Guerra do Pente: um levante xenofóbico em Curitiba
Caso contra comunidade árabe gerou uma das maiores revoltas populares da capital paraense, começando após a recusa da emissão de uma nota fiscal
Há 66 anos, em 10 de dezembro de 1959, chegava ao fim o maior conflito civil já registrado na história de Curitiba — a chamada “Guerra do Pente”.
O episódio teve início após uma briga entre um policial militar e um comerciante libanês que se recusou a emitir uma nota fiscal pela compra de um pente de 15 cruzeiros.
O desentendimento evoluiu para uma revolta popular de cariz xenofóbico. Culpando os imigrantes pelas dificuldades econômicas e problemas sociais, uma multidão de manifestantes passou a depredar, saquear e incendiar os estabelecimentos pertencentes a comerciantes árabes.
Os ataques se prolongaram por três dias, resultando na destruição de centenas de lojas. A revolta só foi contida após a intervenção das tropas do Exército, que ocuparam a capital paranaense com tanques de guerra.
Os imigrantes árabes
Entre a segunda metade do século 19 e as primeiras décadas do século 20, o Brasil se tornou um dos principais destinos da diáspora árabe, recebendo um grande fluxo de imigrantes oriundos da região do Levante, sobretudo sírios, libaneses, jordanianos e palestinos. O Itamaraty estima que o Brasil possua entre sete e dez milhões de habitantes com ascendência árabe — o que representaria a maior comunidade da diáspora em todo o mundo.
As primeiras levas migratórias congregavam, sobretudo, pessoas que buscavam fugir das crises econômicas, dos conflitos militares e das perseguições religiosas insufladas pelo Império Otomano. Cerca de 65% desses imigrantes eram católicos (maronitas e melquitas), 20% eram ortodoxos orientais e 15% eram drusos ou muçulmanos.
O perfil religioso da imigração árabe se alterou no século 20. A ocupação colonial europeia imposta após fragmentação do Império Otomano, as guerras civis, os conflitos derivados dos processos autonomistas e a destruição provocada pela Segunda Guerra Mundial fomentaram novos fluxos migratórios. Desta vez, no entanto, os muçulmanos eram a maioria absoluta.
O estado do Paraná absorveu boa parte dos árabes que chegaram nessa nova onda migratória. A cidade de Foz do Iguaçu se converteu na sede da segunda maior comunidade árabe do Brasil, concentrando mais de 20.000 pessoas. Uma outra comunidade árabe bastante expressiva se formou na capital do estado, Curitiba.
As tensões sociais
Muitas famílias de imigrantes árabes prosperaram com o comércio varejista, montando lojas de roupas, bijuterias, utensílios domésticos e artigos variados na região central de Curitiba. A forte presença de árabes no comércio também se verificou em outras cidades do estado como Maringá e Londrina.
Os imigrantes árabes se integraram rapidamente à sociedade brasileira e aos poucos foram se organizando e criando órgãos de representação, clubes, fraternidades e associações de assistência mútua. Esse processo, no entanto, também foi pontuado por tensões sociais e episódios de xenofobia.
A prosperidade dos comerciantes árabes e sua progressiva integração nos espaços decisórios causou certo incômodo nas classes mais abastadas de Curitiba — algo evidenciado pelas ações que a prefeitura da cidade passou a conduzir contra as lojas de imigrantes nos anos 50, tentando mantê-los afastados dos espaços reservados ao “comércio de luxo” da cidade.
Na outra ponta, esses imigrantes também seriam atingidos por um sentimento difuso de descontentamento popular. Ao término dos anos 50, a classe trabalhadora brasileira sofria com a perda de seu poder de compra. O governo de Juscelino Kubitschek havia conseguido impressionantes índices de crescimento econômico, mas a população não sentia os efeitos positivos do avanço do PIB.
Em 1959, os salários estavam em queda, a desigualdade estava crescendo e a inflação galopava, aproximando-se dos 30% ao ano. No Paraná, havia também a insatisfação com o governo estadual, mergulhado em escândalos de corrupção. Mas foram os imigrantes árabes no estado que se tornaram bodes expiatórios para a insatisfação da classe trabalhadora.
O estopim do conflito
Em Curitiba, as tensões sociais explodiram em dezembro de 1959, durante a chamada “Guerra do Pente”. O nome é autoexplicativo: o conflito teve como estopim um desentendimento na compra de um pente de plástico.
À época, o governador do Paraná, Moisés Lupion, havia lançado um programa para combater a sonegação fiscal e ampliar a arrecadação. A campanha, intitulada “Seu Talão Vale um Milhão”, incentivava os paranaenses a exigirem as notas fiscais das suas compras.
A cada três mil cruzeiros acumulados em notas, os consumidores tinham direito a um cupom para participar de sorteios, nos quais eram pagos prêmios de até um milhão de cruzeiros.
Na tarde de 8 de dezembro de 1959, o subtenente da Polícia Militar Antônio Tavares comprou um pente de 15 cruzeiros no Bazar Centenário, uma loja de utilidades localizada na Praça Tiradentes, no centro de Curitiba. Ansioso pelo seu cupom, o militar pediu a nota fiscal.
A requisição foi negada pelo dono da loja, o imigrante libanês Ahmed Najar. O proprietário explicou que o valor mínimo para a emissão da nota era de 50 cruzeiros. Tavares não aceitou a explicação e passou a exigir sua nota aos berros.
A discussão acalorada evoluiu para uma troca de ofensas e logo culminou em agressões físicas. Durante a briga, Tavares teve sua perna quebrada. Em seguida, o policial foi arremessado para fora da loja por Najar e seus funcionários.
Os transeuntes se revoltaram com a cena. Um grupo de homens que estava em um bar ao lado observando a confusão reagiu de imediato, invadindo e quebrando o estabelecimento. Não demorou para que outras pessoas se juntassem à ação, atirando pedras contra a loja.

A Guerra do Pente
Via Paraná Histórica
A Guerra do Pente
A confusão logo se estendeu para os comércios vizinhos. Lojas pertencentes a imigrantes árabes — pejorativamente rotulados como “os turcos” pelos populares — passaram a ser depredadas e saqueadas.
A multidão foi crescendo, até chegar a milhares de pessoas. Centenas de lojas foram destruídas ou incendiadas. Além dos imigrantes árabes, os populares também atacaram estabelecimentos de comerciantes judeus e italianos. Bares, restaurantes, bancas de revista e até barracas de camelô e carrinhos de pipoca foram atacados.
O centro de Curitiba se converteu em uma praça de guerra. Logo, os edifícios públicos também se transformaram em alvos da turba furiosa. Os manifestantes depredaram edifícios como a Biblioteca Pública do Estado, a Chefatura de Polícia, a Comissão de Abastecimento e Preços (COAP) e até a sede do Instituto de Previdência (IPASE).
A xenofobia era bastante evidente. Os populares proferiam insultos aos “turcos” e os mandavam “voltar para a sua terra”. À medida que avançavam pelo centro de Curitiba, gritavam palavras de ordem como “quem manda aqui somos nós” e “o Brasil é dos brasileiros, não dos estrangeiros”.
Na Avenida Jaime Reis, um grupo de pessoas cercou o famoso casarão do empresário sírio Miguel Calluf. Os manifestantes pretendiam incendiar a residência, mas foram contidos graças à atitude do padre Emir Calluf, que apareceu na sacada para abençoá-los.
O conflito se estendeu até a madrugada, quando a polícia dispersou os populares, usando a cavalaria, as tropas de choque e bombas de gás lacrimogêneo.
Na manhã seguinte, os comerciantes retornaram às lojas para realizar a limpeza e contabilizar os prejuízos. A revolta, no entanto, ainda estava longe de acabar. Por volta das 9h da manhã, os manifestantes retornaram ao centro de Curitiba, ainda mais furiosos.
Mais uma vez, dezenas de lojas foram atacadas e depredadas. Um comerciante árabe que tentou impedir a entrada da turba em seu comércio foi linchado e arrastado pelas ruas. Ele seria internado em estado grave.
A polícia foi enviada novamente para dispersar a multidão, mas dessa vez foi firmemente confrontada pelos manifestantes. Incapaz de conter a revolta, o governador Moisés Lupion pediu ajuda ao Exército Brasileiro.
Um enorme contingente de soldados foi despachado para Curitiba. O capitão José Olavo de Castro comandou a operação, enviando tanques de guerra e pelotões armados com metralhadoras e baionetas para ocupar toda a região central da cidade. A repressão foi brutal e atingiu tanto os manifestantes quanto os comerciantes e os jornalistas que cobriam o conflito.
O Exército decretou toque de recolher, ordenou o fechamento dos bares e comércios e prendeu dezenas de pessoas. Os manifestantes ainda tentaram reiniciar a revolta no dia 10 de dezembro, mas, com os soldados e tanques espalhados pela cidade, os protestos foram minguando e a agitação social chegou ao fim.
O quebra-quebra permanece até hoje como a maior revolta popular já ocorrida em Curitiba. O episódio foi tratado no filme A Guerra do Pente, lançado nos anos 80 pelo cineasta Nivaldo Lopes.























