o deslocamento forçado dos nativos para reservas do governo, onde as condições de vida eram sofríveis.

Povo Wiyot
Via Rio On Watch

O massacre

A cobiça dos colonizadores sobre as terras indígenas chegaria ao seu mórbido ápice em fevereiro de 1860, resultando em uma chacina hedionda. A ofensiva começou logo após o engenheiro alemão Robert Gunther adquirir uma vasta propriedade localizada na Ilha Tuluwat — o santuário sagrado dos Wiyot.

Dois dias depois da aquisição, em 25 de fevereiro de 1860, o jornal Weekly Humboldt Times publicou um infame editorial clamando abertamente pela aniquilação da população nativa da ilha. “Os índios seguem matando o gado dos colonos e continuarão a fazê-lo até que sejam expulsos da região ou exterminados”, afirmava o periódico.

O clamor do jornal seria prontamente atendido. Na madrugada de 26 de fevereiro de 1860, um grupo de colonos cruzou a Baía de Humboldt e aportou na Ilha Tuluwat. Aproveitando-se da escuridão, os milicianos avançaram pela ilha, armados com rifles, machados, porretes e facões.

A data não foi escolhida ao acaso. A incursão ocorreu no início da Cerimônia de Renovação do Mundo, a mais importante celebração dos Wiyot. Durante os festejos, os homens saudáveis costumavam deixar a aldeia e percorrer longas distâncias em busca de comida e suprimentos. Permaneciam na ilha, portanto, apenas as crianças, as mulheres e os idosos.

O massacre teve início por volta das 6h da manhã, enquanto os indígenas ainda estavam dormindo. Os colonizadores cercaram a aldeia e iniciaram o ataque, invadindo casa por casa. Para evitar que os tiros alertassem os moradores de Eureka, uma cidade situada próxima à ilha, os milicianos usaram facões, machados e bastões.

A matança se estendeu por várias horas, enquanto os gritos ecoavam pela ilha. Estima-se que o massacre tenha deixado até 250 pessoas mortas — quase todas mulheres e crianças.

Robert Gunther visitou a ilha logo após a chacina e afirmou ter visto “cadáveres por toda parte, todos de mulheres e crianças”. O jornal “Northern Californian” relatou que havia corpos até nos abrigos cerimoniais e nos espaços sagrados. As vítimas tinham “as cabeças partidas a machadadas ou esmagadas com porretes”.

Ataques semelhantes aconteceram simultaneamente em outros pontos da região. No mesmo dia, em South Beach, a poucos quilômetros de distância de Eureka, milicianos atacaram outra aldeia, matando 58 pessoas. Três dias depois, um novo massacre ocorreu em um povoamento indígena no braço sul do Rio Eel, deixando 40 mortos. Por fim, uma terceira chacina ocorrida na mesma semana deixaria 35 nativos mortos em Eagle Prairie.

Responsáveis, reações e consequências

Os Wiyot que sobreviveram ao massacre foram forçados a deixar a Ilha Tuluwat e transferidos para o Forte Humboldt, onde ficaram sob custódia do Exército dos Estados Unidos. Mais da metade desses indígenas morreria no próprio forte, vitimados pelo frio, pela fome e por epidemias.

Posteriormente, os Wiyot remanescentes foram enviados para as reservas indígenas de Klamath e depois dispersos por instalações do governo norte-americano em Hoopa, Smith River e Round Valley.

A Ilha Tuluwat, o “coração do mundo” dos Wiyot, foi inteiramente convertida em propriedade particular de Robert Gunther, que a transformou em uma fazenda leiteira. Posteriormente, a ilha abrigaria um estaleiro de reparos, o que causou sua contaminação por produtos tóxicos.

Os responsáveis pelo massacre na Ilha Tuluwat foram identificados pelo major Gabriel Rains. Em um relato aos seus superiores, o oficial admitiu que “a Companhia do Capitão Wright realizou uma reunião em Eel River e decidiu matar todos os índios pacíficos — homens, mulheres e crianças”.

Rains se referia à companhia “Voluntários de Humboldt”, uma milícia de colonos sediada em Hydesville e liderada pelo capitão Seman Wright. Os assassinos não faziam questão de esconder sua identidade. Um jornalista do “Bulletin” chegou a escrever sobre um morador de Eureka que se gabava abertamente de ter assassinado 60 bebês indígenas.

Apesar da gravidade dos crimes e do fato de os autores serem bem conhecidos, ninguém jamais foi indiciado ou punido. Ao contrário: os colonizadores apoiaram o massacre e tentaram responsabilizar os próprios indígenas pela violência que sofreram.

O xerife local, Barrant Van Ness, justificou a matança dizendo que os Wiyot “roubavam o gado”. Já o jornal “Humboldt Times” publicou editorial afirmando que o massacre comprovava que “as duas raças não podem viver juntas” e exortou a expulsão dos indígenas.

Uma notável exceção foi o escritor Bret Harte, que publicou um artigo criticando a matança e descrevendo-a como “o espetáculo mais chocante e repugnante já exibido aos olhos de um povo cristão e civilizado”. As críticas de Harte causaram indignação na população local. Ameaçado de morte, o escritor teve de abandonar seu emprego e mudar de cidade.

O retorno dos Wiyot

Os Wiyot foram quase totalmente aniquilados pelo massacre e pelas internações compulsórias a que foram submetidos. Em 1910, sua população congregava menos de 100 indivíduos — uma redução de 95% em relação aos números da era colonial.

As tradições culturais dos nativos foram duramente reprimidas e até a língua Wiyot foi banida. O último falante nativo da língua faleceu em 1962. Nos anos 60, uma lei estadual da Califórnia extinguiu o status legal dos Wiyot como povo indígena.

Apesar das enormes dificuldades, o povo Wiyot sobreviveu e hoje tenta se recuperar. Os indígenas conseguiram reaver o status de nativos na justiça e conduziram uma série de campanhas em prol da retomada de suas terras.

Após a compra de alguns hectares, financiada por doações e coleta de fundos, os Wiyot retomaram uma parte da Ilha Tuluwat. Eles também conseguiram na justiça a devolução de parte das terras da Baía de Humboldt (hoje concentradas na Reserva Table Bluff).

A Ilha Tuluwat foi descontaminada pelos próprios indígenas e liberada pelas autoridades sanitárias em 2014. Em 2019, a prefeitura de Eureka concedeu aos Wiyot o título definitivo de propriedade sobre toda a extensão da ilha. O povo Wiyot conta hoje com 600 membros e tem buscado recuperar sua língua e retomar suas celebrações e tradições ancestrais.